A língua chama asim, e só este chamar já guarda uma dominação.
Palavras que não designam bem a cor, a luz: flutuam, se aferram mais a significados que à pele bonita de um povo.

Fiquei branco de medo, lívido; exangüe. Branca de neve, de gelo imortal no topo das montanhas e dos polos frios, ou do inverno recolhido. Página em branco, virgem, pronta a ser preenchida. Voto em branco, chapa branca, sem cor, sem partido, indiferente. Cheque em branco. Brancura dos lençóis, dos lenços, dos jacelos de cientista e de hospital; brancura da assepsia, da higiene. Papel higiênico. Não deixar passar em branco, imauclado. Xi, me deu um branco agora. Leite branco dos ossos brancos, via láctea e galáctica e a luz branca da lua e de nossas lâmpadas fluorescentes. Brancos dentes, branca porra do homem, semente da vida.

Mandar esfregar com sabão forte o filho que sai mais escuro, em meio a claros, clarear do pigmentao diluído, até tocar no albino. Nudez da pele fina sem o sol, ser escondido de caverna e noite. Pálido. Passar pó-de-arroz.

Arroz com feijão.

Mercado negro, anos negros, o céu negro da noite. O escuro da caverna, chamar escuro e escuridão. Meu lado negro. Magia negra. Negação.

Eu a rigor sou é amarelo, cor de pele.
neste país de Cocanha
comer figos, rasgar a casca seca
enterrar-se na duna de farinha torrada
comê-la, sugar água das rachaduras
do encanamento
Gostosamente, põem as máscaras coloridas, com cornos e focinhos pronunciados, vibra de vermelho, e cada tanto em quê, não se sabe, mas as trocam, a ponto de só terem de referência tais roupas endemoniadas, perdidos os nomes nesta ciranda de faces trocadas.

Eu? sou um sangue
tinta vermelha
tinta vermelho escuro
tinta de carne

uma pilha de cartuchos vazios com restos de tinta
empilhados
vidrinhos de tinta
potinhos plásticos
garrafinhas várias
da tinta que nunca usei

sedimentados num canto do quarto
enterrados na carne
pendendo, juntando

como uma poça d'água escorrega
para dentro da cama
A fina
ponta dos meus dedos
risca o contorno
das suas orelhas.
Desfaço mechas
e nós
como um pente de carinho.
Afago em ondas, preguiçosas.
Meu nariz, eu aproximo
roçando agora também os lábios
e o cafuné se perde
em um colo de beijocas bobas e
amor ao seu perfume.

Tão quieta, a noite
você dormindo.
vai! maria antonietaaaa-taratata-tará-tá-tá!!!!!
decapicá decapitá
vai, vai!
marieta-marionetaaaaaa! trá! trá! trá!
Nela, nesta mulher
os homens entravam já grandes
nela enraizavam, e cresciam.

Cultuavam a deusa
mulher vagina, onde
pelo umbigo enraizavam.
precisamos é de uma máquina de cunhar moedas

com furo para passar a linha

leves - podem ser de madeira com um selo??
não teriam o peso do metal


estou torcendo pra não morrer de intoxicação com tinta
C é U



          e
    o SS
P         o
nozes
senso

sopa edos


ned



odedos
sopapo


azia beize
sax xás

        ,
  axe
´
otinbsow
mosquito

chupar do dedo furado
renascimento

suicídio do autovampiro narcisista
A       nariz
B    + nariz
___________

C    2  nariz
irmães
ir mãos

anarcoclericalismo

este livro não é seu
asse essa
ss   ss  ss
assa esse

asno
ouse
o
ss
o
Procuro, a brecha, a falha na parede, na rocha rija que nos impede o gozo, o vão em que me enfio, corpo e alma, cunha humana, cinzel para abri-la e vê-la jorrar. Completo estou, de fantasmas serenos, que mais valia partilhar, estendê-los em varal pelo mundo, em sua trama de arames que impede a rocha de se fechar. Mais urgente então, encontrar o ritmo, e, aos solavancos, fazê-los sair, um a um: vesti-los de letras, estátuas de tinta, cristais duros que se encaixam, tomam rumo, formam-se mosaico e quebra-cabeça. Nenhum nexo estas letras em solto, mas o que aprendi: expandir, multiplicar, deixar o duro ritmo das estacas tomar conta, e a trama, impossível, se deixará formar.
Procuro, procuro, a palavra certeira, a frase, o ponto exato do corte-começo do texto. Por onde o que é plano se torna Linha, sucessão,
desenvolvimento, Combustão.

Feito o furo, é só seguir seu percurso, o pior já está feito. Um corte, a caneta fura o papel de repente e a tinta começa a jorrar.

Mas onde deve ser lançado? Onde o furo, onde a brecha, a falha que permite entrarmos, picareta em punho, dentro do quadro?

Estou sentado, pensamentos ao vento, nuvens passam e eu atento, com minha armadilha de pescador.

Lancei um anzol no céu, pra pescar o sol - e de quando em quando, me sobressalto, faço menção de bater a faca: é ali!

mas não, o momento se esvai, ou nada pior que resvalar o cinzel na pedra, riscar o duro. Tomado o ponto falso,

a caneta quebra, a ideia morre... procuro, procuro, o tema, o contorno, a figura falhada que rebenta num fio de pedaços,

tornar-se então isto, um percurso, um gesto, uma jogada de corpo no abismo, um desfiar da nuvem em novelo, algodão,

e esticá-lo, e cozê-lo, tessitura do texto.
escrita rio, a linha da cabeça jorrando
não escreva poemas de amor
- vai que ela já é poema

Tenho medo do vento. Pare, vento, de soprar tão forte! As árvores vergam, levadas pelos seus chumaços de folhas, como velas de navio. Não, são os navios que as imitam. Pare, vento, de soprar tão forte! De estalar a casa, e apertar as portas, as janelas. Deixe o que está quieto, estar! Deixe estar! Pare, deus do vento, ó, deus do vento. Parece sempre que tem gente aí. E não terá? Vento! Que susto você me dá! Não consigo o sossego com você soprando! E a casa toda em ruídos. Movimentos. Que fantasmas voam por aqui? E se, e se é certo, e se é justo o inverso, e se são as árvores a soprar e dizer, a espirrar em nós, afoitas e com seus galhos carregam o ar e nos cobrem? O som parece a chuva, tocando gotas nas mil folhas. Mas vem em ondas, emergências, urgências. Como se houvesse Algo que se pudesse fazer. Me deixa à espreita, alarmado, esperando. Esperando nada. Com medo. Medo do vento que sopra tão forte que uiva. Que bate portas e derruba árvores. Que vem do céu! a raiva dos ares. É só o ar, escorrendo de um lado a outro? É mais. É um medo na terra. Um medo do vento que vem invisível com seus dedos de frio nos assustar da cama para esperar, em prontidão, que ele se vá. Que o ar se acalme, que o invisível largue suas raivas e se acomode. Oxalá seja logo. Oxalá dure pouco. E se escrevo, peço, que seja logo. Que o vento volte a dormir, e eu possa, novamente, dormir.
Em Harmonia, quando não precisarmos ir a parte alguma, os carros serão brinquedos de freiada, do gosto do seu ronronar. Atolemos alguns para ver a roda cuspir terra, afoguemos outros para borbulhar fumaça n'água. Sem combustível, serve de armário e pra esconder gato debaixo. As crianças vão adorar.
No início só havia gado e galinhas
tudo era prédio, a perder de vista
enorme massa de concreto, e criadouros
dos animais comestíveis. Eis que
principiou a decadência, novas
galinhas transgênicas, voavam, piavam
faziam ninho no topo do edifício
que por sua vez ruía, virava areia. O mar
apareceu dum enorme vazamento
na fábrica de água. Um cano estourado
para horror dos ambientalistas. E o desastre
somente aumentava, e derrubava
parte dos quarteirões bem-alinhados. A praia
começou na portaria, e foi crescendo.
Peixes de aquário fugidos, viraram tubarões,
antes produtos kitsch, de brilhar no escuro.
Muitos robôs perdidos
e corroídos, perigosos, contribuíram
para a selva. Ferrugem, energia solar,
mais uns quantos em coma, vegetativos,
cresceram musgo e fotossíntese, corpos dormentes,
daí veio as árvores. E as galinhas,
de bico cortado, fugiram
nos mais variados estilos, umas
de asa grande, outras correndo, nadando
sobre dois pés, as mais altas,
já nem cacarejavam, riam
os ovos chocando do lado de dentro
criando nos ninhos, de palha, paredes,
até criarem domésticos, uns animais
humanos, de engordar
e comer.
Ele queria foder muito seu carro
enfiar o pau pelo cano de descarga
roçar o aço, o pau no buraco da gasolina
no motor, encher o estofamento de porra
Eu? sou um sangue
tinta de carne
um resto de tinta
sedimentado, num canto do quarto
juntando
como uma poça dágua escorrega
pra dentro da cama
A cantora de ópera tem
na unha do pé uma cor:
ESMALTE! ela grita, soprano
o braço branco do dinheiro
milionários risonhos e maravilhosos
Completar o engradado

- geometria alcoólica
desafio estético -

são vinte e quatro garrafas
de felicidade
de seu carro vermelho
parada na estrada
gordinha senhora
abana, frustrada.
Página vazia,
bem-vinda ao não ser!
Compreendo teu esquecimento,
teu relegar ao tempo,
teu subjugar à memória
e ao vento.
Sou também perpétuo desfazer!
Deleita-te no teu leito de telhas leitosas, ó luta tardia, duelo do tudo e do dado. Dadaísmo de tolos, no lodo do labutar, baloiçantes de lombos, balidos, mar. Nego-te, senão, nem pensar!
Barulho: em alemão
barulho é Barulho
com B maiúsculo - mas eu
tenho um verbo e
eu barulho e o barulho
do meu verbo é
minúsculo
Duvida que eu faça um poema?
É assim: teu sorriso gira.
Alguns dizem que é a meia-lua rindo
a simples beirada da lua cheia - eu não.
Sei bem que está ali escondido
um círculo inteiro
rodopiante redemoinho
engolindo navios desavisados;
e que seus olhos são dois torvelinhos
infindos que o cercam;
e fico eu navegando
nos oceanos irrequietos
girando, porque seu sorriso
é a lua cheia escondida
me tragando e me engolindo.

eu amo, ela drama
depois inflama
não sei porque reclama
empredadores
e represas
estas corações da cor
coragem sobre mim
o oco da boca
(não cabe)

labio de la biografía
vida e volta
sapato e espírito
meus nervos de espaço
aceito conceito
           congelo
           comprimo meu primo
nada nem que a gente morra desmente o que agora chega à minha vó
aturo
costuro
futuro

ouvido duvida, ouviste a revista? ouriço ou eriça - o urina ouro...

- Olha, você ou viu, ou ouviu.
- Ou vi.
- Espera, você ouviu ou viu? Ou ouviu ou viu! Ou viu ou ouviu - ou viu - ou ouviu; ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu -
- Chega que eu intuo tudo telepaticamente
a UPP papou papai: pá-pum!

o papa Pio poupa o piu-piu
engole a gula a
guloseima
em goles

golias en
golia a
engula
enguloseima

lenguloseima lêngula
a lêngula lengolias alengula
lengoles aos goles um golinho
agolias língula golula, logulaseima
entro por um ouvido mas não
consigo sair
por favor
Picotar picolé de html alcaçuz. Zarabatanas de néctar em cima dos meus punhos
poesiapoeira
poeirume
poesinha

ambrosinha a broesia
novembrosia
mandumes de baleias
manadas de cardumes
manadumes de nada
cardunadas
Uma maçã inteira
Já está pela metade
E na terceira linha
Terminou.
só acredito
VENDO
a ave viu a vulva e voou

o uivo vivo
a alva eva
o véu é vil

o olhouvido ouvê
converso a conversão, converto
subverto
desvirtuo virtualmente tudo
a virtude
é conversível no reverso, irreversível
me divirto
verto advertências na vertigem
vertical aversão,
avesso do perverso
observo o servo reservado
rejeito o sujeito, desse jeito
ejeto o projeto objeto, injeto o dejeto

dissidente do dissídio, presidente do presídio, subsídio insidioso do assédio acidental, era acidez, incisão, rescisão do resíduo sideral
jangada de junco gingava de gim
jejum de jongo, jegue
mugia vagidos
vagia aljavas
gelava javalis
eu ouvido
tu revidas
elæ devidamente,
devidido,
dividedo -
nós duvideodamos
vós...

o profeta do prefeito

feitura pura do enfeite
infectado de defeitos "afetuosos"
- confete na confeitaria

oprimo meu primo
comprimo, reprimo
(exprimo, imprimo o comprimido)
deprimo; suprimo
consumo, eu quasi sumo
é o quasi çumo
nós quasi sumo... o quê?
- eu conçumo, tu preçumes, ele çume
- tu preZumes, com 's'
- eu açumo, tu reçume
- reZume!
- eu cumo tu comes ele recome
- eu como e recomo, me diz, como?
(interrompendo)
- olha aqui vocês vão parar com essa PALHAÇADA senão eu janto e sobremeso os dois
a poesia é a língua dos olhos nágua
o sentido na linha dágua
o sentido fora dágua

é a sede do peixe
if i tit
if i fit tiff
if it tit

if tit, fit it tiff
i f t i t f i t i t t i f f
morada da letra
só a poesia é cega
porque ceia
o inglês falhou por culpa do apóstrofe
crime das letras sem contato físico
am'or não vibra lo've lov's
eu sim tu sou ela céu
eu sol tu sal ele seu
cego do sussego ego
in sul tu sol
eu sem tu'a mão
um leão branco leitoso correndo em meio um tufão de animais leitosos mármore de vida branca quasi plantas, eu no jardim desta mansão imensíssima de que desenho os quartos; elis passão por mim eu deixo um dálmata e mais outras cair dos meus braços pa que a turba a leve rodopiando.
bate o sino, é hora, é hora d'algo
tô feito estética perto da perspectiva do estetoscópio perfeito
tu perturba a turba
percebe o sebo?
perigo do amigo não, peramigo, peraí amigo
nova barriga 30 horas
barriga que não fecha
esse é o edifício brabo
foi construído entre a fábrica de frio e o corpo do bombeiro
tinha um jardim na barriga
mas
veio o jardinheiro -
eu vomitei antes que pudesse continuar
simplex
complex

(perplex)
complexo complico
completo conflito
repleto reflito, replico
aflito eu aplico

eu aceito tu receitas
eu concebo
tu percebes
ela recebe
nós decepcionamos (eu decepo)
vós excepcionais (desta vez)
e eles,
susceptíveis que são,

não passam dessa frase

eu aplico
tu implicas
ele explica

nós complicamos
vós replicais
eles suplicam
Um homem entra, sua bota entra, a porta entra no quarto seguida de cadarços militares em estrondo, o fuzil nos meus olhos e daí à mudez absoluta enquanto ele vira e revira minha alma procurando algo e eu espreito, em fascínio, o olho negro da morte a me mirar. Ele se vai.
Corpo, usina de sangue, girando sobre suas máquinas; alimentando-as de ar e combustível, retirando-lhes a fumaça

le sang

azul é o sangue do céu
que cai em córregos e forma o mar
que sobe ao ar e engrossa e dobra
manchas amassadas de mar branco
- Este é meu cãozinho Tempo, o melhor amigo do homem.
a dúvida divide em dívidas
(doidivana dádiva vívida da vida)

vêm as dúvidas, como zumbidos
vocejando em meu entorno e a tudo levantando
lívidas, erínias, mínimas deusas diablitas
a gorgorejar o paz de esprírito

vade-rectum! lhes desinvoco
descobrir-lhes mudas ao simples
descer das pálpebras e
lavar o céu dos olhos
Surge aqui uma figura de cujo batismo eu denuncio
será assim a Etimolaria, e bem-aventurada será.

vocal

     vocação, essa
convocação, essa
  invocação provocante

coreografia

acorda
a cor
do corpo,
o acordo

recorda
a coragem
    corada
da cor

decora
o couro
do coro,
a cura e a
secura
do coração

quero a cara do carinho, o coração e o coracinho
a querida coroa, a cárie coroada, o coringa! curare
- Não, nada de nananinanão de nada, dona danadanadona!
nem garfadas nem garbruxas, um leito de almafadas e alfáceis úlmidas
almafácida, como algema de ovo
algemidos de gelar o osso
um tecido almofadado, calmo, clamufado - clamores abafadados

fada da alma, féerica alma da almofada, alfado da almoface
algumofada bruxa da broxada, minha ochecha echonchuda

plantei alface mas deu difíce
fácil fécil fícil ou difícil? misturado, difácil e físsil
primeira-feira... 
cuidado pra não cair no buraco negro da doideira
aproveitando tudo isto, que é palavra, é voz, som para analfabetos mas também desenho, partitura para recitarmos, ou, finalmente, hieróglifo: escrever seria esse ir e vir de cores recitadas e seus ecos; "são músicas, são das musas".
um apartamento lá no fundo da terra
era estação de sismos então máquina do tempo e tudo
cheia de monstrinhos de outra imaginação
você descia por uma hora, um tempo grande
com a chuva já era frio e cheio de rios e mergulhos
(engraçado não ter lembrado jules verne)
lá embaixo tomar banho quente, uma casa num lago raso, piscina e bom

anuncio o cio, negocio

anuncie o cio
a saia anseia a sua ânsia, o cio cia
esse sinal sem seio
o seu asseio
errei a rua, raios!

- rá rá rá, ria o réu, arria a ré, a rua, oh! rá rá rá, o horror! irra! irra!‏
tenho os olhos decidos
(cindidos) descidos
descididamente decididos
(descididos)(descindidos)
a) menina
b) ijou o menino
c) gostou, se não gostou
d) morou!
mares margem
corais coragem
desfiles desfigurados de amargos
- Tetas tão dotadas, as tuas, todas as duas: estatuetas do tato tido, aí detido.
- Tá doido, tá redoido?
- Redondo?
- Dedo, tá dado.

O Casamento da camisa com o vira-casa da encasacada.



Nós duas
de danadas, nuas
nadando doidas de dar nó
dia dois, às duas.
gravidade da lua, pulos lentos
deitar na parede, e cair
deitar no teto, sentar
quéru mais bagunça só par num gatilista, tendeu nom? boligude no asfalto alto
só pra mor di vê que qui sai da lêtra
ê letrão! aí sim, nóis pega fogo
êh! êh! ehê!
quero-quero
pássarim, eu, sim
quero-quero
teadoro teodora
teadorar dorada
quero sim

elis passarão
eu passarim

na-na-ni-na-nim
só uma pergunta piolha
hoje o dia tá crescendo engraçado...
- Cadê o chiclete? Tem mais um?
- Você chupou!
Andam um pouco, pirracentos
- Esse chiclete tem pimenta!
Três garotinhos vêm subir a mangueira carregada que dá sombra às mesas da lanchonete. A mãe lhes deu, a cada um, um pacotinho colorido de salgados, e eles escolhem orgulhosos o galho onde vão comer.
- Melhor subir sem chinelo! Você vai subir sem chinelo?
(abril três anos atrás)

reajo:
ando pegando poemas alheios
picotando
embaralhando
e formando novos com o que sai.

dizem é burroughs e bowie e tantos
eu digo: experimentem
gosto quando dizem "fazer sentido"
quase como fazer bolo

- você não está fazendo sentido!

ela tinha os cabelos d'alguma cor que não o negro
seus olhos não eram azuis, ela


curvo-me ante a beleza da anarquia de outrora
era real nestes campos da palavra
quem sabia, eu acreditava
agora vejo invejoso
me rôo de gula ante a fábrica imersiva de outrora
os dias dedicados à simples brinca
sem privilégio aos outros, sem submissão
a palavra livre a correr como espada de uma liberdade perseguida
hoje vejo espuma sair-me
tão viciado nas colagens, no redito
só posso sonhar um dia voltar ao já escrito
só posso sonhar - que hoje eu tanto construo
tento criar um mundo, sair lá fora
e mudar
antes tão verdadeiro
hoje eu odeio de haver o dinheiro, mas não lhe cedo
não me curvo e permito que outros mo dêem
não, eu plantarei meu próprio dinheiro
engolir a revolução para que ela frutifique nos outros
a revolução deve ser interna e externa
a revolução nasce nas varandas
na sacada do primeiro andar
não se basta num quarto dentro de um quarto dentro de um quarto
num computador

a revolução acontecerá e na palavra só restarão suas pegadas
eu tô com defeito
um barulho
no peito

não chora, agora
que só piora

o que ouve no ouvido


a tua testa me testando
os pés pesados me pisando
peitos pintados me peitando

a tua pele, pelada, pelando

não me queixo
olho o olho
(toda língua passa pelo corpo)

a língua do linguado
e ela na goela
coloração
linda coração da cor


teus olhos ácidos
tuas costelas de ódio

caleidoscópicamente
um pé aqui e outro lá


lá fora, no náo-estar-aqui


colosso de rodes
tirar os mamilos (carnaval)
reimplantá-los noutro lugar

barbiezar fotos pornô
bacias hidrográficas
raios, raízes, ramos
veias (pulmão), os dedos
o tempo bifurcando
eu lavei minha própria língua
com lágrimas doces
minhas horas menores
meu relógio, tamanho P

(vejo os outros como crianças pobres
vestindo roupas enormes
com tanto espaço que cabiam
mais umas dez)
amar é como
chuva, vai..
                  saindo
          pra todo lado

quando a gente vê
tá encharcado


(onde foi
meu guarda-chuvas?)
"tantas palavras que sufocam
nem dá vontade de sentir porque nem parece meu
sou invadido de emoções clichês, entro nesse território de que já se disse tanto, que antes mesmo de entrar já sei, já sei de tudo, já sei do não saber;
festa da linguagem repisando tudo!
e me vendendo doces que não quis comprar
eu, que sempre amei aquelas as que menos palavras tinham
sempre me divertia justo quanto menos entendia
e agora todos sabem
e agora todos podem dizer, e é isto, e é aquilo
e esta agonia de não conseguir sentir em paz
porque é muito difícil ser original
quando tudo que faço entrou em seus termos mais literariamente óbvios
e tudo tão previsível
que meus rumos nem já são meus
são dessa vontade alheia, óbvia, externa
e quanto mais me sinto joguete, títere
me irrita, e nem consigo mais falar
afogado nessa rede de fofocas interminável
quando tudo que sonho se passa sempre fora do discurso
e minha felicidade se dá nesse passar à linguagem
esse parto que é o batismo das novas dores que ninguém jamais sentiu
mas hoje só sinto o usual, só piso pegadas já pisadas"
sou pedaço de mim, eu e minha avidez
somos dois
silêncio no cais da vida!
e os navios custam a zarpar
os cabelos soltos, negros
passeando sobre as costas nuas
quando havia muitas maneiras de dizer eu te amo
quando havia muitas maneiras de dizer eu te amo
é uma pergunta
a palavra-labirinto
uma alma composta de seis paisagens
e uma sétima unindo tudo (japão)
escrita diária de diários e paixões
junho e,
eu juro!
sou desses viciados em confessionário
no meu
gosto de selva, de minhocas nas mãos, de terra marrom-tempero no brim das calças brancas,
gosto de mapas de papel amassados dobrados recortados e cheios de círculos nos nomes pequeninos
dívidas de lindt da
comedora de tomate
feito maçã,
nos banhos escuros ela
adora zebras
escavações descobriram a máquina de criar o mundo do poema
que dia - que hora, aqui onde está o sol vocês fecharam todas as cortinas
o homem rato comia quando tinha fome e dormia quando sono
linhas de tempo espiralavam por todo o quarto como teias de aranha enovelando-se
às vezes a porta abria
o homem-rato se encolhia num canto assustado
O indivíduo nessa condição não é como um motor que funciona perfeitamente até que se acabe o combustível e pára de funcionar; é mais parecido com um carro velho que por vezes funciona de maneira adequada, apresenta deficiências, melhora e, depois, deteriora profundamente seu funcionamento e assim vai indo de maneira inconstante.
porque pra mim, muito pior do que o texto é o calor!
...meu corpo evaporava e gritava hmmm!
os poros exclamando com suas mil boquinhas
e meu coração numa panela
cozinhando 
ele conhecia a floresta como uma mulher conhece o marido
o estômago não nasceu na gente
um dia o homem pegou o estômago
e guardou ele dentro da própria barriga

(os nuer)
ele vive num mundo
que perdeu as paredes
   (ele ouve o contínuo)
antes tudo era prédio
o mar vinha e batia
a ressaca, na minha portaria

a praia nasceu ali
onde era o 406
antes tudo era rua
os carros desembestando

um acidente: pam!
a ambulância parou
a maca, o contorno do corpo no chão
a fita de isolamento

e aí nasceu a cidade
os prédios rebentando por entre faixas de pedestre
as minúsculas foram inventadas no século terceiro antes de cristo

(a pontuação e o espaçamento também)
Quero amar a seco
à flor d'água,
teus lábios pintados de azul.

Risca minha pele fria
com teus dedos salgados
mas não mergulha, não fura
esse espelho sem fundo
(não pisa no que eu chamo de céu);

Quero amar a seco
à flor d'água,
teus lábios pintados de azul.


- você não tem um aparelho chamado amorômetro que faz bip bip bip e pronto.

(ué mas e amanhã professora?)
eu não tenho relógio porque o tempo é relativo. as pessoas são relativas. 

(ele faz de novo, faz de novo, tá te fazendo de idiota)
hoje nós temos registrado no conselho mundial de igrejas setenta e dois nomes de deus
te vi esticando a roupa na janela
eu pendurei um lençol e vi
como um espelho você era eu de longe
me vendo esticar lençol e vi
como um espelho sua janela de vidro igual
irmã de nós e eu era o ar
voando como seu nome quando
eu te chamava feliz

cada pessoa é um espelho possível porque
se eu ponho um espelho ali meus olhos entram pelos olhos dela


o céu brigou e não ficou mais em cima
desceu caquinhos de ar em gota
tudo chamou-se azul e brincou

o ônibus pisava nas poças de espelho
as pessoas entravam em guarda-chuvas
e eu ouvi um ronco de fome, lá no alto (juro!)

o homem de havaianas na chuva
seguia sério em sua baita resolução
as havaianas ele levava em sua mão
seus pés felizes espraiados pelo chão
quando o prédio deitou eu andei até a varanda ao lado
com a tesoura de jardineiro abri caminho na rede-para-suicídio-involuntário
mas não tinha ninguém dentro

o prédio deitou para dormir, se cobrindo com lençol-de-obra
os vizinhos caminhavam sobre sua pele e se abra- çavam simpáticos
davam bom-dias baixinho pro elevador não acordar




olhando bem,
é só ar
o vento desmanchando
as nuvens de tempo
- acho que vi uma girafa
um chapéu, um rosto
azul-céu
os olhos
rosa, rosa
as bochechas róseas


lipa
encontrei meus lábios boiando
em formol azul
a (linda) casa
onde ela morava
tinha cabelos
em vez de teto

em vez de
tudo
(e se não sonhamos? 
"sonho" já é palavra.
e se dormimos e...

...e isso nos mancha de sonho (palavra)
transbordando da noite pro dia)
tava funcionando por que-
ninguém tava ouvindo por que você tá me ouvindo?

você é a moeda que eu achei
que eu dei pro moço do carro
daí voltou você, na noite. tá errado...

eu tava só conversando mesmo e de repente eu vi que gostava bem
dei beijo que senão cê fugia toda que que acontece.

eu colho seu beijo com as mãos em concha
-meu beijo eram pontinhos perguntando
ela que disse

uma montanha de coisa descia do teto e terminava no pé de cadeira
você empurra e faz o som, da cadeira

ela foi na suécia e viu a primavera
depois de tanto frio

e eu moro numa gaiola dentro de uma gaiola
ela que disse
chuva de cavalos-marinhos
primavera
ts-ts-ts-tsss

quero um lençol de vento
a céu aberto


eu tenho o coração engarrafado
Para voar
(espelho de fevereiro)

"I dreamed you were in Brazil. One day you arrived to stay at my place, you and ten other friends. It was very hard to provide beds for all.
Entonces salíamos.
El samba era un volcano en el medio de la ciudad. Nosotros tomábamos un taxi para una de sus lenguas de fuego, donde habría buena música y danza. Pero nos equivocábamos y salíamos lejos de la boca del volcano, donde estaba el carnaval en erupción. Caminábamos y la fiesta adentraba nuestros cuerpos, el calor...

Desperté en mi varanda, la luna lle-
"...e ele mergulhou nas pálpebras cerradas dela. Ela dormia, mas em seu sonho foi tomada por um pêso e fechou os olhos. Ela não despertara, mas seu corpo agora via.
O homem desenhou então a dança negra da escrita diante daqueles olhos cegos. No sono, ela lia sem ver, e tudo ao seu redor nascia e lhe envolvia. Então sua boca abriu, e o mar cantou uma canção das profundezas. Os lábios do homem tremiam e suas mãos suavam, apaixonadas. O peito rugia. O coração se embriagava cantando, o amor sorria. O mar fazia amor dentro deles..."
artista plástico?
essa escultura aqui é de plástico?
então não, é.. artista de ferro-
a árvore dentro da terra
o estuário no céu
uma estante de livros cai por cima dela
eu tenho um plano de saúde:
amanhã vou tossir muito
terça-feira vou espirrar

é um plano saudável
tu sabe que eu num tenho nada que me queixá deles não
num tenho memo
não entra no relógio
que eu entrei

você não sei no que estamos se metendo
eu debaixo do amor e o amor debaixo d'eu
quero fazer você sair
         da roupa
                 você sair
      sem roupa
410 d.C.
Roma é saqueada pelos visigodos.

529 d.C.
Fim da era greco-romana e início da Idade das Trevas.
“coisa de amigo, tá ligado.
 eu perdi a cabeça dei três socos na cara dele.”
- é ruim hein. eu não sou o tipo de pessoa que você está pensando não.
isso aí é uma coisa que você não viu, que você não tem certeza.
jamais eu - jamais eu faria uma coisa dessas
olha, você - você não me conhece
não me importa perder tempo
só quero saber dos presentes

é sempre natal
e verão

joga uma bola de neve em mim
quem não seguir esse calendário

Regra N° 18: substituir todo "que" por mar

uma grande parte do dia
de hoje
distraí

tentava pôr ordem na
lembrança

a que foi sonho
a que foi eu
a que foi ela
gosto do seu gostinho
do seu beijo seu narizinho
de ficar gostando do sabor
doce
quero te dar um susto
acabar com esse soluço
hic! hic!
a sua língua pula
de soluço
vou morder ela hein
hic hic nhac!
não te deixo respirar ouviu
minha boca
bebe
a sua
um beliscão no seu nariz
                                     de amor

prendi teu espirro
te fiz engolir o soluço
viro o mar por entre seus lábios dourados

engasga de mim
é a lei
do vagabundo...
meussorvetinhodecreme...
esp era só eu a b rir a nov acalda de cho colat eque e ucomprei!
a nov acalda de cho esp era só eu a brir a nov acalda de cho
colat eque e ucomprei! a nov acalda de cho esp era só eu a brir

ah, meu
ssorvetinhodecreme...

speraassóeuaabrirranovacaudaadechcolatequeeeucomprei!
an ovaca auda d echospera sóeul a briranô vacal dadecho
colatequeeu comprei! comprei! comprei!! anovacaldade chouespéras só euabri r
você é de lamber os dedos
chupei vinho dos teus lábios
teu gostinho de uva

vou te chupar todo o vinho
te lamber o dedinho
morder teu mindinho
saber o teu gostinho
deixa de amor
deixa disso
todo chão tem um início
no fundo do precipício


em cima do teto o teto de água
voando
descendo sobre mim
e o teto de luz
me cobrindo
O prisioneiro bebe, bebe, bebe
de uma caneca sem asa
Olha eu sou quatro quilos mais velho que você, e dois anos mais alto. Não vale encolher a barriga! E nem adianta ficar na pontinha do pé, ouviu bem? Idade não se discute.

Tenho vinte e três anos: dois em cima, dois embaixo, seis que é só gurdura, tô devendo meia-dúzia e o que sobrou eu deixei em casa, lavando.

- Nossa, peguei uma idade que eu vou te contar! Não sara nunca!
- Ih essaí tá todo mundo pegando, não esquenta...
"Eu adoro fazer isso e não interessa muito se sou incompetente ou não."
Mas eu sou o único cidadão livre desta formosa cidade, porque tenho um canhão no meu quintal.
O homem é um microcosmos! Por assim dizer, um resumo da terra e como tal é guiado por leis imutáveis e eternas. Estou de acordo com essas idéias provadas pela ciência. Porém, há as erupções, há os cataclismas!

Ontem, berrei para Lalá:
- Defendo o direito das convulsões sísmicas!

Dorotéia é o meu Etna em flor!
Salve Dorotéia!
Dançarina dos tangos místicos, flexão loira, boca onde mora a poesia.

você pediu meu coração

mas eu só tinha coracinho

não faz carão
faz carinho...
que horas são
quero te ver
onde cê tá
cadê você

meu coração é um despertador
desperta a dor
só de te ver
a luz não é dos olhos
o sol é quente
o tempo não é uma linha, um fio
e o fim é só um número
num papel
o que eu queria
era viver
montado na bicicleta
sem hora de devolver
- Como é que tá o céu hoje?

Ela estica a mão pra cima, fica na ponta do pé, tentando pegar.

- Tem um furo em cima, ó. Buracão mesmo.
De dia o buraco desce e encosta na minha cara toda, quente.
Daí eu tateio, tateio, atrás duma sombrinha...

- É céu,
céu é o nome do buraco
"ai, ai ai ai
minha amada
ai, que carnaval

nosso amor
vai acabar...

em água

e vai sair no jornal"
"e cadê a sexta-feira?
se ela tá na otra beira
dessa piscina de hora
que não vai acabar?

eu não aguento de coceira
esperei minh'a vida inteira
um amanhã que só demora
que não me deixa respirar?

ai, ai ai ai
eu vô me afogar!"
tô num mar sem fundo
a areia só vai daqui-ali
ela chegou
em uma nuvem doce, doce
foi o vento que me trouxe

só não rima com a-

é febre, o meu calor
e o seu é pura cor
ou ardor
ou ar, ou dor
um céu em flor

não tenho nem onde pôr
meu calor é
febre

o seu é amor

(água morna,
borra mim)

não vejo
fundo

a sua nuvem,
doce, doce

o céu é amor
um avestruz, só
pra nadar pra baixo

(os pés no céu
pra dar impulso)
o amor que tu me destes
era pouco e se quebrou
o anel que tu me tinhas
era vidro e se acabou
                         arreben
      teu corpo                 tan
                                          do

violento,
            violenta

        em marés
violetas

                  contra os meus dedos

escondi meu coração
no FREEZER





(... quem que tirou da tomada?)
" não vem com essa
  você não fez por merecer
  eu não sou infantil
  infantil é você "
você me
tira o
ar

me enche dessa
sede de você

quando é
que eu vou
te comer

na sua cama
ou
num céu
de amor
não chora, namora-deira
deixa o teu corpo con-tar
o que ele acha do mar
o que ele acha do mar, de amor

não chora, namora-deira
deixa o teu corpo can-tar
o que ele acha de amor - no mar!
o que ele acha de amar
medo do amor sair
pela boca

do amor
vestir
meu corpo

vestir de
andré

eu não sou
o número
certo

não tem número
é


.

(imagina se
o amor levanta
e eu cai?)
eu te amo mas você está louca
só pensa na minha boca
não come não dorme não ama
não sei do que você reclama
são poços de petróleo
com a boca toda vermelha
lágrimas negras móem, róem, dóem
eu queria hoje hoje
provar teu gosto fim
tocar fogo na tua língua
com os dentes
feito punhais de febre
os caminhos do corpo
dela...


perdi a trança
soltei
deixei a trança fugir
dos meus dedos
você é um anjo, só lhe
falta um par de asas
me embolei na voz de mel
que me chamava: andré... andré...
embaraçados, mas
o teu perfume sempre ganha
eu, todo enrolado
atando nós
nos teus cabelos
eu quero a sorte de um amor tranquilo
              ser como um triste vampiro
com sabor de fruta mordida
nós na batida, no embalo da rede
matando a sede na saliva

ser teu pão, ser tua comida
todo amor que houver nessa vida
e algum remédio que me dê alegria
eu quero ser como um triste vampiro
voando pelado pela cidade
fazendo zum zum zum zum zum zum zum
com minha capa sombria
a mente tão fria

atrás da felicidade
morde mais forte
que o vermelho
não sai

quando bater à quinta, à sexta-feira
quero os teus dentes de amor
latejando
em mim
eu só queria
que não amanhecesse o dia
que não chegasse a madrugada
eu só queria amor
amor e mais nada
não pisa no que eu chamo de céu
não
não me machuca
com os olhos

não diz pra ninguém
não fála
não canta

não diz não

não pisa no céu
não me ama
isabel, tão bela
ela, no papel

de mel
um beijo, desejo
isabel

isabel
tão linda
bem-vinda
e o teu olho pisou no céu
sem pena.
calma que
assim pode furar

vendredi vênus afrodite



cada lua tem quatro amores
um de sangue
um bebê
e dois fazendo amor


teu coração,
eu nem espero para abrir
vou logo rasgando a embalagem
somando pétalas de flor
um algarismo para cada amor

e eu mendigo, milionário
da sua paixão sem cor
"te deixo sete beijos
que é para durar a semana toda"
o mar é
um céu de água



cardumes
de anjos

lá onde você mora

o sol é uma boca brilhando
sem língua
com língua

na sua cama, sua
lagoa de fogo
o céu é um chão
que só os olhos pisam



e você é um anjo
um anjo pedestre

descalça teus
olhos suados
pra não dar chulé

descalça esses
sapatos sem
horizonte

o céu não é um teto de pedra
não tem óculos nem
chão
é azul
(e um bolo apetitoso
de manhã)


intrometidinha
espionando
detrás do céu, os
astronautas voando

mergulha na cama e vê
os astro-nautas
de submarino
no fundo da noite

o céu é um mar raso
dá até pézinho
vem! a água tá morna
vem!

põe teus olhos de pato
e nada
pra cima, só nada.
Teu corpo tem um céu.

- vamo brincar de astronauta?



... tira a roupa então
tá de manhã, a preguicinha
na cama de sol, meu sono
tudo se me desmanchando
antes
do despertador
o céu é todo um bolo
com recheio de astronauta

não sabe brincar?

o teu amor é meu
esconderijo

(atrás da cortina
debaixo da
cama)

só não vale ficar de altus
a língua
essa
fatia de carne
lambida

(violando os
lábios cerrados)
essa, essa
intrometida
o teu amor é feito a luz
da lua cheia
contra meus medos do escuro

ah minha amada, mas quem me dera
fosses igual uma lanterna
com um botão de desligar
é uma gata e quer comer minha língua-gua

eletrodomesticado

eu quero o amor luminoso,
como um abajur
com botão liga-desliga
por que os teus lábios
são tão difíceis de beber?

teu beijo é antigo
até: empoeirado

em cima ou embaixo?



amor
debaixo do
eu

me flagrou dormindo, com seu amor
inimigo

foi uma longa manhã
me cobrindo
com a língua

dormindo
no leito
dum rio
de beijos
desabotoei seu coração
botão por botão
e agora ele não fecha mais

de cabeça pra baixo

o teu amor medroso
se escondendo
debaixo do meu

a praia

fui na tua boca tomar sol
brincar de castelinho
com teu amor de areia

ai e você
dentuça, a bóinha nos braços
pisando descalça
nas minhas juras

é uma praia nudista, baby
tire toda essa roupa
não sabe brincar?
um castelo de
cartas
esp-atif-ou

ele foi presquina
fechou foi na casa
a ponta-scapou
desm-oron-ando

no fim
ouvindo as imagens do
homem que não
usa
nossa
língua

mas usa.
maior que castelo
quando
me gritar

o grito
maior que mim
me rasga a
voz

mas um
malabarista -

o chão entorta
de bom
de
rodando sim

lembrei que
os urros
e palmas
não falam

quando tu é
sim é eu é
dúvid
é humano

sai luz
colore corpo

precisava dizer
(precisava lembrar)

a gente
é menos
sozinho

quando canta
Por favor,
cem beijinhos.





- não?
a menina
sua boca de baixo
sangrando
UM GRANDE BEQUE
de amor
compro namorada com ouvidos
eu só queria ir pra cama
encher os lençóis de beijo
e beijo e beijo nas saudades

amava ,
o travesseiro transbordando
o cheiro dela
minha fronha querida
injeções de boca

uma vitamina de beijinhos
dou cursos de
ficar nu
tomar banho
coçar
- Quieta!
Me dá a boca.
Agora.
o costume de
deixar sua boca doce

uma vítima
entre lábios de chumbo

que vontade de engolir
os beijinhos, tantos!

mas deixe de
amor
me enrolei na pele dela
quentinho mas
nada

a mulher não tinha cheiro
nudez tão
egoísta
o elefante atômico
em cada pata um já-nem-sei
ela andava torta de desejo
meu amor
isso não são flores
beijava a senhora gorda
desabotoava seu coração
com meus dedos

mas o fecho era na frente
dobrei, bem dobradinho
aquele coração
guardei no meu bolsinho de botão.

A senhora gorda não viu.

sentou em mim,
em cima do meu coração
de frango
microondas de cores
cozinhando sua
pele tinta

(as coxas de franguinha tenra
assando para meu jantar.

mais um minuto
daí faz plim
e é só cortar.
o bebê-elefante
molhando a tromba
na tinta,
azul

mergulha o nariz
na água, no sal
no gelo.
o cabelo prendeu na moldura e
choveu,

um incêndio perfumado de xampu.
<< Brinco de desenhar na pele de marcela, unir os pontos, ela diz: "como un mapa, los lunares serán las ciudades, este grande la capital". O pontilhado me lembra diagramas de corte de vaca - picanha aqui, a fraldinha sai do ventre, o lombo se chama contrafilé - como uma cartografia carnívora; mas o mapa vira um lago-espelho, quando as árvores têm dupla copa e não raízes: teu corpo, o desenho refletido das constelações do céu >>

- Las tres versiones de Judas,
BORGES
eventualmente eu
fiz um furo na alma
por onde saíam, paridos,
meus pés gelados
de manhã explodem foguetes
e na tardinha um bom rojão
o domingo é feito de pólvora,
fumaça,
e copos plásticos pelo chão.
o passado estava de ponta-cabeça, eu vi.
um gesto:
que meus olhos duros desmanchem, um dia

mas não há a voz,
há só a lenta digestão
sou uma imensa jibóia trocando de pele
quando em desdizer as maravilhas que os filósofos de plantão choravam ao vento, lépidos
que tudo mentiras e vago ar, o vento soprava entre suas palavras ocas e as tiras de papel fatiado pela lâmina cega, coração desmesurado
quando em afogar-se em um mar de tato e novos olhos, e batizar-se surdo-mutismo por desejo, movimento mutista, mutante
eu trafegava meus próprios pés, na areia inexplorada, desenhando como pontas de dedos sobre faces inalcançadas, sonhos trêbados, trôpegos
um corpo construído em nós e soluços, em espremer-se contra um espelho, amassando manchas de gordura e carne na tela fina, na imagem retorcida e deformada, em si
nus e crus, despidos, quando o vento soprava trafegando entre árvores e prédios e nos invadia, pelas janelas, pelas portas entreabertas
lambendo nossas peles e nos limpando de tudo que não nós, de todos desenlaces fáceis, de todas as fugas
uma folha seca atirada contra o muro, esperneando para acordar gritando: vida
minha pipa fantasma
medusa os tentáculos de barbante
flutuando etérea, éter
surfando atmosfestas
esquivava lufadas de
vento, deus da paisagem

querida,
dançavas belamente um desespero
fugindo às correntes que eu laço, sempre
em teus calcanhares.

ásperos dedos de
plástico
caminhavam pela sua pele
camaleoa
leoa
nas curvas levas como vales
curvas vivas
ondeando olhos no lavando imagens
lentas
ásperas
mãos de zinco e ferros
tossiam
imprimindo tristas pequenas marcas
que lha diziam
jamais
a escrita tem borracha demais,
queria máquinas de escrever
canetas tinteiro (sonho platônico, jamais lhes provei)
olhar um poema ver versos cortados, rimas apagadas refeitas
apagadas refeitas
uma grande estrofe de indecisão, toda suja,
as fibras do branco aparecendo, vincos, manchas empenadas

ver o processo nas palavras
um poema honesto
sem esse limpa-tipos infinitamente implacável
que é passar a limpo
(não quero às limpezas!)
desenhei meu estômago e vi
um poema feito das sílabas de sanduíche

o que é livro, palavra
só minhas mãos, os dedos (cansados) falam
apertar massa espalhar massa quebrar
vi tijolos quebrados no chão e pensei
quero quebrar tijolos, o que acontece, quais as formas
vi pedras no chão, quero pegá-las tocá-las
que palavras o que é palavra
tro-peçando dizen-do cada sílaba com esforço
com a língua mais interessada no ar e no apalpar o ar
do que nas letras desenhadas no som que som só quero
matéria
(um poema feito de argila)
desenhei meu estômago
vomitei
apagando tudo com muita força:
tirando as coisas erradas talvez
limpando, possa fazer direito então
(alimentar o papel com as comidas certas)
pisca, página
recheada de pizza e
não-vai-me-vencer teimoso
(como uma que não dormia e só chorava, dando a volta ao mundo no barco, na sua barriga-tronco-peito-eu gêmea)
piscinas de óleo, escorrem, borbulham
sorrindo (piscam, estrelas de borracha)
bananas e lentilhas não tapam o
chão preto, a sombra
recorta bonita que linhas quebrando
vendo as formas dum paralelogramo e
os estilhaços do espelho quebrado
todo dia pisam num, são sete anos
mas o espelho espatifou e os cacos voaram
pequenos triângulos pelo quarto, eu os vejo por todo lado
da porta posso ver tudo de longe, as manchas se unem, e funciona.
era leve,
uma janela esquecida aberta, cheia do calor da manhã e, um sopro fino entrava carregado dos mumúrios dos carros correndo, como ondas batendo,, as cortinas vacilantes roçavam o assoalho carinhosamente, varrendo pó de lá para cá e, nossas pálpebras indecisas, dia novo e luzes elétricas deixadas acesas, pratos do jantar esfriavam na mesa, sempre
os dedos pousados mais pareciam passageiros do gesto contínuo como o vento lavando carícias das folhas das árvores, coçando calmo torsos e faces, sem pressa
um suspiro subia, e descia, como discos rodando, os vinis chiando sob agulha mas sem música, só: o silêncio cheio
em dois minutos ela, leve como , e certeira,
permitira às suas mãos beijar o branco, e amá-lo, o branco silente

fora ela ou sua voz, tão leve
quatro lágrimas, cada uma dói, nenhuma é preta
o pilar negro não se borra,
nem com as mais finas sutilezas..
a voz sopra, mas desenha no ar, quase desenha em mim
quero desenhar nos braços no olho na vida
o branco silente, é tão lindo

(senão! é como amar uma mulher só linda: uma mulher tem que ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão)
eu queria aprender a dançar com quadros

(hoje dancei muito o esfrega-esfrega preto e branco
como nos filmes antigos de swing
as meninas jogadas para cima e os pretos americanos
ando meio preto)
as manchas pelos muros são
de dedos sujos
apertando paredes finas como esquecidos

lembro das crianças comendo bolo de chocolate e limpando na camisa, na barriga redonda

um espelho para acertar as
olheiras de maquiagem
e sair da mina de carvão
não havia ouro mas
os passarinhos vêm morrendo, todos
esgotamento gota
da boca vaza esgoto
lembro dos canos, dos tubos com sombra
um lado branco e no outro deito e escorrego
como um tobogã manual
sem água (a não ser suor)
esgotado
como linhas ocas e
buracos
um tronco vazio e
os copos
secos

o nada acordou

e via tudo enquadrado

manchava meu
olho manchava

a chuva
a listra vermelha

manchava janelas
o branco

dos olhos teus
cinzas, chovendo

na janela desenhos
chovia

as manchas borradas
o batom apagado

mas

às vezes meus olhos
duros de vidro
embaçam
o contorno dos teus beijos
nunca saiu

nem
lavando
passeava nos labirintos e
cuspia
soluço chato

eu era uma máquina de não-andar
eu só via mas
soluçava, oh! soluçava
quantos caminhos, eu queria gritar

labirinto e as mãos tateiam
dizendo às mim
jasmim
dizendo imagem
dizendo simples: veja e
labirinto (ande)
ouvi
os primeiros ouvidos
de um bebê
( que chora e ri
indistintamente
pelas escadas e )

não ao
som
com S

não à
memória

hoje você nunca existe mais e amanhã
é uma corda puxando o pé
à noite. quando janto de novo querendo despensar
meus quilômetros de grafite nas mãos e no rosto
e na boca e nos olhos sujos lindos
como se tivessem nascido agora
antes da palavra
havia
linha da
vida
mão -círculo e
tantos dedos saindo
em retas - e para onde

eu sei que
há metades que
em vazio
se completam

branco branco
gigantescomente
pesa
por três vezes
a lua sorriu
vestiu-se guilhotina
e apagou
como um céu escuro

as estrelas, pequenas
tremelicaram úmidamente
me querendo constelar,
mas eu nunca tive telescópio
sou um tanto míope
e gosto de céu centrado

três vezes
e só na terceira
olhei pra cima
e a vi

lua, lua longe
lua sempre
(o brilho grande, tão
mórbidamente
maior que tudo)

adeus à noite
talvez no sol haja luz
para tecer
uma nova via (láctea)
uma nova vida
queria chorar, mas
era domingo
então

andou de ônibus
a lata de café abriu
bocarras de aço
engolindo meu sim

dentro
os gemidos ecoavam
como num banheiro
as paredes desciam como
ampulhetas rachadas
soterrava minha cama meu
pé óculos cadeira o relógio
que meu avô perdeu..
era dia infi
nito
quando acordei
(embalsamado)
descendo por uma
corda de papel higiênico
num poço de
desejos

não tenho moeda mas tenho
medo
só peço um dia
sair daqui
aponta os pés
juntos, tesos,
de braços olímpicos para trás
o salto Milimétrico
heróico, perfeito
diretamente na
poça de marshmallow
não precisa respirar só
esqueça
tudo branco
mole
doce
outro dia li dos amortecedores e imaginei
queridos deuses tecendo nossas paixões
o homem de
olho azul, e
camisa azul
feliz como quem almoça

conto do homem que chorava

sentava ao nosso lado, as
lágrimas escorregando, sempre
os dias
as manhãs
não güentei -
peguei-lhe um ferro
preguei-lhe a cabeça
várias bordoadas,
e dele não saía mais água mas
de mim
eu queria um amor
como uma crise de soluços:
súbito,
intestino,
em explosões curtas que quase derrubam.
a gente fingia então
matá-lo a sustos discretos,
a copo d'água
braços para cima
fôlego preso
cosquinha repentina
não te amo mais e
fim.
meu peito vazio
em minhas veias só ar
embrulhado em pele de plástico
fino plástico de sacola de compras;
tenho aqui um oco que
quase caio dentro de mim
meu peito vazio é como
um estômago
eu mordo,
eu rasgo,
eu mastigo e engulo
para inflar meu balão de sangue
mas ele está furado
a vida escapa
em gotas salgadas
pelo rosto.
mergulho versos neste poço escuro
respingando tinta preta nas brancas mangas de camisa
o poema é o trapo sujo
da minha insignificância
espremida aqui.

no espelho alguém me olhou mas, as cores estavam de ponta-cabeça

maio e
nada fazendo sentido.
como tinta descascando,
cobras trocando de pele
(mas na verdade são tantas
cabelos de medusa
cabeças de hidra)
sinto-me rachando
como, esfacelando
torrões de areia se desmancham sob água
e me construo
de mil tijolos
sem cimento no meio

mas faltam pedaços, está tudo esburacado

agarrar a rua para engolir cigarros, mas não bastava, as falas me invadirão e blasfemarão sobre a tessitura implícita linda de tapete mágico que ora constitui meus órgãos internos, intestinos e, boca fechada rija de prazer intenso em não-ser, agarrar a rua para fugir desta transição horrível, entortar minhas coordenadas geográficas para dizer: não foi na mesma estada aqui em que eu fui tanto carne quanto som, eu saí no entreato para voltar outro, para poder dizer que não sou o mesmo no mesmo rio inmesmado: saí correndo, preencher-me de cansaço, secura na boca e dor nos pés: preencher a existência com carne - não me agüentaria vestido de vidro e espelhos, de ilusão aérea, de sonho
via estrelas com os olhos e os pulmões apertados cantavam seus nomes, que olhos? nem havia mais imagem só car-ne-cor-po
e me vinham ventos de contrário, ventos de não-existência de ponta-cabeça, e como ser novamente parido - uma parte de cada vez, ondas de renascimento ininterruptas e mim: como um código de barras, holograma falhado no estar-ali; 'estar'? nem era verbo existir, nem era verbo: minhas lacunas onde a música berrava mais forte do que o verbo ser
eu sentia-me lavado
como o mergulho na imensa cachoeira do centro do mundo, quando me despi de todas minhas vidas e mandei os atavismos e neuroses à merda, quando mergulhei naquela água impossívelmente mortal que queria me cortar em tantas tiras quanto os traumas e resmungos de frio, quando lancei toda minha existência ao sabor da sorte e sobrevivi - e sobrevivi - eu saí limpo, verdadeiramente mais nu do que quando mergulhei sem roupas
e antes a vida passava diante dos olhos como um tédio vago, melancólico, querendo me vender clichês de vida - como isto fazia parte! mas adiante, por tantos anos eu não era mais corpo ou mundo mas só sonho - e o fim: encarnar como um tijolo cai do topo dos prédios podendo matar por engano
meus dedos meus braços dormentes esticados contraídos espasmos
agarrando um cano de ferro por perto com todas as forças que tinha o suor nas minhas mãos eu era este punho fechado como uma âncora no aqui e ondas e ondas meu corpo não era solo era Mar porque vinha em levas em levas como ondas batendo na praia eu era as ondas a sensação de ser ondas a verdade de existir me atravessando minha alma vento sobre a paisagem a planície o trigal e os ramos balançando em meus pêlos escritos naquela escrita eólica, o som me vasculhava com sua pesada língua distribuindo explosões de gosto e umidade, abalos sísmicos nos meus eus-tectônicos: ser-se em vagas, vagas, existir como um movimento descomunal, existir mas sem-querer, subi numa locomotiva de música que gira gira gira me leva para tão longe como uma roda da fortuna sem-querer e me faz ser-me menos, obrigado, posso enfim desfazer-me, feliz
A linguagem é um laboratório. Misturo palavras e profiro frases avaliando seu gosto, peso e a maneira pela qual reagem com minha opinião.

Como um cientista e seus aparelhos, experimento, regulando minuciosamente língua e cordas vocais. Sintetizo novos compostos, refino-os em seus elementos puros: encontrar a fórmula perfeita de sua enunciação.
é como se
na verdade
fossem dois
mas não parece

pego uma fruta
bem madura
sugo o doce miolo
deixo-a oca

vamos morar lá dentro.
e, no centro de tudo,
cachoeiras de lábios
como magia
uma pedra de rins
um caroço preso na digestão
uma bola de caranguejos esperneando entre os pulmões
um átomo radioativo engolido por engano
enorme coluna dórica instalada entre os músculos
fazendo força por sair
insistindo por uma existência impossível -
sonhos estropiados
com tantas pernas e braços
e bases da biologia submarina das fendas abissais
com sua luz incerta
berrando, a fachos largos
não! não! não!

corpo de soluços e convulsões
e algo dentro
embaralhar as palavras dos outros
sorrir, irônico
isto nem parece meu
nem sei o que isto quer dizer
- não estou preocupado.
transpirando à vontade
levanto a tampa
do pote de plástico
e banho os cabelos
negros

corpo descartável
sem dono
estoira como uma seta
- você não faz mais o barulho gostoso
quando entra em casa como um marido bêbedo
que bate nos filhos e beija a mulher,
nem ronrona como um carro virando a esquina
brusco,
insone,
engolindo os minutos como bolas de papel amassadas
entaladas no meio da voz
crescem em mim
dentes
de morder batom

checo a lista de quartos que estalam quando se entra:
equivo-os, todos

a porta de casa tem um cheiro esticado
de dias de meio de mês.
ela murmura, sorrindo
onde vais, tão cedo?

reconheço as pernas douradas da rua
e beijo a porta até sair sangue
sangue cheiroso
com o cheiro da tv rezando
por suas muletas de bronze
que carregam o hoje para o inferno

roubar tijolos do apartamento de bonecas
onde o almoço é comido pelas moscas

um ônibus ocupado
sendo uma Ferrari
cospe nos meus pés

meu prazer se confirma
numa garrafa pegando fogo
e o óleo diesel dos teus cabelos
estou fungando extasiado

dou grama ao mágico
pinto-me de rosa
torturo meu colchão
com lágrimas de vidro
sonhei: meu corpo evaporava
a sensação de evaporar, hmmmm!
como sentir-se namoricando moléculas
e outros termos químicos físicos científicos
o gosto dos segundos na boca
minha pele indo na frente com o vento
e todo meu corpo uma estação de trem
última chamada! última chamada!
mas a boca se mexia muito
incomodada, remoendo
cerrada: os segundos presos entre os dentes
membranas tapando as trocas de tempo
as novas datas a entrar e sair
as novas horas
minha boca de relógios quebrados
sempre com a mesma história, o mesmo minuto
meu corpo evaporava e gritava hmmm!
os poros exclamando como mil boquinhas
e meu coração numa panela
cozinhando
uma erupção de cartões postais
da terra do alfabeto
"Às vezes me canso de tanto deliberar sobre 'nada' (como diria o mundo); tento então, num sobressalto, como um afogado que toca com o calcanhar o solo marinho, voltar a uma decisão espontânea (a espontaneidade: grande sonho: paraíso, poder, gozo): pois bem; telefone-lhe, já que você está com vontade! Mas o recurso é vão"
minha cabeça tem como amores platônicos
por se ver linguajeada em papel
mas bem sabe, a afoita,
que pousar em carne lêtrica
envolve dores e desastres.
quem nunca viu dois amantes de amor cego
ao abrirem seus olhos
piscarem duas, quatro, sessenta vezes?
só mesmo a mão,
traiçoeira,
e os braços,
arrebitados,
podem insistir nesta cascata exuberante
no bailado das palavras para a vida
na escrita final sobre folhas de mundo
desenhar destinos na face alheia
frases-beijos numa branca face.
só mesmo o corpo
é forte o bastante
para dançar
um crime e
luto pela imaginação
luto

lição infinita
os naufrágios devem ser impetuosos
certeiros; não deve sobrar destroços bóias
remos ou esperanças e fantasias de 'terra, um dia'
terra, é sempre miragem

esquecer tudo e afundar, límpido
o real é o de menos
viva a realidade onírica do mar
entrincheirar-nos em palavras
lançar, atirar, jogar granadas uns nos outros
desenhar nos rostos ou pulsos trombetas
fantasia de muito-além
e nada mais.

o final do filme
do show de striptease
ou da porra da vida
não interessa
o rumor da escrita sussurra
é noite
teclas vibram sob o impacto límpido de dedos leves
eu sonho

aires calmos me ocorrem como lâmpadas brilhando
estilhaçando vazias
em becos escuros
e seu ar de tudo preenche o branco branco do dia que foi

serena mão da noite
me afaga, lenta

maio

mas é claro que já não restam aviões!
comemo-los todos, no café.
e o céu vazio de aerófilos se distrai pensando:
por que não acordar as gentes a baldes d'água?
já é tarde - o sol se cansa de vomitar luz nessas tuas caras.

eu me vesti com galhos e penas,
enorme lança-chamas de fúria e erros -
desafiei as esquinas a me mostrarem com quantos leques de seda se constrói o moinho que gire, que gire que gire,
mas faltavam-me as engrenagens tortas que moer tantos lances de dados enviesados, caindo de quatro sob um destino falso:
e debaixo de uma chuva de folhas o outono se abriu.

eu me escondo atrás de arpões e navios
e toda uma enciclopédia de deuses marinhos
pronto a começar a moldar meu exército de argila
que esguichará dos ralos dos banheiros
e dos buracos das fechaduras (trancadas);
invadir as casas mais infelizas e cantá-las todas:
- fim da era do pão e do fósforo!

jamais saberemos de novo a arte divina de lamber os lábios de crocodilo que ocupam a própria alma destes embrulhos de celofane que me cercam, ditas pes-soas!
tempestadeando como mosquitas ou cerejos caindo em profusão -
mas eu era apenas um menino
no alvorecer de maio, borbulhante
e minhas mãos dedilhavam rolos de papel higiênico
com que cobrir o teto de suas igrejas de ópio
e deitar-lhes ébrios num abrigo ácido de doces e
enguias verdadeiras rastejando dentro de las ropas.

raiz do céu,
te batizo: maio!
oi meu nome é janelas de vidro eu sou um pássaro boiando em céu farto de cores e azul me transborda pelos olhos quem sabe um dia não fui eu algo mais que esta vontade de espreguiçar-me como uma nuvem desenha labirintos de branco e algodão no horizonte
despejo aqui muitos desvios escondidos por acaso
abril, um turbilhão
deito orelhas num rio
deixo as águas contarem
estórias turvas.
remoinho e bolhas e bolhas de ar
peixinhos e seixos e algas do mar -
deito orelhas num rio
sou água e nado numa
estória turva.
mas, será
este grande arroto do tudo
trancado em estreita garganta,
tosse, tosse
queria descascá-lo, em fatias
(como a maçã engolida há dias
entalada na metade do caminho
saiu com uma pá, afiada
cravada fundo na goela aberta)
os pulsos dormentes
pulsando, inertes
sob a fúria fria de tantos tumores familiares
humores familiares
quase afagam por dentro, cosquinha -
ébrio, mas faltam tesouras
que rasgar pêlos e cabelos
furar a grossa bolha de pele morta e
ossadas de mentiras velhas
presas entre a gengiva e o dente
tosse, tosse
pulsos medrosos, bananas
jamais levantam um dedo sequer
para puxar fora
o sangue coagulado
a ramela dos olhos
o cuspe no canto dos lábios
os cabelos, embolados, na boca do ralo.

a maçã
faz falta
abro a caixa do correio
todas as cartas começam com a mesma frase:
o mundo foi adiado, ele não vem hoje
adiado sem data definida,
ele foi para longe.

que fazer
da espera silenciosa
d'um amanhã tão incerto?

que fazer - com o viver
porque sempre há um amanhã
chegando atrasado.
teus quadris são círculos
que sempre voltam, girando girando
giros de tontura e eu quase perco o chão com teus quadris
que sempre voltam.
meus lábios embaçados
amo lábios
meus lábios míopes só estão em casa quando pousam em ti.
chovia canivetes - imagine o som metálico da chuva
canivetes abertos, era uma tempestade de perigo.
teus lábios magnéticos
assassinos
me prendiam enquanto minhas roupas gelavam
tua cintura invadia meu abraço frouxo
um prazer confuso
cheio de vertigens e mundos rodando, rebentando
e quando beijávamos então,
o céu se abria, e desabava um rio, e era um fluxo contínuo de brinquedos de plástico se arrebentando no chão com um som ensurdecedor
as bonecas, os triciclos e os caminhõezinhos se partiam, uma cascata de infãncia rompida
sempre que eu te beijava para mim o céu se abria, e quanto mais longos os beijos mais daquela torrente de brinquedos rebentados me invadia,
te beijar tinha essa virtude perversa de destruição.
facas e
facas, e facas
e facas duras
como machadadas voam em tempestade sobre os cabelos
e os gestos, animal encurralado, furtivo,
os olhos tristes dizendo tanto -
mas da boca nada, só rugidos.
e por detrás de mechas de cabelo escorrido na chuva de lâminas
pedaços de mim voam, ao meu redor, turbilhão de perfume
cortes de tesoura nos dedos
cortes redondos, sangue escorrendo
facas e facas
eu disse, eu disse
eu já sabia.

mundo mundo, vasto mundo, de tropeços!
coberto da neblina fria, cobertor molhado que puxe e repuxe a pele, textura ruim de podridão - e quantos dias demorará no sol secando, minhas roupas, minhas gripes e minhas belas desculpas para não sair de casa - me envolvendo, sólido envelope de inércia

a foice corta como navalha
e os cortes jorram sangue quente
mas palavras são mais cortantes
cortam como o jorro frio que me rasgou as carnes em meio às lonjuras indecisas do monte Mundo, quando entreguei aos outros meu destino, que decidissem minha sorte em suas conversas de pescador - mas, por favor, continuem me gritando! eu exclamo, rezando que essas rédeas frouxas me levem aos meus caminhos mais-amados, enquanto meus moles pés de barro mal e mal atrevem escorregões na lama, e sou quase um filho de poças paradas, mais um mosquito esperneando fútil, cuspe boiando sem fé,

e engolia pedras
engolir um não-quero, não-quero-não-quero!
mas minha alma é minúscula. e não comporta delírios inveros
e então abriram-se as bocas como portas e portões, abriram estoirando feito represas, e não quero saber das cidades devastadas nem dos fogos e do futuro incerto, quanto mais as águas lavando as casas em seu desfile mórbido, arrastando cadáveres e cinzas vulcânicas - quantas erupções não houve neste peito ferido! - ah, que tudo se vá..
os braços se estendem como os mastros de um navio, e o cordame teso, e os anos de trabalho que foram gastos em realizar tudo aquilo - para só um rochedo insultuoso m'afundar? jamais.

há que correr muito
porque moles nuvens me escapam da boca como baba, e meus bocejos lentos convidam nublagens a s'apossarem de todas as almas -
minha alma minúscula! que nela nem cabem tantos nãos não-ditos.
sou tão pequeno!
aquelas palavras pesadas, imensas,
palavras de imensidão e como um colosso que engulo de uma vez só,
me sinto primo de cobras e crocodilos, estirado no gramado digerindo tanto mil vezes maior do que meus pobres laços e sentimentos finitos,
me esmaga, me esmaga, sou atropelado por algo de tão imenso que ah, fiquei para trás, selado neste envelope de névoa e desgaste, nesta teia de fofocas tortas entupindo meus olhos;
palavras e nem sei o que estão dizendo,
mas ah! sou maior por ser pequeno,
porque então as dores nem cabem em mim, e estoiram ao meu redor como perfume!
e se vais jogar em mim teus mísseis de dor eu me esquivo, eu sou somente um leve grão de areia e nada me pode atingir, meus castelos de areia que construirei quando a poeira baixar, ah, nada passará, porque minhas lágrimas de cimento servem a unir tudo como cola, e montarei bibelôs em cima de todas as mentiras que vomitam..

há que escorrer muito
sobre peles alvas, a vida lenta como uma lágrima ou uma gota de suor, nem se sabe qual é qual, lenta escorre sobre as faces, bochechas carnudas sedentas de beijos,
seca vida de pudores secos
afogada em cobertores de tédio e nada..

mas tudo isto devaneios tolos que me permitam falar, como queria falar,
preciso chorar lágrimas sem água,
lágrimas secas, feitas de osso e cinza,
feitas de lamúrias sonhadas,
preciso chorar sonhos

minhas lágrimas de sonho, e berros oníricos me voam dos lábios aos ares, como cânticos
porque faltam-me os dentes afiados para morder e chorar na carne -
banguela, choro poemas.
que aterrisem em ti como gotas pousam n'água, feito um balde de amores, desenhando bocas ou ventosas que agarrem em teu corpo nu, te amarrem aos meus quereres infindos, armadilhas -
quando um dia inda hás de sorrir, prisioneira.
boca antiga,
pensei que lavava teus lábios
molhados e famintos

pernas brancas,
procurei no dicionário
quantos nomes já não tiveste

só encontro
rouquidão
ares febris de cão
e gravar os dentes em teu travesseiro
rasgar lençóis, abocanhando
latindo
só um rubor doce te invade,
mil
sonhei despir teus olhos bambos
de tanta frieza -
acordo trêmulo, os dentes secos
o gosto amargo dos teus resfriados fingidos,
quando te finges distante
não -
só posso chamar-me canino
farejando pistas
mastigando meias
ganindo
minhas brutas patas beliscam
até decorar teus contornos
correr meu focinho em teus grãos de beijo
e trair tuas mordidas;
só posso chamar-me canino.
cortava papel como cortava vida
rompia,
a tesoura um barulho gostoso
em linhas nunca retas
escorregando, ávida
partindo elos e ligamentos
em muitos;
vulcão de pó

muitos,
e um tapete de recortes
pedaços de vida, palavras
memórias embaralhadas, amontoadas
um labirinto e
a cada lance de dados, o sorteio
uma nova frase se alinhava às já muitas
espontâneas
passageiras
desmoronando ao mínimo sopro de vento

voa papel,
voa e
leva embora a expressão confusa
do meu amor passado
rodopiando, leve folha de outono
perambulando nos aires
que se dobra e suja,
se borra
diz outra coisa
voa
um deserto e
golpe rápido, certeiro
para fora do imaginário (tão batido, debatido)
será desaprovado por muitos, talvez
mas só este
findará o areal

inda hei de te ler
de novo

- para arthur
mas eu e
mergulhos furtivos no escuro
folha seca
na teia de aranha
trêmula
adeus março
águas de março
de chuvas de lágrimas
em torrentes inundando tudo
e os bueiros engasgados
de tanto engolir mentiras
vão-se revirando, mordazes;
e em meio às enchentes
e enxurradas velozes
que nos arrastam para o longe, cortando laços
e levam embora cachorros, casas, pessoas
para nunca mais ver;
lá do fundo
das profundezas das ruas-rios
e do oco destes estômagos citadinos,
sobem bolhas
sobem balões de ar, jorrando do encanamento
verdades ocultas por tanto
e pipocam na superfície - já é difícil navegar
em meio a tantas ondas instáveis
e detritos boiando, esbarrando
essa montanha-russa que invadiu o cotidiano -
( mas eu e
mergulhos furtivos no escuro,
aproveitar a piscina gigante, bem-vinda
em meio à destruição )
águas de março
e outono
as folhas secam e caem
abrindo espaço à primavera
bah,
e quem m'importa com estas lágrimas falsas
lágrimas vendidas que comprei de outros
quem m'importa com os esgares que fizer
e as dores que sentir, à noite
sozinho no escuro
quando me encolher de frio e agarrar os lençóis
agonia fraca
tão previsível - quem m'importa
e minha vida não passa da fofoca mais óbvia de revista
essa história de folhetim
escrita antes mesmo de ser vivida, quando então
meus pés já andam rumos pré-traçados
e cambaleio previsível;
e meu desinteresse por tudo
quando chego à noite e nunca grito que estou vivo
grito muito o 'enfim!' da pressa
os dias escorrem lentos, como a baba que me escorre dos lábios
falta-me o tempo! tudo corrido e lento
porque nem sou eu a guiar, não,
os rumos dos outros, destino dos outros, que dor sentir-se assim
mero joguete de vontades mundanas, gerais
clichê-humano, seguindo dores pré-concebidas
da massa,
não conseguir sentir-se real, verdadeiro
se sobram maneiras de expressar o que vem
ah! que irritação, de não me faltarem palavras para descrever
este tantinho,
cada vez mais minúsculo
pois que tão na boca mastigada do povo

um dia, volto a ser meu
teus lábios líqüidos, talvez doloridos
em que me banhar
minha linda fonte
este anarquìa está me doendo, não sei como
talvez algo aqui tenha morrido,
talvez deva abandoná-lo
me sinto vigiado pelos malditos leitores

cálice

passe tudo,
passe carteira, celular, relógio, dinheiro, cartões, tudo
esse buraco de vida, esse furo, goteira no encanamento do mundo
algo se perdeu ali
como um ralo
eu era vento, mas era sonho
se escorria dentre tais valas de mortos, trincheiras duma guerra nunca travada, empilhando velhos
um furo, uma goteira, rachadura na barriga,
como ter rasgadas as tripas, sentir-se um saco de órgãos furado, e eles caindo todos por todos os lados, nem dor mas este vazio, este oco interno
sou um caixão de gente, tronco seco sem vida
o antigo interior gordo de lembrança e tudo em quanto pudesse pôr as mãos
apodrecera, bichara,
talvez por infecção externa, infecção bondosa, novo parasita
que ora se insere lentamente para dentro,
este terror de sentir-se mero casulo, mero cálice
onde os líqüidos se derramam, onde passam as vidas sendo bebidas por gigantes imensos que jamais vi nem verei
passado de mão em mão, cálice, até quebrar
este terror entre os goles,
quando um esbarrão tímido com a ponta das unhas ou mesmo no garfo ou no anel
faz o cristal tilintar
e sou uma redoma de vidro em dor,
uma estufa crescendo meus fungos internos, minhas florestas; cálice sujo
notar-se vidro: ouvir seu próprio som por cima do burburinho do líqüido nadando
tilintar seco tão assustador, que nos mostra vazio
em seu tom
meu nome é cálice
cale-se
por que
ela perguntava
por que
não há porques.
vida maior do que todas as fumaças fracas que nos escapam d'entre os lábios,
como no esforço frágil que fazemos, tolamente, em segurar mentiras -
mas elas voam como moscas sopradas ao vento
por que
ela perguntava
por que
não há porques.
há dor e a correnteza gigante da vida
arrastando tudo que há em seu caminho para o longe, para os longes
como uma boca gigante abrindo-se no horizonte e engolindo meus sonhos,
pelos cabelos, carrapato cósmico enredado em meu couro cabeludo de idéias
a sugar meu sangue e meus pensamentos: titã gigantesco
a puxar-me como fios minha memória, em dor
querendo tragar-me em seu buraco negro tão profundo
por que
ela perguntava
por que
e não há porques.
como uma faca, uma lâmina, uma gilete suicida a cortar os olhos alheios
cortar os olhos como ovos
agarrar o dia pelos cabelos
e gritar-lhe em face:
eu te amo! e estou vivo
vivo como um câncer
a te roubar os doces suspiros
e a sangrar-te - e eu só vivo
é do doce néctar que derramas
quando mordo e cuspo:
sou humano,
imponho-me eterno, impossível
carne poluidora de rios
sanguessuga das almas do mundo;
quando choro,
é porque a sua dor
de traído
de falsário, vingativo
dói em mim.
eu jamais doí,
eu jamais me arrependi:
sou eterno servente dos meus desígnios
dia: anjo solene dos meus pesadelos
amazonas puro, cativas-me pela ordem
imperas em ser a mágoa mais querida do panteão.

homem ao mar

"para onde correr, ao navio ou à praia?"
o outro encolhe ombros, resmunga qualquer coisa,
vira-se de costas.
o primeiro prossegue sua litania
como se ritmando o martelar do coração
palavras vãs reconfortando o silêncio impossível
de espera da chuva passar.
"quem sabe, devia meus últimos fôlegos
a alcançar a lisa popa
cheia de cracas e a escada de corda
que me salvar do mar revolto;
ou a distância já é tamanha
que meu rumo certo é mesmo o leste
sozinho, eu e meus braços,
para a costa estranha (e seca)?"
a chuva cai sobre ambos
mas enquanto um, indeciso
argumenta extenso sobre tudo e nada;
o outro, quieto, infinito
ocupa-se em secar as meias.
os dois atendem pelo mesmo nome
e conhecem a mesma resposta:
só quando a chuva parar.

enquanto isso, o barco vagueia nos pertos
e os braços vão cansando:
a chuva já vai parar

(de agosto)

olhar as cataratas e pensar 'sede' vontade de bebê-las inteiras andorinhas surfavam no ar revolto semi-nuvem dormindo embrenhadas no som mais ecoante uma rave de aves unidas em negro cacho ou colméia de pássaros molhados neste ponto em que o som se acumulava mais infinito ali deviam ser atravessadas pela alma da catarata, e aprender a voar

rasgo

minha voz
s'apertando, emburrada
muito se muito me maldizendo
de não voar mais em veloz
vestida de brancos
toda fantasma, pálida
quando subia da boca
nos grandes tempos
do frio que m'apertava o coração;

minha voz
pertada, ah tristura
de nem mais saber, esquecida
dos lábios molhados
garrando, a beijos ligeiros
tanta fumaça falsa
que floreasse no ar, à frente, bela
sujando narinas torcidas
tosses cinzas e muita solidão;

minha voz
que já se grita, enferma
endiabrada
por tantas idéias falsárias
quando em tudo
queria gritar eu te amo
deitar debaixo da árvore
da ponte, da vida
m'apaixonar mil vezes em novo
dizer não! não mesmo
a frio, a cigarro,
à massaroca de mentiras duras
em embrulho de mistério lindo
e vago
que enterrei debaixo do travesseiro
mas já nem reconheço minha cama
que deito e sonho ais! a noite inteira

voz,
que nem é minha
me assalta a cozinha, súbita
onde jamais esperei crimes;
te denuncio
solitária,
infeliz,
esquecer-te num dia qualquer
cortar-te fora, rasgar-te
preferia ser mudo a te ter tão traidora e
sombria.
quando nasci
nu
engatinhando leve e
encharcado de frio
com a torrente azul sobre minhas faces
que nem sabia respirar
enxertado numa nuvem viva

quando fugi, em quatro patas
do cone de luz e água
do poço de verde e nada
meus pulmões marinhos
meus dedos de lama

eu engolia azul e fumaça
fantasma
e me vestia de aires crus

lavado dos pés à alma
meus olhos lacrimosos,
meus cortes nos pés,
minha vida,
tudo: enxugado embora

daí então, recém-nascido
pousava os dedos no mundo
gritando: vida!
sou um grão de areia que geme: vida!
se vou dormir
por milimuitos
anos,
eras,
hibernando como gelo
e minhas marcas
ocultas
sós e atrofiadas;
nascer do sol, extravagante
como um vômito de delícias
zomba de curativos
e irrompe
sua luz traiçoeira
no rasgo que me lambe de face a face
e me denuncia: moribundo!
bastou simples clarão
para saber
da morte certa (tão adiada)
ou encontrei,
nestes meus sonhos
linha e agulha
que suturar?
ven-daval
vem, vestido em negro
e fumaça
vaga, confusamente
nos redores, e tudo é campo minado.
ranca telhas
roupas
mentiras, olhares enviesados:
não! só resta então
nudez crua do vento
do tempo que nem passou
daquele furo,
rachado, crescente
no finíssimo globo de vidro
que me cercava toda vida
toda ela.
vento
que me rouba o cristal da mão
e o faz espatifar ;
ou vento que cessa
(mas que então
e o buraco?)
nariz em riste
leme de navio
arriva, singrando aires
herói mítico, místico
invencível hoje
noite de glória e tudo mais.
membros profundos
esguios
feitos de branco e sal;
corpo desnudo
de guerra e cicatriz;
pousando suas patas afoitas
suas botas de mil-distância
seus cabelos nórdicos,
bárbaro,
sobre aldeia de areia e lentidão.
lar,
doce ar

torres (ainda rascunho)

quando em lamber as línguas divinas
que os deuses do vento sabiam dançar a nossos redores
meus membros de vela sonhavam-me outro: navio,
estalando inteiro em rangidos de cordame
sob a avidez súbita da vida em me ter;
e lançavam-me no longe, no infinito
embebido nos hálitos do mundo, pipa humana
úmido dos orvalhos da saliva aérea
que se me agarrava nestes cabelos esparsos
- atirados em formato de sol -
pelo topo de um monte chamado universo;
Eu me sabia antena telúrica, pétrea
do espasmo límpido de ondas e ondas de
cavalos alados preenchendo as bordas do céu,
e singrava mares de cor e aurora:
Saúdo-te, mundo tímido
que me vislumbre em duas minutas de tempo
e passe ligeiro, rumo a teus muitos reinos que conquistar.
Sonhava, os teus lábios massivos de fogo
em beijos largos aos azuis celestes de paixão;
as tuas faces enrubescidas de nuvem,
e risadas gratas descorridas na onipresença
por sobre neves roxas que me acordavam feito adeus.
Desfalecente em teu leito duro hostil
enrolava-me sereno, nos grossos cobertores
dessa abóboda radiante ou purpúrea
pátria efêmera de mil biologias gasosas;
e meu próprio hálito, intermitente
tanto pairava por sobre as vestes
como um fumo raro, fantasma bem-vindo
alertando-me dos preços gelados; meus olhos vazios
dardejados de lágrimas, estupefactos
como feras famintas a espreitar
flutuavam, impossíveis divagantes
deitando-me em colchões de nada
que apertar-me o peito, que abraçar-me
alheios às investidas pesadas do chão,
e soluçavam: Vento! deus da paisagem,
que quase perco, nas indistâncias findas
sem pó que te me fizesse sólido:
Lambe-me como se eu tivesse gosto
de vida, de simples existo, humildemente
lamber minha língua,
a roubar-te inteiro em meus pulmões de furto
encarcerar-te, nestas prisões ligeiras que sufoquem
que me fazem tua carne, Imensíssimo
no enxertar-me pelos teus braços largos
fazendo parte o meu próprio peito
dos teus membros infindos de tornado
ao respirar do teu vasto sangue, e eu borbulho
espumo como se, líqüido, pudesse tornar-te
mais Humano! e neste oceano
de cumes e áridos, colossos, ruínas
minha alma repousa, pesada deriva
poluindo possessa, com tantas palavras,
a tudo! doravante lembrado,
pisado ou rasgado: Lembrança! é teu nome.
E se me manchas a pele, me desenhas o rosto
marcando-me eternamente gasoso
com teus choros de espuma, teus cuspes, teus cortes
de que bebo ávido - perversamente incrustrado
como intruso, neste desfile febril -
navego altivo, Espelho inviável
da glória ímpar que me desferes
do brilho que me irrompes às bocas
em elas mesmas engolirem-te em recitais;
e se me tapas os ouvidos, arroganteante
com teus murmúrios lúgubres de espectro vago:
valho-me então de nomes, lançando-os a esmo
como espadas, em leque, a te louvar