os mais sábios devem chegar, à noite, com suas luvas de aço:
agarrar as idéias pelo pescocinho, ir apertando, apertando,
"cospe!" eles berram "cospe!"
e mais tarde anotam em seus caderninhos os gemidos-falsos;
e se vão, sem nem pegar o telefone.
ordenham-nas só para dizer que trepam (em torturas)
quando nem lhes agarram as coxinhas, nem acariciam os cabelos
e as idéias órfãs, tadinhas
ficam tão desmilingüidas..!
queriam mordidinhas na nuca metafísica
e soprinhos nas orelhas de borda-de-conceito
deviam vir pra cá dançar comigo, beber umas,
que mais tarde estávamos já caindo nas farras e nos amassos
(elas são umas devassas, mesmo!)
li nalgum lugar: "medir o homem por sua sombra"
e o autor achava isso um escândalo (era-lhe só uma idéia).
enquanto eu, na minha insignificância anônima e sombria,
aponto essas bagunças como uma coisa bem gostosa.
ai, os brincares de ver formas contra a luz!
(se tiro as vestes, estou igual: se envelheço, parecido)
minhas sombras tão bonitas acompanham dia;
e noite, tão bonita, persegue sol - ou é o contrário?
quem estudasse esses pretos: não faria cosquinha?
algum dia perceberiam: é nas sombras em que moramos
e de lá (aqui!) fariam "tsc-tsc" com a cabeça
olhando para os tantos que só nos imaginam carnes sólidas de contra-luz, corpos frígidos de luz, de vida sob aquela luz cada vez mais quente até nos secar as salivas e findar as mil safadezas do escurinho.
e o autor achava isso um escândalo (era-lhe só uma idéia).
enquanto eu, na minha insignificância anônima e sombria,
aponto essas bagunças como uma coisa bem gostosa.
ai, os brincares de ver formas contra a luz!
(se tiro as vestes, estou igual: se envelheço, parecido)
minhas sombras tão bonitas acompanham dia;
e noite, tão bonita, persegue sol - ou é o contrário?
quem estudasse esses pretos: não faria cosquinha?
algum dia perceberiam: é nas sombras em que moramos
e de lá (aqui!) fariam "tsc-tsc" com a cabeça
olhando para os tantos que só nos imaginam carnes sólidas de contra-luz, corpos frígidos de luz, de vida sob aquela luz cada vez mais quente até nos secar as salivas e findar as mil safadezas do escurinho.
o maior elogio a um
nem tem nada a ver com belos ou incríveis:
"nossa, isso aí (seja o que for esse diabo)
haha, já me fez escrever tanto"
e o autor fica sem-graça
percebendo sua cria promíscua, cheia de amantes por aí
é o maior elogio, no fim
porque diz: amo-te porque me fazes amar-me
os outros talvez olhem com olhos desconfiados
meio-engraçado, meio ignorável
quando muito este affair oculto é o mais bonito
(muito mais do que os "já lhe repeti várias vezes"
"nunca cesso de abri-lo de novo"
vejam: muito mais esta exclamação zombeteira:
"já tive filhos com isso." não importa se nunca voltei a buscá-lo)
nem tem nada a ver com belos ou incríveis:
"nossa, isso aí (seja o que for esse diabo)
haha, já me fez escrever tanto"
e o autor fica sem-graça
percebendo sua cria promíscua, cheia de amantes por aí
é o maior elogio, no fim
porque diz: amo-te porque me fazes amar-me
os outros talvez olhem com olhos desconfiados
meio-engraçado, meio ignorável
quando muito este affair oculto é o mais bonito
(muito mais do que os "já lhe repeti várias vezes"
"nunca cesso de abri-lo de novo"
vejam: muito mais esta exclamação zombeteira:
"já tive filhos com isso." não importa se nunca voltei a buscá-lo)
gostar tanto de ti que quase te ver como personagem
daquela fabulação-filme-livro-históriadeboteco que chamamos vida
sentir-te quase literário
quase - aquelas notas finais da melodia preferida
descobrir o parentesco gostoso entre essa tua carne
rabiscada de cicatrizes e dores
e todos aqueles tecidos compridos
mesmo véus que vão se caindo sobre ti qual lencóis
e meio que vamos nos afundando neles (um afundar para cima)
e são feitos de água semi-nuvem nublada
que se desfazem ao toque ajuntando-se à tua pele
e logo tu és um amontoado úmido de cores e panos
viva, amontoado úmido de cores e panos!
viva, amontoado úmido!
viva!
daquela fabulação-filme-livro-históriadeboteco que chamamos vida
sentir-te quase literário
quase - aquelas notas finais da melodia preferida
descobrir o parentesco gostoso entre essa tua carne
rabiscada de cicatrizes e dores
e todos aqueles tecidos compridos
mesmo véus que vão se caindo sobre ti qual lencóis
e meio que vamos nos afundando neles (um afundar para cima)
e são feitos de água semi-nuvem nublada
que se desfazem ao toque ajuntando-se à tua pele
e logo tu és um amontoado úmido de cores e panos
viva, amontoado úmido de cores e panos!
viva, amontoado úmido!
viva!
eu estava andando pela música e ouvindo o chão
andando de olhos fechados, como escrevo de olhos fechados agora
escrevendo de olhos fechados, andando de olhos fechados,
o fio da realidade me soando tão mais frágil, se requebrando todo
(quase parece aquelas folhas de árvore que se atiraram no vento
e ficaram presas num fio de teia de aranha: congeladas no ar)
tudos já se mesclando: e de 'onde estou' é tão bonito
(e não ver o que é escrito: é quase falar)
andar no tempo de olhos fechados
hoje eu corri
sem ver o mundo: cerrado nestes eu-mesmos
e normalmente assim passo contando os segundos e os passos
brincando chegar a um limite, manter a conta, medir..
mas não, dessa vez não; haha
abdiquei das réguas:
estava a música e ela se foi me tornando mais real do que o chão que me pisava os pés.
e logo minha pele ficou manchada de som em várias partes
e eu sabia que as matérias de que me fazia eram muito calafrios e arrepios rítmicos percorrendo os meus pêlos
e meus movimentos todos delineavam uns outros universos
que cada músculo se afinava instrumento
e a música ia saindo era do meu própro corpo:
estou incerto instrumento musical e gaguejo!
e nada dos meus passos estarem é caminhando pela rua,
contraindo carnes feitas de sólido, ah não:
os tais sólidos e frios me eram um bonito poema
a que escutava com minhas orelhas acústicas
lá das terras do aéreo e do sonoro
invertindo a relação, se me tornando ponta-cabeça
ruído enorme me invadindo as cabeças, como um exército
que é para metermo-nos a caminhar naquelas estradas
(ah, que nem consigo falar: estou mais preocupado em me dançar e espasmar do que no descrever; que diabos! haha)
escrevendo de olhos fechados, andando de olhos fechados,
o fio da realidade me soando tão mais frágil, se requebrando todo
(quase parece aquelas folhas de árvore que se atiraram no vento
e ficaram presas num fio de teia de aranha: congeladas no ar)
tudos já se mesclando: e de 'onde estou' é tão bonito
(e não ver o que é escrito: é quase falar)
andar no tempo de olhos fechados
hoje eu corri
sem ver o mundo: cerrado nestes eu-mesmos
e normalmente assim passo contando os segundos e os passos
brincando chegar a um limite, manter a conta, medir..
mas não, dessa vez não; haha
abdiquei das réguas:
estava a música e ela se foi me tornando mais real do que o chão que me pisava os pés.
e logo minha pele ficou manchada de som em várias partes
e eu sabia que as matérias de que me fazia eram muito calafrios e arrepios rítmicos percorrendo os meus pêlos
e meus movimentos todos delineavam uns outros universos
que cada músculo se afinava instrumento
e a música ia saindo era do meu própro corpo:
estou incerto instrumento musical e gaguejo!
e nada dos meus passos estarem é caminhando pela rua,
contraindo carnes feitas de sólido, ah não:
os tais sólidos e frios me eram um bonito poema
a que escutava com minhas orelhas acústicas
lá das terras do aéreo e do sonoro
invertindo a relação, se me tornando ponta-cabeça
ruído enorme me invadindo as cabeças, como um exército
que é para metermo-nos a caminhar naquelas estradas
(ah, que nem consigo falar: estou mais preocupado em me dançar e espasmar do que no descrever; que diabos! haha)
ah, que mundo o quê!
minha tara é por algo de muito mais rápido
muito muito passageiro e de que nem se falam muito
aquela sensação assim-assado, aquele removimento:
imagine um voyeurismo apenas dos gestos de limpar os pés nas portas
a fixação pelas relações entre tossidas e timbres de voz
estudos maníacos das palavras entre-resmungadas pelas cozinheiras de boteco;
o meu talvez seja um tanto mais longe e vazio,
porque eu talvez esteja só me coçando, mecanicamente
e nem realmente ligue a nada disso: espreguiçando.
gosto de saber tantos músculos se contorcem nas carnes
quando as meninas e os meninos se fazem de bobos ingênuos
e, por uma simpatia qualquer, um sortilégio infantil,
ganham ganas de se esticar em prosa gostosa
porque sozinhos se expandam tão grandes
que já outro dia esbarram uns nos outros
e se gritam "ei sai daqui!" "ei isso era meu, devolve"
todo o palavreado de simples esvaziar a alma dumas coisas tão incômodas que se nos alimentam
os bebês precisavam de tapinhas nas costas para arrotar
as crianças saem fazendo campeonatos dessas besteiras
eu gosto é de saber como os outros põem para fora esta espécie de dor-de-barriga metafísica e preguiçosa
minha tara é por algo de muito mais rápido
muito muito passageiro e de que nem se falam muito
aquela sensação assim-assado, aquele removimento:
imagine um voyeurismo apenas dos gestos de limpar os pés nas portas
a fixação pelas relações entre tossidas e timbres de voz
estudos maníacos das palavras entre-resmungadas pelas cozinheiras de boteco;
o meu talvez seja um tanto mais longe e vazio,
porque eu talvez esteja só me coçando, mecanicamente
e nem realmente ligue a nada disso: espreguiçando.
gosto de saber tantos músculos se contorcem nas carnes
quando as meninas e os meninos se fazem de bobos ingênuos
e, por uma simpatia qualquer, um sortilégio infantil,
ganham ganas de se esticar em prosa gostosa
porque sozinhos se expandam tão grandes
que já outro dia esbarram uns nos outros
e se gritam "ei sai daqui!" "ei isso era meu, devolve"
todo o palavreado de simples esvaziar a alma dumas coisas tão incômodas que se nos alimentam
os bebês precisavam de tapinhas nas costas para arrotar
as crianças saem fazendo campeonatos dessas besteiras
eu gosto é de saber como os outros põem para fora esta espécie de dor-de-barriga metafísica e preguiçosa
acho é tão bonito dizerem por aí
"ai, que me falta a inspiração!";
esse verbo gostoso que nos serve às artes e aos fôlegos.
quase me dizem: "ai, falta-me ar!"
delirando efeminados quase em desmaio.
estão ofegantes dalguma corrida de suas horas
ou mesmo asmáticos: quase nem respiram
sufocando no ar-mesmo que nos entorna, líqüido.
e seus prazos pesados, bolas de ferro,
lhes afundando num oceano de irrespiradas,
um oceano de poeiras velhas sugando-lhes o ar:
os prazos expirando, e expirando mais e mais,
já sem brisa nenhuma que lhes acorde.
quase se ouve o silvo triste do ar que escapa,
pelos furos largos nunca tapados - mas dói tanto!
chegar um dia em que expirem completos - o prazo final:
os alvéolos fechando a quaisquer instintos ávidos que se lhes acometam
sem inspirações: sem respirações: sem energia
os Seres da Expiração, das cuspidas e faltas de ar;
cambaleando expirantes e resfolegantes. inspirem!
se para gritar as idéias bonitas,
que lhes requiram as inspirações profundas, cheias,
então, ó vejam: era bom engolir mesmo o mundo!
embriagar os pulmões de vida!
gritar as almas que se nos entulham a fala;
um grito tão forte que invada as bocas dos outros
um grito que irrompa em respirações beijo-a-beijo
um grito de beijos e vida aérea.
o ar talvez seja feito de cheiros e sabores,
e o pulmão lingüístico só pulsaria belo nos discursos.
"ai, que me falta a inspiração!";
esse verbo gostoso que nos serve às artes e aos fôlegos.
quase me dizem: "ai, falta-me ar!"
delirando efeminados quase em desmaio.
estão ofegantes dalguma corrida de suas horas
ou mesmo asmáticos: quase nem respiram
sufocando no ar-mesmo que nos entorna, líqüido.
e seus prazos pesados, bolas de ferro,
lhes afundando num oceano de irrespiradas,
um oceano de poeiras velhas sugando-lhes o ar:
os prazos expirando, e expirando mais e mais,
já sem brisa nenhuma que lhes acorde.
quase se ouve o silvo triste do ar que escapa,
pelos furos largos nunca tapados - mas dói tanto!
chegar um dia em que expirem completos - o prazo final:
os alvéolos fechando a quaisquer instintos ávidos que se lhes acometam
sem inspirações: sem respirações: sem energia
os Seres da Expiração, das cuspidas e faltas de ar;
cambaleando expirantes e resfolegantes. inspirem!
se para gritar as idéias bonitas,
que lhes requiram as inspirações profundas, cheias,
então, ó vejam: era bom engolir mesmo o mundo!
embriagar os pulmões de vida!
gritar as almas que se nos entulham a fala;
um grito tão forte que invada as bocas dos outros
um grito que irrompa em respirações beijo-a-beijo
um grito de beijos e vida aérea.
o ar talvez seja feito de cheiros e sabores,
e o pulmão lingüístico só pulsaria belo nos discursos.
é tão simples:
gostamos de falar
blablablá blablabli blabló
pouco importa sobre o quê:
se é só para empilhar sorrisos
e esticar as línguas um pouquinho,
um minutinho, enquanto vomitamos sangue
mas se dói? ah, e se dói! ah, e daí?
tudo invenções em gostoso
saborear as respiradas
reviver os olhares
falar, falar, falar
um, dois, três
gostamos de falar
blablablá blablabli blabló
pouco importa sobre o quê:
se é só para empilhar sorrisos
e esticar as línguas um pouquinho,
um minutinho, enquanto vomitamos sangue
mas se dói? ah, e se dói! ah, e daí?
tudo invenções em gostoso
saborear as respiradas
reviver os olhares
falar, falar, falar
um, dois, três
quanto discutem inverdades por aí
quanto se perdem nas mastigações
rerruminando esgares de nojo.
olha: só possuo um feito.
as suas raivas; os seus medos;
mandaria-os todos ao espaço.
não se gastem em minhas fendas tristes
que é escuro: façam fogueiras
gosto de ser combustível: vim arder!
aquela habilidade infinda
de evaporar em sons mascavos
revirando os olhinhos da molecada.
lambam os beiços, vou lambê-los todos!
vamos atear fogo às roupas uns dos outros,
e rir.
quanto se perdem nas mastigações
rerruminando esgares de nojo.
olha: só possuo um feito.
as suas raivas; os seus medos;
mandaria-os todos ao espaço.
não se gastem em minhas fendas tristes
que é escuro: façam fogueiras
gosto de ser combustível: vim arder!
aquela habilidade infinda
de evaporar em sons mascavos
revirando os olhinhos da molecada.
lambam os beiços, vou lambê-los todos!
vamos atear fogo às roupas uns dos outros,
e rir.
as crianças me ouviam estiradas pelo assoalho
e eu reverberava em suas almas, tentando sair
elas ouviam tantas vezes, mas tantas
e eu gritando: levantem-se e me incarnem!
quantas crianças me abraçaram de olhos abertos
quantas crianças agarraram minhas lágrimas perdidas
quando tudo mais era só chorar comigo
fechar as pálpebras: e sonhar junto.
e eu reverberava em suas almas, tentando sair
elas ouviam tantas vezes, mas tantas
e eu gritando: levantem-se e me incarnem!
quantas crianças me abraçaram de olhos abertos
quantas crianças agarraram minhas lágrimas perdidas
quando tudo mais era só chorar comigo
fechar as pálpebras: e sonhar junto.
faca, queijo, pão
estão a conversar, sobre seus dias
"não me decido, imortal
cortar gargantas, passar manteiga
escravizaria mundos! haha
mas só espreito: enferrujo"
"eu alimento! mas inda assim
sofro apodrecer milhão
rimo beijo, limpo rato
meus buracos escondem vento e desrazão"
"sou carne divina, sou sustento
sou não: sou mão: sou cão
me partir dá tanto som:
sou música, desjejum, então?"
faca, queijo, pão
venham cá, e juntos
tes farei misturas múltiplas
faca, queijo, pão
morte, beijo, não
podemos juntos construir
seja o que for.
estão a conversar, sobre seus dias
"não me decido, imortal
cortar gargantas, passar manteiga
escravizaria mundos! haha
mas só espreito: enferrujo"
"eu alimento! mas inda assim
sofro apodrecer milhão
rimo beijo, limpo rato
meus buracos escondem vento e desrazão"
"sou carne divina, sou sustento
sou não: sou mão: sou cão
me partir dá tanto som:
sou música, desjejum, então?"
faca, queijo, pão
venham cá, e juntos
tes farei misturas múltiplas
faca, queijo, pão
morte, beijo, não
podemos juntos construir
seja o que for.
se você soubesse
o quanto preciso de você
o quanto me falta: tu, infinitamente
e minhas palavras soam vagas e lentas
sem ti: sou tão teu, minha vida
teus risos são o mais perfeito combustível
dos meus ais. sonha comigo!
me desmonta! ah, aparece,
desembaraça meus cabelos
estou tão descabelado..
vem cá me coçar estas páginas
de mansinho. sou pouco: sim sei
mas inda assim; cá vim!
coça minhas entrelinhas gostosas de mentira
e finge navegar as soltas que não tenho:
sou sozinho, ah mentira. mas vem!
que no fim iremos juntos reclamar tudo
e será mais gostoso infelizar a dois.
não desiste destes poucos parágrafos inventados
te gosto: resiste! te beijo escondido
lê mais o resto, que desimporta
se soubesses o quanto me satisfazem teus insultos!
como-os ávidamente, no café, antes de dormir.
o quanto preciso de você
o quanto me falta: tu, infinitamente
e minhas palavras soam vagas e lentas
sem ti: sou tão teu, minha vida
teus risos são o mais perfeito combustível
dos meus ais. sonha comigo!
me desmonta! ah, aparece,
desembaraça meus cabelos
estou tão descabelado..
vem cá me coçar estas páginas
de mansinho. sou pouco: sim sei
mas inda assim; cá vim!
coça minhas entrelinhas gostosas de mentira
e finge navegar as soltas que não tenho:
sou sozinho, ah mentira. mas vem!
que no fim iremos juntos reclamar tudo
e será mais gostoso infelizar a dois.
não desiste destes poucos parágrafos inventados
te gosto: resiste! te beijo escondido
lê mais o resto, que desimporta
se soubesses o quanto me satisfazem teus insultos!
como-os ávidamente, no café, antes de dormir.
convite
já não sei bem dessas de fim-em-si
escrevinhações... eu as tomo como meio
sua direção estaria em chamar os leitores a perto
convites: escrever convites
convites para uma certa festa que daremos juntos
em que escreveremos as grandes literaturas
(que nada passem de convites aos deuses)
- pois então: quem se voluntaria?
escrevinhações... eu as tomo como meio
sua direção estaria em chamar os leitores a perto
convites: escrever convites
convites para uma certa festa que daremos juntos
em que escreveremos as grandes literaturas
(que nada passem de convites aos deuses)
- pois então: quem se voluntaria?
daquelas angústias; faltas de rumos
que caminhos novos estas letras me abrem?
não se sabe. por que isto? por que isto?
há algos que devem ser mais alardeados por aí:
as escritas precisam sair do papel branco;
que saídas encontrem, que saídas inventem
a escrita para sair da vida de papel branco
(a vida de branco)
(a vida em branco)
não basta escrever na vida,
pegar sua caneta e ficar desenhando no ar até que o vento leve:
esta escrita precisa sair do ar e entrar nas paredes,
precisa sair dos bloquinhos e seguir braços adentro
escrever nas linhas mas também nos sangues e sons
de forma que as próprias palavras ditas estejam pichadas, rabiscadas, fragmentadas:
o mais importante das canetas-tinteiro é as manchas na mesa,
os respingos nas roupas e nos dedos,
que denunciam: inventei.
auto-invenção, auto-construção,
auto-fabricação de corpos novos todos rasgados em imagens
imagine aquele dia em que você veja alguém sem nome lhe perguntando 'que horas são'
e note, gritante, nos trejeitos de suas sílabas,
no escoar da língua entre os dentes,
no próprio matraquear das idéias nas orelhas:
toda aquela multidão de falas tentando porque tentando sair;
uma horda de impossíveis revoltas às horas e ao são,
uma vibração de incomum: um 'que horas são' que se ponha de pernas pro ar: para sempre.
obrigar a fala do escritor a rebentar
obrigar suas letras a afogarem seus olhos
que ele não consiga mais ver o mundo igual:
que isto aqui tudo tenha algum sentido (por favor)
que não sejam floreios, ah! que não sejam floreios!
que não sejam poemetos de jornal,
embelezamentos fáceis de uma vida imóvel, conformada:
que seja sísmico; que seja tectônico;
que trema lá nos fundos dos refundos das almas
que se desagüem em novas formas de respirar
que as letras saiam da página, que escorram livres
que saiam de mim: que entrem em mim: que soem.
que caminhos novos estas letras me abrem?
não se sabe. por que isto? por que isto?
há algos que devem ser mais alardeados por aí:
as escritas precisam sair do papel branco;
que saídas encontrem, que saídas inventem
a escrita para sair da vida de papel branco
(a vida de branco)
(a vida em branco)
não basta escrever na vida,
pegar sua caneta e ficar desenhando no ar até que o vento leve:
esta escrita precisa sair do ar e entrar nas paredes,
precisa sair dos bloquinhos e seguir braços adentro
escrever nas linhas mas também nos sangues e sons
de forma que as próprias palavras ditas estejam pichadas, rabiscadas, fragmentadas:
o mais importante das canetas-tinteiro é as manchas na mesa,
os respingos nas roupas e nos dedos,
que denunciam: inventei.
auto-invenção, auto-construção,
auto-fabricação de corpos novos todos rasgados em imagens
imagine aquele dia em que você veja alguém sem nome lhe perguntando 'que horas são'
e note, gritante, nos trejeitos de suas sílabas,
no escoar da língua entre os dentes,
no próprio matraquear das idéias nas orelhas:
toda aquela multidão de falas tentando porque tentando sair;
uma horda de impossíveis revoltas às horas e ao são,
uma vibração de incomum: um 'que horas são' que se ponha de pernas pro ar: para sempre.
obrigar a fala do escritor a rebentar
obrigar suas letras a afogarem seus olhos
que ele não consiga mais ver o mundo igual:
que isto aqui tudo tenha algum sentido (por favor)
que não sejam floreios, ah! que não sejam floreios!
que não sejam poemetos de jornal,
embelezamentos fáceis de uma vida imóvel, conformada:
que seja sísmico; que seja tectônico;
que trema lá nos fundos dos refundos das almas
que se desagüem em novas formas de respirar
que as letras saiam da página, que escorram livres
que saiam de mim: que entrem em mim: que soem.
escrita escrita ita es crita escrita
esgrita grita escrita grita es crita
irrita a escrita irrita escrita a rita
escrita rita rito escrita escrito
esgrito mito minto escrito crita emito
irrita tinta rito extinto
trinta extinta tinta rito mito
escrito ita escrito inscrita
escrita imita o mito escrita ita limito
esgrita escri grita esgrima esgrima
esgrita es grita escrita escri es
cria ex cria crio escrita cria
rio escrita ria da cria lia rio ria rita
escrita cria rio lia escrita
escrita ria reta creta
excreta creta dis-creta diz creta
creta ria escrita reta
escrita reta veta via creta
escrita meta excreta
metaescrita da escrita reta reta
escri ta reta escri-crita reta
es crita grita esgrime rita crime reta
excreta escrime prime rima reta
esperta imprime prima ex creta
exprima rima esperma perma
escrita vita rima esperma
escrita crime exprime merda
exprime crita escrita impri
mescri ta cricri
escri- cri - escricri cri escricri
escricristo cristo
escri cristo excreta
cristo grita escrita veta
escri ta es criba escreva
escriva escrita viva
escravo cravo escravo criva
cravo cribo cabo encabo encravo
encapo escrita capo
escrita capa o escravo vivo alvo
escrita calpo escalpo escalpo
mesquita equita esculpe escrita culpe quita
escrita esquiva
escavo escravo criva rato
escrita ato es scrita salto alto
escrita cita salto ita ita
escrita cata quita o alvo salvo
escri va bica cava es calpo
escrita ita escri te escrito alvo escarro carro
escravo carro escarro esbarro
escravo viva vivo
escravo escrita
escrava
escrava
viva
esgrita grita escrita grita es crita
irrita a escrita irrita escrita a rita
escrita rita rito escrita escrito
esgrito mito minto escrito crita emito
irrita tinta rito extinto
trinta extinta tinta rito mito
escrito ita escrito inscrita
escrita imita o mito escrita ita limito
esgrita escri grita esgrima esgrima
esgrita es grita escrita escri es
cria ex cria crio escrita cria
rio escrita ria da cria lia rio ria rita
escrita cria rio lia escrita
escrita ria reta creta
excreta creta dis-creta diz creta
creta ria escrita reta
escrita reta veta via creta
escrita meta excreta
metaescrita da escrita reta reta
escri ta reta escri-crita reta
es crita grita esgrime rita crime reta
excreta escrime prime rima reta
esperta imprime prima ex creta
exprima rima esperma perma
escrita vita rima esperma
escrita crime exprime merda
exprime crita escrita impri
mescri ta cricri
escri- cri - escricri cri escricri
escricristo cristo
escri cristo excreta
cristo grita escrita veta
escri ta es criba escreva
escriva escrita viva
escravo cravo escravo criva
cravo cribo cabo encabo encravo
encapo escrita capo
escrita capa o escravo vivo alvo
escrita calpo escalpo escalpo
mesquita equita esculpe escrita culpe quita
escrita esquiva
escavo escravo criva rato
escrita ato es scrita salto alto
escrita cita salto ita ita
escrita cata quita o alvo salvo
escri va bica cava es calpo
escrita ita escri te escrito alvo escarro carro
escravo carro escarro esbarro
escravo viva vivo
escravo escrita
escrava
escrava
viva
a anarquia está refluindo
bastava deixá-la a si mesma,
suas memórias-mesmas repetinindo estilo
que iam-se perdendo em resmungos e rascunhatos
as duríssimas liberalidades de folha-de-papel-em-branco.
oh! infindável limpar as folhas de suas manchas!
se logo crescendo fungos pelas bordas,
as folhas tão manchadas de bege;
abrir terreno! explodir as velhas linhas negras circulares
velhas linhas grossas, pretas, resistentes
que me soam cordas e correntes atando os desejos de escrita:
tanto cabelos negros que me entopem os ralos,
impedindo os escoamentos, os deslizes, os rios.
eu nasci em um grande campo negro
regido pela Lei do círculo:
palavra circular, palavra-espelho, palavrarvalap.
e se por tal mesmo nunca proliferei,
encolhido por esse vômito de pronúncia;
se então atirei o escuro por longe - resolvi começar-me um nada
escrever um nada e deixar aflorarem muitos os pequenos vícios encolhidos;
mas ainda o lugar onde se escreve é como jardim:
e logo as livres mudas palrando novas de raríssimas
nunca dantes vistas em suas formas e desleituras
inventam a dominar-se regovernadas! e já sufocam;
uma escrita grande desmatar, desconstruir, desfazer, deslocar, desgovernar,
tudo a grande limpeza de tudos aquilos lânguidos que façam tamanha força por marcarem-se em papel;
tudo libertar os pequenos, os menores, os infinitos:
que meio vão-se em surgindo acidentalmente
e pelos cantos, pelos desinteresses, pelos vazios;
espontâneos: tão infinitos
grande motor da anarquia a mira na destruição, iconoclastia.
pois se construir, se dá no não-visado, só se dá no não-olhando;
escrito, ex-grito,
encarnando esse subterfúgio de apontar tudo alvos que rasgar,
inimigos que romper, que deixar;
largar as letras sós borbulhando em não regidas por grandes Leis
garanti-las dispostas em certas arquiteturas,
lhes interrompendo as fugas fáceis àqueles tão enfadonhos,
tão chamados lugares-comuns, de maus-hálitos
deixá-las soltas assim: esquecidas,
que por aí revolvam suas novidades de se ser.
bastava deixá-la a si mesma,
suas memórias-mesmas repetinindo estilo
que iam-se perdendo em resmungos e rascunhatos
as duríssimas liberalidades de folha-de-papel-em-branco.
oh! infindável limpar as folhas de suas manchas!
se logo crescendo fungos pelas bordas,
as folhas tão manchadas de bege;
abrir terreno! explodir as velhas linhas negras circulares
velhas linhas grossas, pretas, resistentes
que me soam cordas e correntes atando os desejos de escrita:
tanto cabelos negros que me entopem os ralos,
impedindo os escoamentos, os deslizes, os rios.
eu nasci em um grande campo negro
regido pela Lei do círculo:
palavra circular, palavra-espelho, palavrarvalap.
e se por tal mesmo nunca proliferei,
encolhido por esse vômito de pronúncia;
se então atirei o escuro por longe - resolvi começar-me um nada
escrever um nada e deixar aflorarem muitos os pequenos vícios encolhidos;
mas ainda o lugar onde se escreve é como jardim:
e logo as livres mudas palrando novas de raríssimas
nunca dantes vistas em suas formas e desleituras
inventam a dominar-se regovernadas! e já sufocam;
uma escrita grande desmatar, desconstruir, desfazer, deslocar, desgovernar,
tudo a grande limpeza de tudos aquilos lânguidos que façam tamanha força por marcarem-se em papel;
tudo libertar os pequenos, os menores, os infinitos:
que meio vão-se em surgindo acidentalmente
e pelos cantos, pelos desinteresses, pelos vazios;
espontâneos: tão infinitos
grande motor da anarquia a mira na destruição, iconoclastia.
pois se construir, se dá no não-visado, só se dá no não-olhando;
escrito, ex-grito,
encarnando esse subterfúgio de apontar tudo alvos que rasgar,
inimigos que romper, que deixar;
largar as letras sós borbulhando em não regidas por grandes Leis
garanti-las dispostas em certas arquiteturas,
lhes interrompendo as fugas fáceis àqueles tão enfadonhos,
tão chamados lugares-comuns, de maus-hálitos
deixá-las soltas assim: esquecidas,
que por aí revolvam suas novidades de se ser.
entortear palavras possui se muito tanto dum ritmo gostoso de sem-conteúdo
lhe nem chamo de floreio: que nem possui haste a se guiar;
bando de desmesuras engrandecendo mil nadas
só sorrisos letrados, sons impronunciados se escorregando entre os dentes:
meio quanto sem-sentidos: perdendo os sentidos: desmaiando
bolhetas de ar fluido repassando entre os palavreados
entre tantas engrenagens de incomunicação
que lhas façam girar sem rangidos
com rangidos
som bonito dos pliqueplaques da linguagem ressoando as rodas lentas de sua velha carruagem de mentiras, até despencar do penhasco bonitamente, naquele vôo veloz dos pássaros atirando-se às mortes improváveis do pouso fim.
lhe nem chamo de floreio: que nem possui haste a se guiar;
bando de desmesuras engrandecendo mil nadas
só sorrisos letrados, sons impronunciados se escorregando entre os dentes:
meio quanto sem-sentidos: perdendo os sentidos: desmaiando
bolhetas de ar fluido repassando entre os palavreados
entre tantas engrenagens de incomunicação
que lhas façam girar sem rangidos
com rangidos
som bonito dos pliqueplaques da linguagem ressoando as rodas lentas de sua velha carruagem de mentiras, até despencar do penhasco bonitamente, naquele vôo veloz dos pássaros atirando-se às mortes improváveis do pouso fim.
andar de olhos fechados pelas ruas
sempre conto vinte passos e não agüento
às vezes pouco mais, quando uma parede que me guiar
mas muito tanto dez ou quinze,
se atravessar a rua, obstáculos, perigos
mesmo cinco! ou três!
extrair o máximo de silêncio dos olhos
caminhando em sonhos,
largar-se nos mundos oníricos:
deixar os olhos para o que lhes valha a pena.
tornear as escadas e travessas
se de tão soterradas em vislumbres repetitidos
já são muito engodo afagando lentas as imudanças:
lançá-las ao espaço:
ao longe
ganhar todas as aventuras de um andar cego maravilhoso.
sempre conto vinte passos e não agüento
às vezes pouco mais, quando uma parede que me guiar
mas muito tanto dez ou quinze,
se atravessar a rua, obstáculos, perigos
mesmo cinco! ou três!
extrair o máximo de silêncio dos olhos
caminhando em sonhos,
largar-se nos mundos oníricos:
deixar os olhos para o que lhes valha a pena.
tornear as escadas e travessas
se de tão soterradas em vislumbres repetitidos
já são muito engodo afagando lentas as imudanças:
lançá-las ao espaço:
ao longe
ganhar todas as aventuras de um andar cego maravilhoso.
não me perguntem por quê.
eu nunca sei.
só um passageiro na minha vida;
invento mil e um destinos do motorista,
eu nunca sei.
só um passageiro na minha vida;
invento mil e um destinos do motorista,
querem ouvir essas mentiras?
eu mesmo já sou surdo a elas.
só, sigo em frente.
acho essas incertezas quão promíscuas,
pois se obrigam pensar;
se deveriam obrigar pensar;
se tão leves, tão esquecidas, tão escondidas
a pena darem tantas angústias conformadas e compridas.
há todo um sentido especial no sair para comprar cigarros;
mesmo que raro seja assim,
sinto-me sempre de chinelo de dedo,
barba mal-feita, como recém-acordado às quatro da tarde;
bocejando e divagando enquanto realizo aquilo de tão hábito que é ir à esquina;
arranjar uma desculpa ingênua para esticar as pernas,
e depois ficar fumando bobagens,
tudo só de matando alguns minutos.
meio que é das poucas cenas que envolvem atmosferas de calor,
as roupas brancas, largas, soltas,
brasil.
mesmo que raro seja assim,
sinto-me sempre de chinelo de dedo,
barba mal-feita, como recém-acordado às quatro da tarde;
bocejando e divagando enquanto realizo aquilo de tão hábito que é ir à esquina;
arranjar uma desculpa ingênua para esticar as pernas,
e depois ficar fumando bobagens,
tudo só de matando alguns minutos.
meio que é das poucas cenas que envolvem atmosferas de calor,
as roupas brancas, largas, soltas,
brasil.
eu gostaria de aprender a dançar com quadros;
entraria no museu e me poria aos passos longos,
calmamente deliciando nos aires me roçando os membros,
e sentiria as imagens tatuando-se leves na minha pele.
acho que todos os pintores estão dançando enquanto pintam,
mesmo que nem percebam.
(aliás conheço artistas demais que não percebem
ficam dançando rígidos
não aproveitando as musicalidades do roçar dos pincéis
engolindo a dança
devem depois de cada quadro ir ao banheiro livrar-se de tanta balbúrdia)
entraria no museu e me poria aos passos longos,
calmamente deliciando nos aires me roçando os membros,
e sentiria as imagens tatuando-se leves na minha pele.
acho que todos os pintores estão dançando enquanto pintam,
mesmo que nem percebam.
(aliás conheço artistas demais que não percebem
ficam dançando rígidos
não aproveitando as musicalidades do roçar dos pincéis
engolindo a dança
devem depois de cada quadro ir ao banheiro livrar-se de tanta balbúrdia)
escrita que faça o leitor pôr-se a dançar
como dar uma festa através da página? carta que seja literalmente convite à dança, literalmente convite - seja a própria festa ali - e você entre na página e ponha-se também em sinais a passear pelo papel em sua ginga safa, recolhendo verbos e adjetivos, num grande jogo de cartas e você é um coringa construindo castelos delas, ganhando tantas liberdades em seu frankenstein de movimentos escritos, sua quimera de tentáculos por todas as folhas, ah!
danem-se as potências outras das letras!
muito mais fazê-las entrar nas carnes, entrar nas artérias, pular no coração, espalhar-se por todos os sistemas nervosos em pulsos vibrantes, calibrando os cabelos, ondeando os pêlos, em ritmo, em ritmo,
alguns tentam transmitir sua festa como se a escrita fosse uma janela transparente;
mas por que não chamar as próprias folhas à festa?
melhor, dar a festa nelas, juntar-se a elas nestas folias, haha;
tudo que posso fazer é escrever dançando e chamar à dança as palavras
se as palavras estão dançando, ora talvez elas só saibam dançar sozinhas,
e estão se balançando tão gostosamente, sinta o suingue da grafia!
ao vê-las dançar alguns ficam com vontade de pôr-se a balançar também,
e, na livraria, os surdos-mudos vão dar o maior baile, vocês vão todos perder;
uma vez escrevendo comecei a dançar na cadeira - pela música das minhas próprias palavras!
sabe o que é pôr-se a fazer o corpo também dizer letras?
fazer os braços esticados, e depois n'outra posição, noutro signo,
e quem se puser a ler o braile mágico da carne vai poder perceber a continuidade entre o lido e o dançado
braile baile braile baile
braile anagrama de bailer
aile em francês, asa
b-aile-r: asar-se
bailar: dar asas a si
acho não existe melhor expressão para uma boa obra musical que escrever dançando;
escrever-dançando
dancescrita
escridança
gosto de saber não são simples as letras se divertindo,
mas também as imagens a que remetem,
que ficam remexendo-se inconstantes,
carnaval conceitual de pares em tango;
assistir aos outros dançarem nos faz querer dançar também - não é o objetivo de tudo?
e não, não me venham com a poesia cantada dos gregos velhos e mortos,
não, ha! não me venham com os sons dessas palavras achar que eles têm ritmo;
ah! não comecem essas histórias de poesia cantada, ah, vão à merda!
sintam os conceitos girarem! sintam as músicas das imagens!
parem com essas interpretações superficiais do som e captem suas vantagens lá nos arrebaldes de sua essência;
manifestos, manifestos,
por que os manifestos são todos cantados?
os oradores põem-se a gritar seus refrões pelos becos;
talvez um jorro de imagens monotônicas também faça os ouvintes arrepiarem
como dar uma festa através da página? carta que seja literalmente convite à dança, literalmente convite - seja a própria festa ali - e você entre na página e ponha-se também em sinais a passear pelo papel em sua ginga safa, recolhendo verbos e adjetivos, num grande jogo de cartas e você é um coringa construindo castelos delas, ganhando tantas liberdades em seu frankenstein de movimentos escritos, sua quimera de tentáculos por todas as folhas, ah!
danem-se as potências outras das letras!
muito mais fazê-las entrar nas carnes, entrar nas artérias, pular no coração, espalhar-se por todos os sistemas nervosos em pulsos vibrantes, calibrando os cabelos, ondeando os pêlos, em ritmo, em ritmo,
alguns tentam transmitir sua festa como se a escrita fosse uma janela transparente;
mas por que não chamar as próprias folhas à festa?
melhor, dar a festa nelas, juntar-se a elas nestas folias, haha;
tudo que posso fazer é escrever dançando e chamar à dança as palavras
se as palavras estão dançando, ora talvez elas só saibam dançar sozinhas,
e estão se balançando tão gostosamente, sinta o suingue da grafia!
ao vê-las dançar alguns ficam com vontade de pôr-se a balançar também,
e, na livraria, os surdos-mudos vão dar o maior baile, vocês vão todos perder;
uma vez escrevendo comecei a dançar na cadeira - pela música das minhas próprias palavras!
sabe o que é pôr-se a fazer o corpo também dizer letras?
fazer os braços esticados, e depois n'outra posição, noutro signo,
e quem se puser a ler o braile mágico da carne vai poder perceber a continuidade entre o lido e o dançado
braile baile braile baile
braile anagrama de bailer
aile em francês, asa
b-aile-r: asar-se
bailar: dar asas a si
acho não existe melhor expressão para uma boa obra musical que escrever dançando;
escrever-dançando
dancescrita
escridança
gosto de saber não são simples as letras se divertindo,
mas também as imagens a que remetem,
que ficam remexendo-se inconstantes,
carnaval conceitual de pares em tango;
assistir aos outros dançarem nos faz querer dançar também - não é o objetivo de tudo?
e não, não me venham com a poesia cantada dos gregos velhos e mortos,
não, ha! não me venham com os sons dessas palavras achar que eles têm ritmo;
ah! não comecem essas histórias de poesia cantada, ah, vão à merda!
sintam os conceitos girarem! sintam as músicas das imagens!
parem com essas interpretações superficiais do som e captem suas vantagens lá nos arrebaldes de sua essência;
manifestos, manifestos,
por que os manifestos são todos cantados?
os oradores põem-se a gritar seus refrões pelos becos;
talvez um jorro de imagens monotônicas também faça os ouvintes arrepiarem
estômago vazio torna-se caixa de ressonância de sentimentos,
os afetos ecoam e multiplicam-se
fomes e mudanças de equilíbrios químicos
os afetos ecoam e multiplicam-se
fomes e mudanças de equilíbrios químicos
disse o burguesinho que nunca passou fome na vida e acha arte pela arte super revolucionário enquanto suporta a vida igual aos outros; quase mesmo de tantas autocríticas cínicas nunca reage.
receita para poema :
trajes incomuns, por exemplo nu
por volta das 3 da manhã, nem que debaixo dos lençóis
sons escuros atravessando o crânio (vale zunido de pensamentos elétricos)
estômago quase vazio
às vezes álcool para euforia
cigarros para extravasar,
solidão,
ter acabado de gastar energia em algo estúpido
vontades de lembrar sabores à vida
deixar insone ligado a algum aparato de escrever mentiras até esgotar.
reescrituras a gosto.
trajes incomuns, por exemplo nu
por volta das 3 da manhã, nem que debaixo dos lençóis
sons escuros atravessando o crânio (vale zunido de pensamentos elétricos)
estômago quase vazio
às vezes álcool para euforia
cigarros para extravasar,
solidão,
ter acabado de gastar energia em algo estúpido
vontades de lembrar sabores à vida
deixar insone ligado a algum aparato de escrever mentiras até esgotar.
reescrituras a gosto.
amaria escrever na velocidade do que falo, melhor, do que penso.
dane-se tudo aquilo que já disse sobre as canetas,
sobre as teclas do teclado e como expressar tudo-tudo passa pelos dedos com suas extensões de tinta;
aqueles devaneios tortos de que minhas palmas das mãos possuem a arte,
ah não,
tudo grandes mentiras;
queria mil-mais ah mil-mais-um ficar cantando minhas recitações,
ficar fazendo e desfazendo poesias com a Língua!
minha língua rainha da escrita faria a literatura veloz da fala
que em vez de tinta, jorraria saliva
em vez de manchas, beijos
dane-se tudo aquilo que já disse sobre as canetas,
sobre as teclas do teclado e como expressar tudo-tudo passa pelos dedos com suas extensões de tinta;
aqueles devaneios tortos de que minhas palmas das mãos possuem a arte,
ah não,
tudo grandes mentiras;
queria mil-mais ah mil-mais-um ficar cantando minhas recitações,
ficar fazendo e desfazendo poesias com a Língua!
minha língua rainha da escrita faria a literatura veloz da fala
que em vez de tinta, jorraria saliva
em vez de manchas, beijos
se inspiração é um nome bonito para as mais devassas orgias metafísicas
os princípios categóricos e toda a patota de semi-deuses lógicos põem-se a tomar tantos porres e se entre-cruzar uns cos outros, resultando em ressacas de, no dia seguinte, ninguém mais saber quem era dono de quê, quem cometera o quê, para horror dos proprietários e suas grandes listas de nomes; além de os beberrões pôrem-se a abrir os armários mais velhos e lacrados, revirar todas as montanhas de lixo do quarto; bom de festa que muda os casais e as rixas, multiplicando e reciclando as possibilidades de fofoca.
talvez aquilo que irrita tanto a possibilidade de entender o que se passa aqui, agora,
seja de que muito penso nas canetas;
canetas as grandes máquinas de poesia da vida moderna,
e elas querem ficar tontas no papel, deixando rastros quaisquer em seu passo embriagado,
e todos os leitores não sejam mais do que isso: ficam apreciando os resíduos de uma grande bebedeira.
imagino tão fácil, as canetas voltando de suas noitadas e encontrando a manada de corvos a medir e calcular suas letras borbotoadas pelo caminho; e ela urgindo: não não, deixem disso! vamos beber; ora se derramei bebida por todo lado, então deve ter o suficiente pra continuar a festa nalgum canto destes, e beberemos essas gotas felizes!
seja de que muito penso nas canetas;
canetas as grandes máquinas de poesia da vida moderna,
e elas querem ficar tontas no papel, deixando rastros quaisquer em seu passo embriagado,
e todos os leitores não sejam mais do que isso: ficam apreciando os resíduos de uma grande bebedeira.
imagino tão fácil, as canetas voltando de suas noitadas e encontrando a manada de corvos a medir e calcular suas letras borbotoadas pelo caminho; e ela urgindo: não não, deixem disso! vamos beber; ora se derramei bebida por todo lado, então deve ter o suficiente pra continuar a festa nalgum canto destes, e beberemos essas gotas felizes!
se ler é gritar
um grande título, não?
ora tão poderoso, apontando uma digressão curiosa, pedindo mistérios;
leva-nos a expectativas de um quê de escalas algo requintadas..
pois bem, vou contar o grande segredo: este título impediu seu texto de sair.
melhor, este título matou seu texto. sim! que é perigoso dar títulos;
em verdade, é muito perigoso dar mesmo nomes às coisas.
desde há muito venho percebendo uma característica profunda, sutil,
que passa pelas entranhas do denominar, em todas as suas pompas cognitivas;
oh! isto se chamará Y, ah! aquilo outro agora será X;
e os belos dicionários tão bem encadernados, capas de couro, e páginas finas de qualidade, com fontes bonitas, cheiros agradáveis;
que mal sabem tolos: dicionários são muito instrumentos diabólicos de uma vontade de sabe-se o quê,
longas listas de nomes, meus caros! não percebem?
se quando proclama o léxico: tal objeto se caracteriza por tais e tais atributos, move-se de tal forma, tem tais cores;
muito diz: tal objeto cometeu tais e tais crimes! tal objeto deve portar-se assim; se encontrarem-no doutras formas destruam-no! prendam-no! tal objeto não deve jamais sair dali!
ah! nomes ferramentas da não-liberdade!
títulos que aprisionam as palavras nelas mesmas, não, não,
prefirível nem dizer então.
jamais dar títulos - uma postura válida;
se todos os títulos mentirosos, tentando roubar a si suas glórias e reinar na página;
daí aliená-los, pô-los sem conexão com os súditos, torná-los algo como texto à parte mas paralelo, brincar com as mil possibilidades de suas relações políticas, recusando a mania monárquica que lhes vem tão naturalmente.
ora tão poderoso, apontando uma digressão curiosa, pedindo mistérios;
leva-nos a expectativas de um quê de escalas algo requintadas..
pois bem, vou contar o grande segredo: este título impediu seu texto de sair.
melhor, este título matou seu texto. sim! que é perigoso dar títulos;
em verdade, é muito perigoso dar mesmo nomes às coisas.
desde há muito venho percebendo uma característica profunda, sutil,
que passa pelas entranhas do denominar, em todas as suas pompas cognitivas;
oh! isto se chamará Y, ah! aquilo outro agora será X;
e os belos dicionários tão bem encadernados, capas de couro, e páginas finas de qualidade, com fontes bonitas, cheiros agradáveis;
que mal sabem tolos: dicionários são muito instrumentos diabólicos de uma vontade de sabe-se o quê,
longas listas de nomes, meus caros! não percebem?
se quando proclama o léxico: tal objeto se caracteriza por tais e tais atributos, move-se de tal forma, tem tais cores;
muito diz: tal objeto cometeu tais e tais crimes! tal objeto deve portar-se assim; se encontrarem-no doutras formas destruam-no! prendam-no! tal objeto não deve jamais sair dali!
ah! nomes ferramentas da não-liberdade!
títulos que aprisionam as palavras nelas mesmas, não, não,
prefirível nem dizer então.
jamais dar títulos - uma postura válida;
se todos os títulos mentirosos, tentando roubar a si suas glórias e reinar na página;
daí aliená-los, pô-los sem conexão com os súditos, torná-los algo como texto à parte mas paralelo, brincar com as mil possibilidades de suas relações políticas, recusando a mania monárquica que lhes vem tão naturalmente.
se ler é gritar
se ler é gritar
é estranho então sabermos que
veja bem: quando abrimos um livro - melhor, quando nos pomos a decifrar as primeiríssimas letras d’umas frases quaisquer -
ali naquelas cabeças profundas que temos
desde cedo plantaram, na balbúrdia dos anos infantes,
meia dúzia de léxicos e dicionários,
e que regados a sintaxes novas aprendemos o instrumental hábil a tornar-se consciente
- este somos nós,
o eu-floresta resultado da progressiva evolução daquela mata selvagem de palavras:
pois bem, então quando nos pomos a engolir uma literatura,
essa expressão é na verdade muito errada,
pois que o que acontece mesmo é o eu interno abrir sua imensíssima biblioteca virtual de todos os livros possíveis (que foi construída num quartinho chamado “abstração”) e ir procurar no índice geral (que tem na sua capa grossa de couro escrito “pensamento”) aquilo que corresponde às palavras vistas pelos olhos-nariz-boca-orelhas;
e então conforme na leitura vai publicando e imprimindo páginas soltas daquela peça,
e o que se lhe resta é um agregado de fascículos não de modo algum perfeitamente idênticos ao que foi lido,
porque a bagunça-vida da mente está constantemente assediada por ventos e tempestades,
mesmo porque também o ar quente às vezes carregado põe-se a decompor páginas,
e perdem-se muitas coisas; o que fica deve ter brotado fundo,
porque no entre-ouvidos em festa sempre a ser assediado por trovões e bebedeiras de pensamentos narcóticos do dia-a-dia, as obras se perdem.
que palavras são o chão e as estruturas de pensamento as árvores e o dia-a-dia se nos dá água (ou não, e talvez mate as plantas)
[já estou retomando aquela divagação daquele ‘tangente’, mas e daí]
[gostava mais enveredar pelas noções da biblioteca de tudo, de shakespeare, de borges]
é estranho então sabermos que
veja bem: quando abrimos um livro - melhor, quando nos pomos a decifrar as primeiríssimas letras d’umas frases quaisquer -
ali naquelas cabeças profundas que temos
desde cedo plantaram, na balbúrdia dos anos infantes,
meia dúzia de léxicos e dicionários,
e que regados a sintaxes novas aprendemos o instrumental hábil a tornar-se consciente
- este somos nós,
o eu-floresta resultado da progressiva evolução daquela mata selvagem de palavras:
pois bem, então quando nos pomos a engolir uma literatura,
essa expressão é na verdade muito errada,
pois que o que acontece mesmo é o eu interno abrir sua imensíssima biblioteca virtual de todos os livros possíveis (que foi construída num quartinho chamado “abstração”) e ir procurar no índice geral (que tem na sua capa grossa de couro escrito “pensamento”) aquilo que corresponde às palavras vistas pelos olhos-nariz-boca-orelhas;
e então conforme na leitura vai publicando e imprimindo páginas soltas daquela peça,
e o que se lhe resta é um agregado de fascículos não de modo algum perfeitamente idênticos ao que foi lido,
porque a bagunça-vida da mente está constantemente assediada por ventos e tempestades,
mesmo porque também o ar quente às vezes carregado põe-se a decompor páginas,
e perdem-se muitas coisas; o que fica deve ter brotado fundo,
porque no entre-ouvidos em festa sempre a ser assediado por trovões e bebedeiras de pensamentos narcóticos do dia-a-dia, as obras se perdem.
que palavras são o chão e as estruturas de pensamento as árvores e o dia-a-dia se nos dá água (ou não, e talvez mate as plantas)
[já estou retomando aquela divagação daquele ‘tangente’, mas e daí]
[gostava mais enveredar pelas noções da biblioteca de tudo, de shakespeare, de borges]
das artes boas que sejam simples estruturas de ritmo,
e início em suas velocidades calmas, fáceis,
a recolher os mínimos pingos de alma espalhados pela preguiça,
atrair atenção mesmo das mais velhas e duras;
e pô-las todas no trem:
o início um capitão que manda todos entrarem e prestarem culto,
prepararem-se com cintos de segurança (e sem saídas de emergência) para a viagem que então começa;
a metáfora muito feliz da locomotiva saindo da estação (cafécompãocafécompão)
em sua batida rítmica acelerativa (mas inda um tanto caótica)
em seu martelar que lembra tanto o pulsar das metralhadoras e das máquinas de escrever.
ENTREM TODOS! e arte então um impulso avassalador,
daquelas avalanches monstruosas que se nos fazem pôr-nos a correr,
em pânico,
em prazer,
em sem-sentimentos - pura velocidade.
e início em suas velocidades calmas, fáceis,
a recolher os mínimos pingos de alma espalhados pela preguiça,
atrair atenção mesmo das mais velhas e duras;
e pô-las todas no trem:
o início um capitão que manda todos entrarem e prestarem culto,
prepararem-se com cintos de segurança (e sem saídas de emergência) para a viagem que então começa;
a metáfora muito feliz da locomotiva saindo da estação (cafécompãocafécompão)
em sua batida rítmica acelerativa (mas inda um tanto caótica)
em seu martelar que lembra tanto o pulsar das metralhadoras e das máquinas de escrever.
ENTREM TODOS! e arte então um impulso avassalador,
daquelas avalanches monstruosas que se nos fazem pôr-nos a correr,
em pânico,
em prazer,
em sem-sentimentos - pura velocidade.
fragmento ilegível qualquer
[... como achar-te - eis a questão!
(quando se sabe que 'eis' em grego é a direção)
ser ou não ser para a questão; um ser-para-questão ou não.
embaralhamento de palavras enquanto tudo que gosto é transbordar termos em folhas gordas para me divertir dançando com os dedos no teclado! porque só há duas apreciações possíveis da música, que dançar (ai a dança é das melhores) e que escrever; ah escrever por simples balanço de dedos numas teclas quaisquer, conectar imagens como quem tem cola-tudo e quer criar daqueles móbiles enooormes que flutuam acima dos pensamentos dos bebês em seus berços quando tentam dormir cobertos pelos seus édipos mal-formados.
[...]
pausa para gesticular horrivelmente, porque simples martelar pensamentos não abarca a necessidade de coração acelerado que se me toma nestas notas lindas de aceleração.
a storm is coming ...]
(quando se sabe que 'eis' em grego é a direção)
ser ou não ser para a questão; um ser-para-questão ou não.
embaralhamento de palavras enquanto tudo que gosto é transbordar termos em folhas gordas para me divertir dançando com os dedos no teclado! porque só há duas apreciações possíveis da música, que dançar (ai a dança é das melhores) e que escrever; ah escrever por simples balanço de dedos numas teclas quaisquer, conectar imagens como quem tem cola-tudo e quer criar daqueles móbiles enooormes que flutuam acima dos pensamentos dos bebês em seus berços quando tentam dormir cobertos pelos seus édipos mal-formados.
[...]
pausa para gesticular horrivelmente, porque simples martelar pensamentos não abarca a necessidade de coração acelerado que se me toma nestas notas lindas de aceleração.
a storm is coming ...]
ah mundo!
todos sabem o único meio de gastar vida é buscar aquela menina-fada,
ah, inspiração! onde andas querida?
alimenta minha barriga ávida por sentir-se plena de idéias,
que me adianta liberdades se não te possuo, se não te amo;
oh, que tudo faço em busca de ti, e é verdade,
mas se não sei quem és, ai de mim! quem és?
que és e como achar-te - eis a questão!
me perguntam por que desperdiço tempo revirando latas de lixo,
errando pelas ruas, me desmentindo;
mas se inda nem sei como não desperdiçá-lo!
todos sabem o único meio de gastar vida é buscar aquela menina-fada,
ah, inspiração! onde andas querida?
alimenta minha barriga ávida por sentir-se plena de idéias,
que me adianta liberdades se não te possuo, se não te amo;
oh, que tudo faço em busca de ti, e é verdade,
mas se não sei quem és, ai de mim! quem és?
que és e como achar-te - eis a questão!
me perguntam por que desperdiço tempo revirando latas de lixo,
errando pelas ruas, me desmentindo;
mas se inda nem sei como não desperdiçá-lo!
eu gostava de dizer 'se eu fosse poema' em vez de poeta;
minhas idéias daqueles seres mágicos que todos devíamos tentar-ser em nossas mentiras que mudam o mundo; que um dia chamados elfos em seu flanar pelas ruas anárquico; ora talvez muito a ver com as mulheres que exclamam:
"mas então se eu fosse música"
que a arte das musicistas consiste muito também nelas mesmas,
ah bonitas! ah inspiram!
'ler henry miller' literalmente, que em sua pele viva estão tatuadas letras de invenção; a idéia 'henry miller' também um objeto artístico; ah apreciável! ah inspira! havia uma arte bem gostosa (tão denunciada) naquele tal Dali, o performático.
então arte, aquele vírus que infecta os leitores obrigando-os a produzir também
"mas então se eu fosse música"
que a arte das musicistas consiste muito também nelas mesmas,
ah bonitas! ah inspiram!
'ler henry miller' literalmente, que em sua pele viva estão tatuadas letras de invenção; a idéia 'henry miller' também um objeto artístico; ah apreciável! ah inspira! havia uma arte bem gostosa (tão denunciada) naquele tal Dali, o performático.
então arte, aquele vírus que infecta os leitores obrigando-os a produzir também
rio, do verbo rir, do verbo ir
vontade de ser a grande maré que virá.
ser força irresistível que se vem nos inclinando,
devagarinho, devagarzinho,
para um mesmo eixo;
Ser-se grande Linha reta,
uma vida inteira simples traço, linha da vida
ver a si um fio negro unidimensional;
o grande canteiro de obras de uma ponte, de uma auto-estrada;
Outro dia abri o jornal e tinha uma dessas construções enormes,
daquelas avenidas lançadas ainda ao lugar-nenhum,
que se pegasse um carro, uma bicicleta,
ou simples saísse-me correndo feito barata,
e mirasse-me à frente, acelerar, acelerar, acelerar!
lançar-me-ia no vazio,
em meio ao espaço indefinido,
e minhas lágrimas, meus cabelos e meu cadáver
ser-se-iam em fundações para a próxima pilastra,
a próxima distância percorrida pela via,
o grande caminho,
a grande avenida humana, em vários sentidos.
quão bom não deve ser um rio enorme,
ser o amazonas extremamente gordo,
de uma risada de baleia azul, a maior de todas
que ao rir engole mil-e-uma almas minúsculas (e nem perceber que vive disso).
ser um fluxo caudaloso que atraia todos os outros a si;
que quando faz tempo de chuva de crianças novas,
todas essas gotas de sangue escarra-escorrem até as vias fluviais, artérias,
arrastando tudo em seu caminho em belas esculturas da erosão,
circulando a vida do mundo e pondo-a a gerar barulho; mas faltam rios!
quanto não deve fazer cosquinha engolir um milhão de pessoinhas,
fazer delas minha grande máquina de engolir as outras;
tanto melhor que haja esses monstros marinhos,
Leviatãs
(todas imagens que sempre nos remetem à água, seu poder de fusão e de torrente);
Muito melhor navegar o mundo em grandes naus bárbaras de conquista,
deixar os lençóis freáticos da cama para trás, e tempestear o mundo;
inaugurar a grande avenida revolucionária de vida!
que água parada trepa com mosquitos, pare mil sanguessugas irritantes;
prefiro deixá-la enlouquecida sem esse sexo de podridão,
atirá-la das montanhas altas para que coma ar e passe a parir som!
ah, grande ser-se em rio! e dar risadas que comam os outros -
onde estás?
grande eu-rio, ser de fluxo e de canibalismo;
eu-rio! onde estás? onde acabas?
eu-riodejaneiro! mês inteiro de risadas de baleia,
rio dos meses, Rio dos tempos; ah, grande eu-Rio do tempo!
inescapável prisão!
ser força irresistível que se vem nos inclinando,
devagarinho, devagarzinho,
para um mesmo eixo;
Ser-se grande Linha reta,
uma vida inteira simples traço, linha da vida
ver a si um fio negro unidimensional;
o grande canteiro de obras de uma ponte, de uma auto-estrada;
Outro dia abri o jornal e tinha uma dessas construções enormes,
daquelas avenidas lançadas ainda ao lugar-nenhum,
que se pegasse um carro, uma bicicleta,
ou simples saísse-me correndo feito barata,
e mirasse-me à frente, acelerar, acelerar, acelerar!
lançar-me-ia no vazio,
em meio ao espaço indefinido,
e minhas lágrimas, meus cabelos e meu cadáver
ser-se-iam em fundações para a próxima pilastra,
a próxima distância percorrida pela via,
o grande caminho,
a grande avenida humana, em vários sentidos.
quão bom não deve ser um rio enorme,
ser o amazonas extremamente gordo,
de uma risada de baleia azul, a maior de todas
que ao rir engole mil-e-uma almas minúsculas (e nem perceber que vive disso).
ser um fluxo caudaloso que atraia todos os outros a si;
que quando faz tempo de chuva de crianças novas,
todas essas gotas de sangue escarra-escorrem até as vias fluviais, artérias,
arrastando tudo em seu caminho em belas esculturas da erosão,
circulando a vida do mundo e pondo-a a gerar barulho; mas faltam rios!
quanto não deve fazer cosquinha engolir um milhão de pessoinhas,
fazer delas minha grande máquina de engolir as outras;
tanto melhor que haja esses monstros marinhos,
Leviatãs
(todas imagens que sempre nos remetem à água, seu poder de fusão e de torrente);
Muito melhor navegar o mundo em grandes naus bárbaras de conquista,
deixar os lençóis freáticos da cama para trás, e tempestear o mundo;
inaugurar a grande avenida revolucionária de vida!
que água parada trepa com mosquitos, pare mil sanguessugas irritantes;
prefiro deixá-la enlouquecida sem esse sexo de podridão,
atirá-la das montanhas altas para que coma ar e passe a parir som!
ah, grande ser-se em rio! e dar risadas que comam os outros -
onde estás?
grande eu-rio, ser de fluxo e de canibalismo;
eu-rio! onde estás? onde acabas?
eu-riodejaneiro! mês inteiro de risadas de baleia,
rio dos meses, Rio dos tempos; ah, grande eu-Rio do tempo!
inescapável prisão!
Ix
outro dia estava pensando naquele filósofo (que foi tão influente em tudo):
seu nome era Ix.
muitos me diziam suas idéias belas e poderosas,
suas palavras mais verdadeiríssimas inusitadas, doces e mágicas, azul-arroxeadas,
que tudo dito jamais feito antes; era gênio, oh! arauto de novos tempos, sombra precedendo avalanches, dir-se-ia avant-garde!
e deixá-lo de lado só os mais velhos conservadores fariam,
e bla e bla-bla e blá.
e sendo eu um bom menino,
atento a fingir-me burguês e interessado em mudar o mundo,
localizei-o, e fui ouvi-lo falar.
estávamos então num seminário,
numa pequena cidade francesa, quem sabe
e várias personalidades disputavam o prestígio de derrotar seus adversários.
na época, estas eram ocasiões em que se forjavam correntes de pensamento,
venciam-se uns aos outros os intelectuais,
arena para assistirmos com pipoca os leões se atracando,
e podíamos pular lá dentro com eles.
tanto mais importante ouvir o tal demônio da moda:
presenciar feitos históricos,
dos quais leríamos depois nas antologias de textos canônicos,
e sorriríamos discordando e lançando a esmo aos alunos:
"ora, não foi bem assim;
lembro na época, ix pegara um resfriado..."
e por uma torrente de futilidades sem relação daríamos mais realidade àquele momento incompreensível, enquanto nele atrelávamos nossos nomes e corpos, de modo a partilhar de sua glória ante o mundo, tomando-nos por embaixadores daquela pequena data dita crucial, de que todos gostariam de ter tomado parte.
então estava eu sentado numa das fileiras mais ao fundo no anfiteatro,
e os grandes mestres sentados em suas poltronas preparavam-se para a luta,
que aí um dos mais aclamados vira-se ao nosso Ix e lança-lhe uma pergunta dificílima sobre um dos mais requintados artistas contemporâneos, tocam as três campainhas, apagam-se as luzes, e a Personalidade põe-se a falar.
é curioso, deste momento a diante só lembro lapsos de imagens,
acordava de vez em quando com os roncos dos vizinhos,
ou quando numa passagem bem divertida o técnico de som derrubou tudo;
sei que meu relógio estava quebrado, mas mesmo o som dos celulares apitando, ou quaisquer outras interferências bem-vindas não conseguiam afastar o torpor enorme que se nos apossara:
a voz de Ix;
um timbre,
uma maneira de concatenar frases,
um requinte especial de escolher seus ângulos de abordagem,
os exemplos que dava;
seus gestos na mesa;
suas pausas;
Não conheço viva alma que tenha conseguido ouvir por completo suas refutações revolucionárias.
sei que acreditei ter ouvido demasiado o suficiente,
e pus-me a citar Ix como exemplo a todos,
tomei parte em seu culto.
suas teses eram tão impossíveis quanto, e jamais as li.
conhecido meu, uma vez, deu-se à cachorra de trabalhar um pequeno ensaio da escola Ixista,
perdeu nisto boa parte de três anos,
sei que teve de interromper sua busca por falta de fundos,
por não conseguir nunca entender o maior pensador de todos,
por ser inábil.
eu mesmo dei vários cursos sobre Ix,
atribuía a ele as idéias que se me ocorriam as mais interessantes (jamais fui contestado),
e muito em breve os alunos me pediam a indicar leituras "legíveis",
e lhes escrevi livros de introdução ao Ixismo,
e criei minha corrente de interpretação ixista; não fui o único.
os congressos ixistas sempre foram extremamente incendiários,
e sempre os debates acalorados a qualquer tema de predileção ixista findavam a balançar as bases da vida mundana, e punham-se a ser vangloriados em todos os fóruns, e inspiravam movimentos e passeatas, e neles surgiam as lideranças do futuro.
quanto a Ix, o pobre tornou-se ídolo da geração;
não sei bem o que lhe aconteceu,
suas opiniões só me chegavam pela boca de outros;
então morreu recentemente, não sei bem se era velho;
em seu funeral acudiram milhares de fãs,
e dali marcamos o compromisso de nunca perdê-lo na memória, o grande mártir.
às vezes tenho impressão de a grande potência de Ix estar em sua maravilhosa manobra lógica, absolutamente indefensável: o sono.
seu nome era Ix.
muitos me diziam suas idéias belas e poderosas,
suas palavras mais verdadeiríssimas inusitadas, doces e mágicas, azul-arroxeadas,
que tudo dito jamais feito antes; era gênio, oh! arauto de novos tempos, sombra precedendo avalanches, dir-se-ia avant-garde!
e deixá-lo de lado só os mais velhos conservadores fariam,
e bla e bla-bla e blá.
e sendo eu um bom menino,
atento a fingir-me burguês e interessado em mudar o mundo,
localizei-o, e fui ouvi-lo falar.
estávamos então num seminário,
numa pequena cidade francesa, quem sabe
e várias personalidades disputavam o prestígio de derrotar seus adversários.
na época, estas eram ocasiões em que se forjavam correntes de pensamento,
venciam-se uns aos outros os intelectuais,
arena para assistirmos com pipoca os leões se atracando,
e podíamos pular lá dentro com eles.
tanto mais importante ouvir o tal demônio da moda:
presenciar feitos históricos,
dos quais leríamos depois nas antologias de textos canônicos,
e sorriríamos discordando e lançando a esmo aos alunos:
"ora, não foi bem assim;
lembro na época, ix pegara um resfriado..."
e por uma torrente de futilidades sem relação daríamos mais realidade àquele momento incompreensível, enquanto nele atrelávamos nossos nomes e corpos, de modo a partilhar de sua glória ante o mundo, tomando-nos por embaixadores daquela pequena data dita crucial, de que todos gostariam de ter tomado parte.
então estava eu sentado numa das fileiras mais ao fundo no anfiteatro,
e os grandes mestres sentados em suas poltronas preparavam-se para a luta,
que aí um dos mais aclamados vira-se ao nosso Ix e lança-lhe uma pergunta dificílima sobre um dos mais requintados artistas contemporâneos, tocam as três campainhas, apagam-se as luzes, e a Personalidade põe-se a falar.
é curioso, deste momento a diante só lembro lapsos de imagens,
acordava de vez em quando com os roncos dos vizinhos,
ou quando numa passagem bem divertida o técnico de som derrubou tudo;
sei que meu relógio estava quebrado, mas mesmo o som dos celulares apitando, ou quaisquer outras interferências bem-vindas não conseguiam afastar o torpor enorme que se nos apossara:
a voz de Ix;
um timbre,
uma maneira de concatenar frases,
um requinte especial de escolher seus ângulos de abordagem,
os exemplos que dava;
seus gestos na mesa;
suas pausas;
Não conheço viva alma que tenha conseguido ouvir por completo suas refutações revolucionárias.
sei que acreditei ter ouvido demasiado o suficiente,
e pus-me a citar Ix como exemplo a todos,
tomei parte em seu culto.
suas teses eram tão impossíveis quanto, e jamais as li.
conhecido meu, uma vez, deu-se à cachorra de trabalhar um pequeno ensaio da escola Ixista,
perdeu nisto boa parte de três anos,
sei que teve de interromper sua busca por falta de fundos,
por não conseguir nunca entender o maior pensador de todos,
por ser inábil.
eu mesmo dei vários cursos sobre Ix,
atribuía a ele as idéias que se me ocorriam as mais interessantes (jamais fui contestado),
e muito em breve os alunos me pediam a indicar leituras "legíveis",
e lhes escrevi livros de introdução ao Ixismo,
e criei minha corrente de interpretação ixista; não fui o único.
os congressos ixistas sempre foram extremamente incendiários,
e sempre os debates acalorados a qualquer tema de predileção ixista findavam a balançar as bases da vida mundana, e punham-se a ser vangloriados em todos os fóruns, e inspiravam movimentos e passeatas, e neles surgiam as lideranças do futuro.
quanto a Ix, o pobre tornou-se ídolo da geração;
não sei bem o que lhe aconteceu,
suas opiniões só me chegavam pela boca de outros;
então morreu recentemente, não sei bem se era velho;
em seu funeral acudiram milhares de fãs,
e dali marcamos o compromisso de nunca perdê-lo na memória, o grande mártir.
às vezes tenho impressão de a grande potência de Ix estar em sua maravilhosa manobra lógica, absolutamente indefensável: o sono.
quem é o poeta louco?
o poeta revolucionário, poeta-elfo;
aquele cujo poder de fascinação é sem limites,
e ele sai a hipnotizar todos com suas palavras macias,
e todos querem sê-lo; e também os netos destes,
pois que o que nele encanta é a evidência de sua revolução?
quem é? ou quem seria - preciso saber,
porque quero ler este poeta!
sabe-se facilmente que a escrita abarca essa potência encantadora;
é lógico! é natural!
por que então não nos é dado imediatamente essas palavras fortes,
que nos farão saltar os cabelos:
a alta poesia dos que nos dão choques ao coração;
que nos faça viver! que nos faça viver!
queremos a poesia elétrica!
lênin disse: o comunismo é sovietes mais eletricidade
para fazer a revolução em nossos hábitos mortos,
esfregar essas camadas cinzas de fuligem acumulada no dia-a-dia,
e esquecer todos os minutos soníferos da vida,
precisamos abandonar as vidas velhas!
as vidas-mesmas!
as vidas-vidas, vidinhas;
ah,
precisamos de poetas que lancem seus poemas como granadas,
e todos gritem de felicidade com a explosão colorida que dali sai.
não! que somos jovens,
queremos festa,
e dane-se a hipocrisia dos que pensam muito, até sufocar.
façamos arte! (esteja lá onde estiver)
façamos irrealidades, pintemos o mundo;
não, não fiquemos loroteando a poesia dos que gostam de lambuzar o comum com temperos doces e agradáveis,
- odeio todos que se dizem poetas por dar nomes belos às mesmas coisas;
daremos nomes mesmos às outras coisas!
faremos poesia no embrulho dos fogos de artifício,
e choveremos fogo no céu estrelado,
desenhando constelações outras - para desespero dos astrólogos!
onde estão os poetas que quando lemos, saltamos da cadeira, em susto,
os poetas que começam seus poemas com um alfinete nas bundas,
e que os leitores gordos levantam-se e põem-se a pular de gemidos!
os poetas que leremos abrindo outra garrafa de vinho!
os poetas que recitaremos quando jogados na sarjeta,
e ficamos estirados sorrindo,
e nada existe no Tempo, e tudo é invenção.
o poeta revolucionário, poeta-elfo;
aquele cujo poder de fascinação é sem limites,
e ele sai a hipnotizar todos com suas palavras macias,
e todos querem sê-lo; e também os netos destes,
pois que o que nele encanta é a evidência de sua revolução?
quem é? ou quem seria - preciso saber,
porque quero ler este poeta!
sabe-se facilmente que a escrita abarca essa potência encantadora;
é lógico! é natural!
por que então não nos é dado imediatamente essas palavras fortes,
que nos farão saltar os cabelos:
a alta poesia dos que nos dão choques ao coração;
que nos faça viver! que nos faça viver!
queremos a poesia elétrica!
lênin disse: o comunismo é sovietes mais eletricidade
para fazer a revolução em nossos hábitos mortos,
esfregar essas camadas cinzas de fuligem acumulada no dia-a-dia,
e esquecer todos os minutos soníferos da vida,
precisamos abandonar as vidas velhas!
as vidas-mesmas!
as vidas-vidas, vidinhas;
ah,
precisamos de poetas que lancem seus poemas como granadas,
e todos gritem de felicidade com a explosão colorida que dali sai.
não! que somos jovens,
queremos festa,
e dane-se a hipocrisia dos que pensam muito, até sufocar.
façamos arte! (esteja lá onde estiver)
façamos irrealidades, pintemos o mundo;
não, não fiquemos loroteando a poesia dos que gostam de lambuzar o comum com temperos doces e agradáveis,
- odeio todos que se dizem poetas por dar nomes belos às mesmas coisas;
daremos nomes mesmos às outras coisas!
faremos poesia no embrulho dos fogos de artifício,
e choveremos fogo no céu estrelado,
desenhando constelações outras - para desespero dos astrólogos!
onde estão os poetas que quando lemos, saltamos da cadeira, em susto,
os poetas que começam seus poemas com um alfinete nas bundas,
e que os leitores gordos levantam-se e põem-se a pular de gemidos!
os poetas que leremos abrindo outra garrafa de vinho!
os poetas que recitaremos quando jogados na sarjeta,
e ficamos estirados sorrindo,
e nada existe no Tempo, e tudo é invenção.
e baudelaire um dia falou
aos altos brados em seu bordéu safado
com seu sotaque francês imperialista:
"il faut être toujours ivre!"
senhor charles
devo declarar-te
uma feita que m'atormenta as noites de boemia:
estamos sempre bêbados!
nous sommes déjà toujours ivres!
miller estava certo, do topo de seu moinho moedor de garrafas de cachaça.
ficar bêbado com água é mais barato, seu francês metido a capitalista
aos altos brados em seu bordéu safado
com seu sotaque francês imperialista:
"il faut être toujours ivre!"
senhor charles
devo declarar-te
uma feita que m'atormenta as noites de boemia:
estamos sempre bêbados!
nous sommes déjà toujours ivres!
miller estava certo, do topo de seu moinho moedor de garrafas de cachaça.
ficar bêbado com água é mais barato, seu francês metido a capitalista
pelo potlatch revolucionário na escrita
bataille,
o homem com nome de guerra,
me avisou um dia, num bar, em que eu bebia:
"cale essa boca seu garoto maldito e estúpido!"
ao mesmo tempo em que enfiava uma faca em minha coxa,
e me puxava os cabelos até a lata de lixo mais próxima.
este aviso profundíssimo,
demorei anos a compreender.
bem,
que recentemente,
em meus passeios mancos pelo mundo,
descobri talvez uma hipótese interpretativa,
que enaltece o gênio do mais-sábio-de-todos
e justifica esse seu comportamento agradável,
como de um mestre que me provocou gordos ensinamentos
e aí vai ela:
"
viva dizer não ao escrever para acumular trocentas obras !
não aos que provocarem a avalanche bibliotecária,
das estantes gigantes com o mesmo nome em cada página;
que afogam os pesadelos ,
e deixam tranqüilo às noites,
impedindo os magníficos choros debaixo do lençol,
quando, enrodilhados, trincamos os dentes inconscientes!
não!
viva a escrita que se faz arquitetura de aviões de papel!
atirar bolas de literatura na cara dos transeuntes,
irritar-lhes os olhos com o vapor de tinta fervente:
guerra de letras!
escrita de gastar,
para construir uma montanha de livros - e queimá-los numa orgia descritiva!
escrever nas paredes!
escrever na areia da beira-mar - vou escrever a recherche inteira enquanto procuro tatuís!
escrita de pegadas a serem levadas pelo tempo;
e que se danem essas imortalidades acumulativas,
porque com mais de trinta segundos de tinta secando elas já são palavras velhas e conservadoras, inimigas da vida saltitante e irritante das canetas ágeis!
e dane-se o escrituramento-sustentável!
um nada de produção!
seremos inúteis - e abaixo o conceito de utilidade dos economistas tolos!
ah, e quando velhos,
com mil anos nos olhos,
olharemos para trás e veremos um enorme incêndio.
uma vida que seja um incêndio de páginas!
alguns querem olhar para trás e ver um tapete de folhas de papel, e enxergar o mundo em termos de papel, e adorar o papel-deus, que lhes permeia os olhos tornando o mundo inteiro texto; ah!
enquanto aquilo que nos dá fogo aos olhos,
e eu garanto, dá fogo às próprias idéias que nos conectam imagens mentais em seu samba literário;
é o incêndio!
escrita-incêndio!
a escola literária baseada na fumaça!
dos grandes escritores viciados em cigarros,
que só se sentem felizes fumando seus livros densos,
e em vez de tabaco fumaremos letras,
e seremos um bando de infinitos,
atirados a esmo pela superfície do globo,
enquanto este se auto-afunda,
numa grande desescrita miraculosa que fundará a nova bíblia e a nova era de desinvenção."
o homem com nome de guerra,
me avisou um dia, num bar, em que eu bebia:
"cale essa boca seu garoto maldito e estúpido!"
ao mesmo tempo em que enfiava uma faca em minha coxa,
e me puxava os cabelos até a lata de lixo mais próxima.
este aviso profundíssimo,
demorei anos a compreender.
bem,
que recentemente,
em meus passeios mancos pelo mundo,
descobri talvez uma hipótese interpretativa,
que enaltece o gênio do mais-sábio-de-todos
e justifica esse seu comportamento agradável,
como de um mestre que me provocou gordos ensinamentos
e aí vai ela:
"
viva dizer não ao escrever para acumular trocentas obras !
não aos que provocarem a avalanche bibliotecária,
das estantes gigantes com o mesmo nome em cada página;
que afogam os pesadelos ,
e deixam tranqüilo às noites,
impedindo os magníficos choros debaixo do lençol,
quando, enrodilhados, trincamos os dentes inconscientes!
não!
viva a escrita que se faz arquitetura de aviões de papel!
atirar bolas de literatura na cara dos transeuntes,
irritar-lhes os olhos com o vapor de tinta fervente:
guerra de letras!
escrita de gastar,
para construir uma montanha de livros - e queimá-los numa orgia descritiva!
escrever nas paredes!
escrever na areia da beira-mar - vou escrever a recherche inteira enquanto procuro tatuís!
escrita de pegadas a serem levadas pelo tempo;
e que se danem essas imortalidades acumulativas,
porque com mais de trinta segundos de tinta secando elas já são palavras velhas e conservadoras, inimigas da vida saltitante e irritante das canetas ágeis!
e dane-se o escrituramento-sustentável!
um nada de produção!
seremos inúteis - e abaixo o conceito de utilidade dos economistas tolos!
ah, e quando velhos,
com mil anos nos olhos,
olharemos para trás e veremos um enorme incêndio.
uma vida que seja um incêndio de páginas!
alguns querem olhar para trás e ver um tapete de folhas de papel, e enxergar o mundo em termos de papel, e adorar o papel-deus, que lhes permeia os olhos tornando o mundo inteiro texto; ah!
enquanto aquilo que nos dá fogo aos olhos,
e eu garanto, dá fogo às próprias idéias que nos conectam imagens mentais em seu samba literário;
é o incêndio!
escrita-incêndio!
a escola literária baseada na fumaça!
dos grandes escritores viciados em cigarros,
que só se sentem felizes fumando seus livros densos,
e em vez de tabaco fumaremos letras,
e seremos um bando de infinitos,
atirados a esmo pela superfície do globo,
enquanto este se auto-afunda,
numa grande desescrita miraculosa que fundará a nova bíblia e a nova era de desinvenção."
alguns me perguntaram uma vez
como diabos os pássaros vivem,
como os animais agüentam esse mundo,
se "não têm tv", é o que quase dizem;
e bem que sei que poderiam bem se referir
ao fato de saberem os animais passarem todos os dias iguais,
perambulando pelo esmo-a-esmo do sempre igual,
étrangers, dir-se-ia !
dizendo-se monotonamente:
'bom-dia-como-vai '
'bom-dia-mamãe-morreu '
e afins.
eu rio.
(pobres animaizinhos que habitam os zôo-lógicos destas cabeças!)
mas que então, nessas ocasiões de muito supérfluas,
respondo bravamente, com uma cimitarra bárbara em riste
(para a qualquer momento responder aos seus trejeitos cortando-lhes a cabeça) :
meus caros colegas, e amigos e dançarinos ,
convido-lhes a dissecar de perto as belas orelhas dos lobos e das águias,
e agora ponham-nas em seus pensamentos,
e escorram areias do tempo e os ventos de mil-mares em suas mentes.
que música irão ouvir?
nunca perceberam,
que ao sair nas ruas gélidas,
sentem os ventos roçando-lhes as extremidades,
tentando dizer-lhes uns algos ?
(que talvez indecências e obscenidades, pois que os ventos são grandes servos do dionísio)
se tivéssemos as antenas capazes de captar-lhes as freqüências melodiosas,
ouviríamos aquela rádio poderosa do reino animal,
que passa a tocar em brados absurdos,
e em gritos de horrificar as mais belas esfinges egípcias,
a música-vida, da qual todas as que conhecemos são primas libidinosas,
e que reverbera nos ínfimos nervos e fios de cabelo,
entortecendo a alma, fazendo-lhe uma massagem enforcativa,
masoquismo de mais alto grau.
e daí não nos espantaríamos mais com a apatia animal frente a tudo que lhes ocorre na carne:
pois que estão em transe musical-dionisíaco,
batendo seus corações em ritmo (e como batem os corações dos passarinhos)
em suas velocidades loucas,
saem a pulular os céus em sinfonias dissonantes;
são grandes artistas,
surdos às nossas ordens regadas a docinho e cubo de açúcar,
procurando as correntes de ar mais coloridas, mais saborosas, mais musicais
voar é como tocar numa orquestra,
porque o vento é um instrumento subtilíssimo,
de que todos nossos aparelhos musicais tentam laboriar,
mas que com asas poderíamos fazer-lhe dizer as mais coisas!
as mais coisas!
as mais-coisas!
como diabos os pássaros vivem,
como os animais agüentam esse mundo,
se "não têm tv", é o que quase dizem;
e bem que sei que poderiam bem se referir
ao fato de saberem os animais passarem todos os dias iguais,
perambulando pelo esmo-a-esmo do sempre igual,
étrangers, dir-se-ia !
dizendo-se monotonamente:
'bom-dia-como-vai '
'bom-dia-mamãe-morreu '
e afins.
eu rio.
(pobres animaizinhos que habitam os zôo-lógicos destas cabeças!)
mas que então, nessas ocasiões de muito supérfluas,
respondo bravamente, com uma cimitarra bárbara em riste
(para a qualquer momento responder aos seus trejeitos cortando-lhes a cabeça) :
meus caros colegas, e amigos e dançarinos ,
convido-lhes a dissecar de perto as belas orelhas dos lobos e das águias,
e agora ponham-nas em seus pensamentos,
e escorram areias do tempo e os ventos de mil-mares em suas mentes.
que música irão ouvir?
nunca perceberam,
que ao sair nas ruas gélidas,
sentem os ventos roçando-lhes as extremidades,
tentando dizer-lhes uns algos ?
(que talvez indecências e obscenidades, pois que os ventos são grandes servos do dionísio)
se tivéssemos as antenas capazes de captar-lhes as freqüências melodiosas,
ouviríamos aquela rádio poderosa do reino animal,
que passa a tocar em brados absurdos,
e em gritos de horrificar as mais belas esfinges egípcias,
a música-vida, da qual todas as que conhecemos são primas libidinosas,
e que reverbera nos ínfimos nervos e fios de cabelo,
entortecendo a alma, fazendo-lhe uma massagem enforcativa,
masoquismo de mais alto grau.
e daí não nos espantaríamos mais com a apatia animal frente a tudo que lhes ocorre na carne:
pois que estão em transe musical-dionisíaco,
batendo seus corações em ritmo (e como batem os corações dos passarinhos)
em suas velocidades loucas,
saem a pulular os céus em sinfonias dissonantes;
são grandes artistas,
surdos às nossas ordens regadas a docinho e cubo de açúcar,
procurando as correntes de ar mais coloridas, mais saborosas, mais musicais
voar é como tocar numa orquestra,
porque o vento é um instrumento subtilíssimo,
de que todos nossos aparelhos musicais tentam laboriar,
mas que com asas poderíamos fazer-lhe dizer as mais coisas!
as mais coisas!
as mais-coisas!
as maiores potências filosóficas estão em meia-dúzia de balanços que se fazem nas palavras.
meia-dúzia de ovos a atirar nos velhos tarados empoeirados,
saindo de suas tocas-templos a caçar a juventude de gramáticas errantes,
de sintaxes errantes.
e que matem a filosofia dos velhos!
faremos um nada de dialética,
um nada de análises laboriosas infindáveis que só dão sono aos alunos bêbados;
deixemos aos computadores, com suas ágeis garras a invadir nossas mentes e tentar mecanicizar o pensamento
essas tarefas inglórias sem necessidade de nossos aparelhos de geração de inconstância,
nossa microfonia natural,
que pira o som constante dos bips e bip-lips das máquinas de comer idéias.
filosofia da grande caixa de som gigante,
que com seus urros graves,
estoira os vidros dos conceitos,
pondo mesmo a própria essência do pensamento - a balbúrdia!
a dançar (enquanto seus pulmões arrebentam)
meia-dúzia de ovos a atirar nos velhos tarados empoeirados,
saindo de suas tocas-templos a caçar a juventude de gramáticas errantes,
de sintaxes errantes.
e que matem a filosofia dos velhos!
faremos um nada de dialética,
um nada de análises laboriosas infindáveis que só dão sono aos alunos bêbados;
deixemos aos computadores, com suas ágeis garras a invadir nossas mentes e tentar mecanicizar o pensamento
essas tarefas inglórias sem necessidade de nossos aparelhos de geração de inconstância,
nossa microfonia natural,
que pira o som constante dos bips e bip-lips das máquinas de comer idéias.
filosofia da grande caixa de som gigante,
que com seus urros graves,
estoira os vidros dos conceitos,
pondo mesmo a própria essência do pensamento - a balbúrdia!
a dançar (enquanto seus pulmões arrebentam)
texto-jorro!
porque adoro hifenizar o texto
já que sempre me surjem significados novos
entortar as letras - talvez seja um dos poucos caminhos para fazê-las dizer o que não querem
torturá-las: no velho sentido dos inquisitores, de colocar palavras em suas bocas
e submeto-as a torturas e choques e afogamentos,
vou pegar alicates e dobrar suas extremidades
sim!
pois que não me importa
nas minhas crenças gostosas (bem açucaradas, com gosto de guloseimas de padaria)
basta passar repicando a mente
é a maravilha da caneta liquidificador
o papel triturador de alimentos
enxertando a mil-realidade nas suas arestas não-depiladas
- fazer nascer os monstros de escrita!
que já hoje podemos nos divertir atirando por terra esta bíblia de senso comum enojante
olá? a unificação das palavras só irrita os pequenos usuários
- minha língua não foi feita para seguir a constituição!
porque adoro hifenizar o texto
já que sempre me surjem significados novos
entortar as letras - talvez seja um dos poucos caminhos para fazê-las dizer o que não querem
torturá-las: no velho sentido dos inquisitores, de colocar palavras em suas bocas
e submeto-as a torturas e choques e afogamentos,
vou pegar alicates e dobrar suas extremidades
sim!
pois que não me importa
nas minhas crenças gostosas (bem açucaradas, com gosto de guloseimas de padaria)
basta passar repicando a mente
é a maravilha da caneta liquidificador
o papel triturador de alimentos
enxertando a mil-realidade nas suas arestas não-depiladas
- fazer nascer os monstros de escrita!
que já hoje podemos nos divertir atirando por terra esta bíblia de senso comum enojante
olá? a unificação das palavras só irrita os pequenos usuários
- minha língua não foi feita para seguir a constituição!
este será um compêndio de avulsismos.
odeio cadernos porque jamais consigo começá-los
as primeiras páginas marcam um tema amplo
um tema poderoso
e guardo as seguintes para sua proliferação incrível
que sei que virá.
sou desconexo.
não vou escrever letras atrás de letras.
minha escrita funciona por acelerações
ela necessita esquentar - mas que é um mundo muito frio.
quando em borbotoar palavras aos montes
sem muito desenrolismo mas um certo tecer de idéias numa grande tapeçaria,
que daí talvez surja aquele ritmo
uma velocidade que organize as engrenagens mentais de certa maneira
alinhando os planetas internos
o panteão de personagens-fadas mitológicos que regem a sucessão de idéias mentais
planetas-deuses que passam girando em suas órbitas elípticas!
somente a troca de tempos de algumas fases da vida
pode acelerar uns, frear outros,
aproximando-os,
a pôr suas gravidades em guerra,
desorbitando a realidade tosca
dando fim ao cosmos e ao sistema solar
adeus à astronomia!
odeio cadernos porque jamais consigo começá-los
as primeiras páginas marcam um tema amplo
um tema poderoso
e guardo as seguintes para sua proliferação incrível
que sei que virá.
sou desconexo.
não vou escrever letras atrás de letras.
minha escrita funciona por acelerações
ela necessita esquentar - mas que é um mundo muito frio.
quando em borbotoar palavras aos montes
sem muito desenrolismo mas um certo tecer de idéias numa grande tapeçaria,
que daí talvez surja aquele ritmo
uma velocidade que organize as engrenagens mentais de certa maneira
alinhando os planetas internos
o panteão de personagens-fadas mitológicos que regem a sucessão de idéias mentais
planetas-deuses que passam girando em suas órbitas elípticas!
com seus nomes magníficos de netuno, júpiter e plutão
seus mares seus raios seus infernos;
os eixos de idéias rodeando a galáxia ego
somente a troca de tempos de algumas fases da vida
pode acelerar uns, frear outros,
aproximando-os,
a pôr suas gravidades em guerra,
desorbitando a realidade tosca
dando fim ao cosmos e ao sistema solar
adeus à astronomia!
incrível como as angústias de um amor platônico são tão mais poderosas
elas jorravam sempre nos momentos de fraqueza
e acabavam em muitas literaturas e poesias belas.
ser triste, naqueles tempos, era bom;
é difícil buscar essa infelicidade oculta;
a velha idéia de estar sempre embriagado - com um anestesiante, do algo horrível
que estas seguranças propagadas a esmo pelos becos
fazem mais é enrolar em seus cobertores quentes
e obrigar a dormir.
(quantas magias as crianças não fariam se seus pais não as afogassem na cama depois das dez)
o vazio criativo: era o que se tinha
a mera distância ocupada nada gera.
é uma longa fita métrica que nos assegura e prende.
elas jorravam sempre nos momentos de fraqueza
e acabavam em muitas literaturas e poesias belas.
ser triste, naqueles tempos, era bom;
é difícil buscar essa infelicidade oculta;
a velha idéia de estar sempre embriagado - com um anestesiante, do algo horrível
que estas seguranças propagadas a esmo pelos becos
fazem mais é enrolar em seus cobertores quentes
e obrigar a dormir.
(quantas magias as crianças não fariam se seus pais não as afogassem na cama depois das dez)
o vazio criativo: era o que se tinha
a mera distância ocupada nada gera.
é uma longa fita métrica que nos assegura e prende.
texto-raiz (publicação póstuma em 21/09)
sim! eu me perco!
descrever é mergulhar em um mar líquido, um mar de líquidos labirínticos, feito de correntes duras como paredes, que guardam em seu fundo um minotauro.
quando eu sonho que vôo, eu nado. meu ar é feito de água, porque no sonho passo nadando.
se os gregos imaginavam seus deuses respirando éter, nadando em ar e andando em água;
eu respiro água, nado em pedra, ando em mim mesmo. sou uma planta!
sou pelo texto subterrâneo
texto-raiz, aprofundando em todas direções atrás de água
descrever é mergulhar em um mar líquido, um mar de líquidos labirínticos, feito de correntes duras como paredes, que guardam em seu fundo um minotauro.
quando eu sonho que vôo, eu nado. meu ar é feito de água, porque no sonho passo nadando.
se os gregos imaginavam seus deuses respirando éter, nadando em ar e andando em água;
eu respiro água, nado em pedra, ando em mim mesmo. sou uma planta!
sou pelo texto subterrâneo
texto-raiz, aprofundando em todas direções atrás de água
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