o atributo
é a letra
mais o tributo
Procuro, a brecha, a falha na parede,
na rocha rija que nos impede o gozo,
o vão em que me enfio,
corpo e alma, cunha humana,
cinzel para abri-la e vê-la jorrar.
Completo estou, de fantasmas serenos,
que mais valia partilhar, estendê-los em varal
pelo mundo, em sua trama de arames
que impede a rocha de se fechar.
Mais urgente então, encontrar o ritmo,
e, aos solavancos, fazê-los sair,
um a um: vesti-los de letras, estátuas de tinta,
cristais duros que se encaixam,
tomam rumo, formam-se mosaico
e quebra-cabeça. Nenhum nexo
estas letras em solto, mas o que aprendi:
expandir, multiplicar, deixar o duro ritmo das estacas
tomar conta, e a trama, impossível,
se deixará formar.
na rocha rija que nos impede o gozo,
o vão em que me enfio,
corpo e alma, cunha humana,
cinzel para abri-la e vê-la jorrar.
Completo estou, de fantasmas serenos,
que mais valia partilhar, estendê-los em varal
pelo mundo, em sua trama de arames
que impede a rocha de se fechar.
Mais urgente então, encontrar o ritmo,
e, aos solavancos, fazê-los sair,
um a um: vesti-los de letras, estátuas de tinta,
cristais duros que se encaixam,
tomam rumo, formam-se mosaico
e quebra-cabeça. Nenhum nexo
estas letras em solto, mas o que aprendi:
expandir, multiplicar, deixar o duro ritmo das estacas
tomar conta, e a trama, impossível,
se deixará formar.
Procuro, procuro, a palavra certeira, a frase, o ponto exato do corte-começo do texto. Por onde o que é plano se torna Linha, sucessão,
desenvolvimento, Combustão.
Feito o furo, é só seguir seu percurso, o pior já está feito. Um corte, a caneta fura o papel de repente e a tinta começa a jorrar.
Mas onde deve ser lançado? Onde o furo, onde a brecha, a falha que permite entrarmos, picareta em punho, dentro do quadro?
Estou sentado, pensamentos ao vento, nuvens passam e eu atento, com minha armadilha de pescador.
Lancei um anzol no céu, pra pescar o sol - e de quando em quando, me sobressalto, faço menção de bater a faca: é ali!
mas não, o momento se esvai, ou nada pior que resvalar o cinzel na pedra, riscar o duro. Tomado o ponto falso,
a caneta quebra, a ideia morre... procuro, procuro, o tema, o contorno, a figura falhada que rebenta num fio de pedaços,
tornar-se então isto, um percurso, um gesto, uma jogada de corpo no abismo, um desfiar da nuvem em novelo, algodão,
e esticá-lo, e cozê-lo, tessitura do texto.
desenvolvimento, Combustão.
Feito o furo, é só seguir seu percurso, o pior já está feito. Um corte, a caneta fura o papel de repente e a tinta começa a jorrar.
Mas onde deve ser lançado? Onde o furo, onde a brecha, a falha que permite entrarmos, picareta em punho, dentro do quadro?
Estou sentado, pensamentos ao vento, nuvens passam e eu atento, com minha armadilha de pescador.
Lancei um anzol no céu, pra pescar o sol - e de quando em quando, me sobressalto, faço menção de bater a faca: é ali!
mas não, o momento se esvai, ou nada pior que resvalar o cinzel na pedra, riscar o duro. Tomado o ponto falso,
a caneta quebra, a ideia morre... procuro, procuro, o tema, o contorno, a figura falhada que rebenta num fio de pedaços,
tornar-se então isto, um percurso, um gesto, uma jogada de corpo no abismo, um desfiar da nuvem em novelo, algodão,
e esticá-lo, e cozê-lo, tessitura do texto.
Tenho medo do vento. Pare, vento, de soprar tão forte! As árvores vergam, levadas pelos seus chumaços de folhas, como velas de navio. Não, são os navios que as imitam. Pare, vento, de soprar tão forte! De estalar a casa, e apertar as portas, as janelas. Deixe o que está quieto, estar! Deixe estar! Pare, deus do vento, ó, deus do vento. Parece sempre que tem gente aí. E não terá? Vento! Que susto você me dá! Não consigo o sossego com você soprando! E a casa toda em ruídos. Movimentos. Que fantasmas voam por aqui? E se, e se é certo, e se é justo o inverso, e se são as árvores a soprar e dizer, a espirrar em nós, afoitas e com seus galhos carregam o ar e nos cobrem? O som parece a chuva, tocando gotas nas mil folhas. Mas vem em ondas, emergências, urgências. Como se houvesse Algo que se pudesse fazer. Me deixa à espreita, alarmado, esperando. Esperando nada. Com medo. Medo do vento que sopra tão forte que uiva. Que bate portas e derruba árvores. Que vem do céu! a raiva dos ares. É só o ar, escorrendo de um lado a outro? É mais. É um medo na terra. Um medo do vento que vem invisível com seus dedos de frio nos assustar da cama para esperar, em prontidão, que ele se vá. Que o ar se acalme, que o invisível largue suas raivas e se acomode. Oxalá seja logo. Oxalá dure pouco. E se escrevo, peço, que seja logo. Que o vento volte a dormir, e eu possa, novamente, dormir.
No início só havia gado e galinhas
tudo era prédio, a perder de vista
enorme massa de concreto, e criadouros
dos animais comestíveis. Eis que
principiou a decadência, novas
galinhas transgênicas, voavam, piavam
faziam ninho no topo do edifício
que por sua vez ruía, virava areia. O mar
apareceu dum enorme vazamento
na fábrica de água. Um cano estourado
para horror dos ambientalistas. E o desastre
somente aumentava, e derrubava
parte dos quarteirões bem-alinhados. A praia
começou na portaria, e foi crescendo.
Peixes de aquário fugidos, viraram tubarões,
antes produtos kitsch, de brilhar no escuro.
Muitos robôs perdidos
e corroídos, perigosos, contribuíram
para a selva. Ferrugem, energia solar,
mais uns quantos em coma, vegetativos,
cresceram musgo e fotossíntese, corpos dormentes,
daí veio as árvores. E as galinhas,
de bico cortado, fugiram
nos mais variados estilos, umas
de asa grande, outras correndo, nadando
sobre dois pés, as mais altas,
já nem cacarejavam, riam
os ovos chocando do lado de dentro
criando nos ninhos, de palha, paredes,
até criarem domésticos, uns animais
humanos, de engordar
e comer.
tudo era prédio, a perder de vista
enorme massa de concreto, e criadouros
dos animais comestíveis. Eis que
principiou a decadência, novas
galinhas transgênicas, voavam, piavam
faziam ninho no topo do edifício
que por sua vez ruía, virava areia. O mar
apareceu dum enorme vazamento
na fábrica de água. Um cano estourado
para horror dos ambientalistas. E o desastre
somente aumentava, e derrubava
parte dos quarteirões bem-alinhados. A praia
começou na portaria, e foi crescendo.
Peixes de aquário fugidos, viraram tubarões,
antes produtos kitsch, de brilhar no escuro.
Muitos robôs perdidos
e corroídos, perigosos, contribuíram
para a selva. Ferrugem, energia solar,
mais uns quantos em coma, vegetativos,
cresceram musgo e fotossíntese, corpos dormentes,
daí veio as árvores. E as galinhas,
de bico cortado, fugiram
nos mais variados estilos, umas
de asa grande, outras correndo, nadando
sobre dois pés, as mais altas,
já nem cacarejavam, riam
os ovos chocando do lado de dentro
criando nos ninhos, de palha, paredes,
até criarem domésticos, uns animais
humanos, de engordar
e comer.
Duvida que eu faça um poema?
É assim: teu sorriso gira.
Alguns dizem que é a meia-lua rindo
a simples beirada da lua cheia - eu não.
Sei bem que está ali escondido
um círculo inteiro
rodopiante redemoinho
engolindo navios desavisados;
e que seus olhos são dois torvelinhos
infindos que o cercam;
e fico eu navegando
nos oceanos irrequietos
girando, porque seu sorriso
é a lua cheia escondida
me tragando e me engolindo.
É assim: teu sorriso gira.
Alguns dizem que é a meia-lua rindo
a simples beirada da lua cheia - eu não.
Sei bem que está ali escondido
um círculo inteiro
rodopiante redemoinho
engolindo navios desavisados;
e que seus olhos são dois torvelinhos
infindos que o cercam;
e fico eu navegando
nos oceanos irrequietos
girando, porque seu sorriso
é a lua cheia escondida
me tragando e me engolindo.
ouvido duvida, ouviste a revista? ouriço ou eriça - o urina ouro...
- Olha, você ou viu, ou ouviu.
- Ou vi.
- Espera, você ouviu ou viu? Ou ouviu ou viu! Ou viu ou ouviu - ou viu - ou ouviu; ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu -
- Chega que eu intuo tudo telepaticamente
- Ou vi.
- Espera, você ouviu ou viu? Ou ouviu ou viu! Ou viu ou ouviu - ou viu - ou ouviu; ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu ou ouviu ou viu -
- Chega que eu intuo tudo telepaticamente
o profeta do prefeito
feitura pura do enfeite
infectado de defeitos "afetuosos"
- confete na confeitaria
infectado de defeitos "afetuosos"
- confete na confeitaria
consumo, eu quasi sumo
é o quasi çumo
nós quasi sumo... o quê?
- eu conçumo, tu preçumes, ele çume
- tu preZumes, com 's'
- eu açumo, tu reçume
- reZume!
- eu cumo tu comes ele recome
- eu como e recomo, me diz, como?
(interrompendo)
- olha aqui vocês vão parar com essa PALHAÇADA senão eu janto e sobremeso os dois
é o quasi çumo
nós quasi sumo... o quê?
- eu conçumo, tu preçumes, ele çume
- tu preZumes, com 's'
- eu açumo, tu reçume
- reZume!
- eu cumo tu comes ele recome
- eu como e recomo, me diz, como?
(interrompendo)
- olha aqui vocês vão parar com essa PALHAÇADA senão eu janto e sobremeso os dois
um leão branco leitoso correndo em meio um tufão de animais leitosos mármore de vida branca quasi plantas, eu no jardim desta mansão imensíssima de que desenho os quartos; elis passão por mim eu deixo um dálmata e mais outras cair dos meus braços pa que a turba a leve rodopiando.
bate o sino, é hora, é hora d'algo
bate o sino, é hora, é hora d'algo
a dúvida divide em dívidas
(doidivana dádiva vívida da vida)
vêm as dúvidas, como zumbidos
vocejando em meu entorno e a tudo levantando
lívidas, erínias, mínimas deusas diablitas
a gorgorejar o paz de esprírito
vade-rectum! lhes desinvoco
descobrir-lhes mudas ao simples
descer das pálpebras e
lavar o céu dos olhos
(doidivana dádiva vívida da vida)
vêm as dúvidas, como zumbidos
vocejando em meu entorno e a tudo levantando
lívidas, erínias, mínimas deusas diablitas
a gorgorejar o paz de esprírito
vade-rectum! lhes desinvoco
descobrir-lhes mudas ao simples
descer das pálpebras e
lavar o céu dos olhos
coreografia
acorda
a cor
do corpo,
o acordo
recorda
a coragem
corada
da cor
decora
o couro
do coro,
a cura e a
secura
do coração
quero a cara do carinho, o coração e o coracinho
a querida coroa, a cárie coroada, o coringa! curare
a cor
do corpo,
o acordo
recorda
a coragem
corada
da cor
decora
o couro
do coro,
a cura e a
secura
do coração
quero a cara do carinho, o coração e o coracinho
a querida coroa, a cárie coroada, o coringa! curare
nem garfadas nem garbruxas, um leito de almafadas e alfáceis úlmidas
almafácida, como algema de ovo
algemidos de gelar o osso
um tecido almofadado, calmo, clamufado - clamores abafadados
fada da alma, féerica alma da almofada, alfado da almoface
algumofada bruxa da broxada, minha ochecha echonchuda
plantei alface mas deu difíce
fácil fécil fícil ou difícil? misturado, difácil e físsil
um apartamento lá no fundo da terra
era estação de sismos então máquina do tempo e tudo
cheia de monstrinhos de outra imaginação
você descia por uma hora, um tempo grande
com a chuva já era frio e cheio de rios e mergulhos
(engraçado não ter lembrado jules verne)
lá embaixo tomar banho quente, uma casa num lago raso, piscina e bom
era estação de sismos então máquina do tempo e tudo
cheia de monstrinhos de outra imaginação
você descia por uma hora, um tempo grande
com a chuva já era frio e cheio de rios e mergulhos
(engraçado não ter lembrado jules verne)
lá embaixo tomar banho quente, uma casa num lago raso, piscina e bom
anuncio o cio, negocio
anuncie o cio
a saia anseia a sua ânsia, o cio cia
esse sinal sem seio
o seu asseio
a saia anseia a sua ânsia, o cio cia
esse sinal sem seio
o seu asseio
- Cadê o chiclete? Tem mais um?
- Você chupou!
Andam um pouco, pirracentos
- Esse chiclete tem pimenta!
Três garotinhos vêm subir a mangueira carregada que dá sombra às mesas da lanchonete. A mãe lhes deu, a cada um, um pacotinho colorido de salgados, e eles escolhem orgulhosos o galho onde vão comer.
- Melhor subir sem chinelo! Você vai subir sem chinelo?
- Você chupou!
Andam um pouco, pirracentos
- Esse chiclete tem pimenta!
Três garotinhos vêm subir a mangueira carregada que dá sombra às mesas da lanchonete. A mãe lhes deu, a cada um, um pacotinho colorido de salgados, e eles escolhem orgulhosos o galho onde vão comer.
- Melhor subir sem chinelo! Você vai subir sem chinelo?
curvo-me ante a beleza da anarquia de outrora
era real nestes campos da palavra
quem sabia, eu acreditava
agora vejo invejoso
me rôo de gula ante a fábrica imersiva de outrora
os dias dedicados à simples brinca
sem privilégio aos outros, sem submissão
a palavra livre a correr como espada de uma liberdade perseguida
hoje vejo espuma sair-me
tão viciado nas colagens, no redito
só posso sonhar um dia voltar ao já escrito
só posso sonhar - que hoje eu tanto construo
tento criar um mundo, sair lá fora
e mudar
antes tão verdadeiro
hoje eu odeio de haver o dinheiro, mas não lhe cedo
não me curvo e permito que outros mo dêem
não, eu plantarei meu próprio dinheiro
engolir a revolução para que ela frutifique nos outros
a revolução deve ser interna e externa
a revolução nasce nas varandas
na sacada do primeiro andar
não se basta num quarto dentro de um quarto dentro de um quarto
num computador
a revolução acontecerá e na palavra só restarão suas pegadas
era real nestes campos da palavra
quem sabia, eu acreditava
agora vejo invejoso
me rôo de gula ante a fábrica imersiva de outrora
os dias dedicados à simples brinca
sem privilégio aos outros, sem submissão
a palavra livre a correr como espada de uma liberdade perseguida
hoje vejo espuma sair-me
tão viciado nas colagens, no redito
só posso sonhar um dia voltar ao já escrito
só posso sonhar - que hoje eu tanto construo
tento criar um mundo, sair lá fora
e mudar
antes tão verdadeiro
hoje eu odeio de haver o dinheiro, mas não lhe cedo
não me curvo e permito que outros mo dêem
não, eu plantarei meu próprio dinheiro
engolir a revolução para que ela frutifique nos outros
a revolução deve ser interna e externa
a revolução nasce nas varandas
na sacada do primeiro andar
não se basta num quarto dentro de um quarto dentro de um quarto
num computador
a revolução acontecerá e na palavra só restarão suas pegadas
o que ouve no ouvido
a tua testa me testando
os pés pesados me pisando
peitos pintados me peitando
a tua pele, pelada, pelando
não me queixo
olho o olho
(toda língua passa pelo corpo)
a língua do linguado
e ela na goela
coloração
linda coração da cor
"tantas palavras que sufocam
nem dá vontade de sentir porque nem parece meu
sou invadido de emoções clichês, entro nesse território de que já se disse tanto, que antes mesmo de entrar já sei, já sei de tudo, já sei do não saber;
festa da linguagem repisando tudo!
e me vendendo doces que não quis comprar
eu, que sempre amei aquelas as que menos palavras tinham
sempre me divertia justo quanto menos entendia
e agora todos sabem
e agora todos podem dizer, e é isto, e é aquilo
e esta agonia de não conseguir sentir em paz
porque é muito difícil ser original
quando tudo que faço entrou em seus termos mais literariamente óbvios
e tudo tão previsível
que meus rumos nem já são meus
são dessa vontade alheia, óbvia, externa
e quanto mais me sinto joguete, títere
me irrita, e nem consigo mais falar
afogado nessa rede de fofocas interminável
quando tudo que sonho se passa sempre fora do discurso
e minha felicidade se dá nesse passar à linguagem
esse parto que é o batismo das novas dores que ninguém jamais sentiu
mas hoje só sinto o usual, só piso pegadas já pisadas"
O indivíduo nessa condição não é como um motor que funciona perfeitamente até que se acabe o combustível e pára de funcionar; é mais parecido com um carro velho que por vezes funciona de maneira adequada, apresenta deficiências, melhora e, depois, deteriora profundamente seu funcionamento e assim vai indo de maneira inconstante.
te vi esticando a roupa na janela
eu pendurei um lençol e vi
como um espelho você era eu de longe
me vendo esticar lençol e vi
como um espelho sua janela de vidro igual
irmã de nós e eu era o ar
voando como seu nome quando
eu te chamava feliz
cada pessoa é um espelho possível porque
se eu ponho um espelho ali meus olhos entram pelos olhos dela
eu pendurei um lençol e vi
como um espelho você era eu de longe
me vendo esticar lençol e vi
como um espelho sua janela de vidro igual
irmã de nós e eu era o ar
voando como seu nome quando
eu te chamava feliz
cada pessoa é um espelho possível porque
se eu ponho um espelho ali meus olhos entram pelos olhos dela
quando o prédio deitou eu andei até a varanda ao lado
com a tesoura de jardineiro abri caminho na rede-para-suicídio-involuntário
mas não tinha ninguém dentro
o prédio deitou para dormir, se cobrindo com lençol-de-obra
os vizinhos caminhavam sobre sua pele e se abra- çavam simpáticos
davam bom-dias baixinho pro elevador não acordar
com a tesoura de jardineiro abri caminho na rede-para-suicídio-involuntário
mas não tinha ninguém dentro
o prédio deitou para dormir, se cobrindo com lençol-de-obra
os vizinhos caminhavam sobre sua pele e se abra- çavam simpáticos
davam bom-dias baixinho pro elevador não acordar
tava funcionando por que-
ninguém tava ouvindo por que você tá me ouvindo?
você é a moeda que eu achei
que eu dei pro moço do carro
daí voltou você, na noite. tá errado...
eu tava só conversando mesmo e de repente eu vi que gostava bem
dei beijo que senão cê fugia toda que que acontece.
eu colho seu beijo com as mãos em concha
-meu beijo eram pontinhos perguntando
ela que disse
uma montanha de coisa descia do teto e terminava no pé de cadeira
você empurra e faz o som, da cadeira
ela foi na suécia e viu a primavera
depois de tanto frio
e eu moro numa gaiola dentro de uma gaiola
ela que disse
ninguém tava ouvindo por que você tá me ouvindo?
você é a moeda que eu achei
que eu dei pro moço do carro
daí voltou você, na noite. tá errado...
eu tava só conversando mesmo e de repente eu vi que gostava bem
dei beijo que senão cê fugia toda que que acontece.
eu colho seu beijo com as mãos em concha
-meu beijo eram pontinhos perguntando
ela que disse
uma montanha de coisa descia do teto e terminava no pé de cadeira
você empurra e faz o som, da cadeira
ela foi na suécia e viu a primavera
depois de tanto frio
e eu moro numa gaiola dentro de uma gaiola
ela que disse
Para voar
(espelho de fevereiro)
"I dreamed you were in Brazil. One day you arrived to stay at my place, you and ten other friends. It was very hard to provide beds for all.
Entonces salíamos.
El samba era un volcano en el medio de la ciudad. Nosotros tomábamos un taxi para una de sus lenguas de fuego, donde habría buena música y danza. Pero nos equivocábamos y salíamos lejos de la boca del volcano, donde estaba el carnaval en erupción. Caminábamos y la fiesta adentraba nuestros cuerpos, el calor...
Desperté en mi varanda, la luna lle-
(espelho de fevereiro)
"I dreamed you were in Brazil. One day you arrived to stay at my place, you and ten other friends. It was very hard to provide beds for all.
Entonces salíamos.
El samba era un volcano en el medio de la ciudad. Nosotros tomábamos un taxi para una de sus lenguas de fuego, donde habría buena música y danza. Pero nos equivocábamos y salíamos lejos de la boca del volcano, donde estaba el carnaval en erupción. Caminábamos y la fiesta adentraba nuestros cuerpos, el calor...
Desperté en mi varanda, la luna lle-
"...e ele mergulhou nas pálpebras cerradas dela. Ela dormia, mas em seu sonho foi tomada por um pêso e fechou os olhos. Ela não despertara, mas seu corpo agora via.
O homem desenhou então a dança negra da escrita diante daqueles olhos cegos. No sono, ela lia sem ver, e tudo ao seu redor nascia e lhe envolvia. Então sua boca abriu, e o mar cantou uma canção das profundezas. Os lábios do homem tremiam e suas mãos suavam, apaixonadas. O peito rugia. O coração se embriagava cantando, o amor sorria. O mar fazia amor dentro deles..."
O homem desenhou então a dança negra da escrita diante daqueles olhos cegos. No sono, ela lia sem ver, e tudo ao seu redor nascia e lhe envolvia. Então sua boca abriu, e o mar cantou uma canção das profundezas. Os lábios do homem tremiam e suas mãos suavam, apaixonadas. O peito rugia. O coração se embriagava cantando, o amor sorria. O mar fazia amor dentro deles..."
Regra N° 18: substituir todo "que" por mar
uma grande parte do dia
de hoje
distraí
tentava pôr ordem na
lembrança
aque foi sonho
aque foi eu
aque foi ela
de hoje
distraí
tentava pôr ordem na
lembrança
a
a
a
meussorvetinhodecreme...
esp era só eu a b rir a nov acalda de cho colat eque e ucomprei!
a nov acalda de cho esp era só eu a brir a nov acalda de cho
colat eque e ucomprei! a nov acalda de cho esp era só eu a brir
ah, meu
ssorvetinhodecreme...
speraassóeuaabrirranovacaudaadechcolatequeeeucomprei!
an ovaca auda d echospera sóeul a briranô vacal dadecho
colatequeeu comprei! comprei! comprei!! anovacaldade chouespéras só euabri r
a nov acalda de cho esp era só eu a brir a nov acalda de cho
colat eque e ucomprei! a nov acalda de cho esp era só eu a brir
ah, meu
ssorvetinhodecreme...
speraassóeuaabrirranovacaudaadechcolatequeeeucomprei!
an ovaca auda d echospera sóeul a briranô vacal dadecho
colatequeeu comprei! comprei! comprei!! anovacaldade chouespéras só euabri r
Olha eu sou quatro quilos mais velho que você, e dois anos mais alto. Não vale encolher a barriga! E nem adianta ficar na pontinha do pé, ouviu bem? Idade não se discute.
Tenho vinte e três anos: dois em cima, dois embaixo, seis que é só gurdura, tô devendo meia-dúzia e o que sobrou eu deixei em casa, lavando.
- Nossa, peguei uma idade que eu vou te contar! Não sara nunca!
- Ih essaí tá todo mundo pegando, não esquenta...
Tenho vinte e três anos: dois em cima, dois embaixo, seis que é só gurdura, tô devendo meia-dúzia e o que sobrou eu deixei em casa, lavando.
- Nossa, peguei uma idade que eu vou te contar! Não sara nunca!
- Ih essaí tá todo mundo pegando, não esquenta...
O homem é um microcosmos! Por assim dizer, um resumo da terra e como tal é guiado por leis imutáveis e eternas. Estou de acordo com essas idéias provadas pela ciência. Porém, há as erupções, há os cataclismas!
Ontem, berrei para Lalá:
- Defendo o direito das convulsões sísmicas!
Dorotéia é o meu Etna em flor!
Ontem, berrei para Lalá:
- Defendo o direito das convulsões sísmicas!
Dorotéia é o meu Etna em flor!
só não rima com a-
é febre, o meu calor
e o seu é pura cor
ou ardor
ou ar, ou dor
um céu em flor
não tenho nem onde pôr
e o seu é pura cor
ou ardor
ou ar, ou dor
um céu em flor
não tenho nem onde pôr
o céu é um chão
que só os olhos pisam
e você é um anjo
um anjo pedestre
descalça teus
olhos suados
pra não dar chulé
descalça esses
sapatos sem
horizonte
o céu não é um teto de pedra
não tem óculos nem
chão
é azul
(e um bolo apetitoso
de manhã)
intrometidinha
espionando
detrás do céu, os
astronautas voando
mergulha na cama e vê
os astro-nautas
de submarino
no fundo da noite
o céu é um mar raso
dá até pézinho
vem! a água tá morna
vem!
põe teus olhos de pato
e nada
pra cima, só nada.
que só os olhos pisam
e você é um anjo
um anjo pedestre
descalça teus
olhos suados
pra não dar chulé
descalça esses
sapatos sem
horizonte
o céu não é um teto de pedra
não tem óculos nem
chão
é azul
(e um bolo apetitoso
de manhã)
intrometidinha
espionando
detrás do céu, os
astronautas voando
mergulha na cama e vê
os astro-nautas
de submarino
no fundo da noite
o céu é um mar raso
dá até pézinho
vem! a água tá morna
vem!
põe teus olhos de pato
e nada
pra cima, só nada.
não sabe brincar?
o teu amor é meu
esconderijo
(atrás da cortina
debaixo da
cama)
só não vale ficar de altus
esconderijo
(atrás da cortina
debaixo da
cama)
só não vale ficar de altus
a praia
fui na tua boca tomar sol
brincar de castelinho
com teu amor de areia
ai e você
dentuça, a bóinha nos braços
pisando descalça
nas minhas juras
é uma praia nudista, baby
tire toda essa roupa
não sabe brincar?
brincar de castelinho
com teu amor de areia
ai e você
dentuça, a bóinha nos braços
pisando descalça
nas minhas juras
é uma praia nudista, baby
tire toda essa roupa
não sabe brincar?
<< Brinco de desenhar na pele de marcela, unir os pontos, ela diz: "como un mapa, los lunares serán las ciudades, este grande la capital". O pontilhado me lembra diagramas de corte de vaca - picanha aqui, a fraldinha sai do ventre, o lombo se chama contrafilé - como uma cartografia carnívora; mas o mapa vira um lago-espelho, quando as árvores têm dupla copa e não raízes: teu corpo, o desenho refletido das constelações do céu >>
- Las tres versiones de Judas,
BORGES
quando em desdizer as maravilhas que os filósofos de plantão choravam ao vento, lépidos
que tudo mentiras e vago ar, o vento soprava entre suas palavras ocas e as tiras de papel fatiado pela lâmina cega, coração desmesurado
quando em afogar-se em um mar de tato e novos olhos, e batizar-se surdo-mutismo por desejo, movimento mutista, mutante
eu trafegava meus próprios pés, na areia inexplorada, desenhando como pontas de dedos sobre faces inalcançadas, sonhos trêbados, trôpegos
um corpo construído em nós e soluços, em espremer-se contra um espelho, amassando manchas de gordura e carne na tela fina, na imagem retorcida e deformada, em si
nus e crus, despidos, quando o vento soprava trafegando entre árvores e prédios e nos invadia, pelas janelas, pelas portas entreabertas
lambendo nossas peles e nos limpando de tudo que não nós, de todos desenlaces fáceis, de todas as fugas
uma folha seca atirada contra o muro, esperneando para acordar gritando: vida
que tudo mentiras e vago ar, o vento soprava entre suas palavras ocas e as tiras de papel fatiado pela lâmina cega, coração desmesurado
quando em afogar-se em um mar de tato e novos olhos, e batizar-se surdo-mutismo por desejo, movimento mutista, mutante
eu trafegava meus próprios pés, na areia inexplorada, desenhando como pontas de dedos sobre faces inalcançadas, sonhos trêbados, trôpegos
um corpo construído em nós e soluços, em espremer-se contra um espelho, amassando manchas de gordura e carne na tela fina, na imagem retorcida e deformada, em si
nus e crus, despidos, quando o vento soprava trafegando entre árvores e prédios e nos invadia, pelas janelas, pelas portas entreabertas
lambendo nossas peles e nos limpando de tudo que não nós, de todos desenlaces fáceis, de todas as fugas
uma folha seca atirada contra o muro, esperneando para acordar gritando: vida
a escrita tem borracha demais,
queria máquinas de escrever
canetas tinteiro (sonho platônico, jamais lhes provei)
olhar um poema ver versos cortados, rimas apagadas refeitas
apagadas refeitas
uma grande estrofe de indecisão, toda suja,
as fibras do branco aparecendo, vincos, manchas empenadas
ver o processo nas palavras
um poema honesto
sem esse limpa-tipos infinitamente implacável
que é passar a limpo
(não quero às limpezas!)
o que é livro, palavra
só minhas mãos, os dedos (cansados) falam
apertar massa espalhar massa quebrar
vi tijolos quebrados no chão e pensei
quero quebrar tijolos, o que acontece, quais as formas
vi pedras no chão, quero pegá-las tocá-las
que palavras o que é palavra
tro-peçando dizen-do cada sílaba com esforço
com a língua mais interessada no ar e no apalpar o ar
do que nas letras desenhadas no som que som só quero
matéria
(um poema feito de argila)
pisca, página
recheada de pizza e
não-vai-me-vencer teimoso
(como uma que não dormia e só chorava, dando a volta ao mundo no barco, na sua barriga-tronco-peito-eu gêmea)
piscinas de óleo, escorrem, borbulham
sorrindo (piscam, estrelas de borracha)
bananas e lentilhas não tapam o
chão preto, a sombra
recorta bonita que linhas quebrando
vendo as formas dum paralelogramo e
os estilhaços do espelho quebrado
todo dia pisam num, são sete anos
mas o espelho espatifou e os cacos voaram
pequenos triângulos pelo quarto, eu os vejo por todo lado
da porta posso ver tudo de longe, as manchas se unem, e funciona.
recheada de pizza e
não-vai-me-vencer teimoso
(como uma que não dormia e só chorava, dando a volta ao mundo no barco, na sua barriga-tronco-peito-eu gêmea)
piscinas de óleo, escorrem, borbulham
sorrindo (piscam, estrelas de borracha)
bananas e lentilhas não tapam o
chão preto, a sombra
recorta bonita que linhas quebrando
vendo as formas dum paralelogramo e
os estilhaços do espelho quebrado
todo dia pisam num, são sete anos
mas o espelho espatifou e os cacos voaram
pequenos triângulos pelo quarto, eu os vejo por todo lado
da porta posso ver tudo de longe, as manchas se unem, e funciona.
era leve,
uma janela esquecida aberta, cheia do calor da manhã e, um sopro fino entrava carregado dos mumúrios dos carros correndo, como ondas batendo,, as cortinas vacilantes roçavam o assoalho carinhosamente, varrendo pó de lá para cá e, nossas pálpebras indecisas, dia novo e luzes elétricas deixadas acesas, pratos do jantar esfriavam na mesa, sempre
os dedos pousados mais pareciam passageiros do gesto contínuo como o vento lavando carícias das folhas das árvores, coçando calmo torsos e faces, sem pressa
um suspiro subia, e descia, como discos rodando, os vinis chiando sob agulha mas sem música, só: o silêncio cheio
em dois minutos ela, leve como , e certeira,
uma janela esquecida aberta, cheia do calor da manhã e, um sopro fino entrava carregado dos mumúrios dos carros correndo, como ondas batendo,, as cortinas vacilantes roçavam o assoalho carinhosamente, varrendo pó de lá para cá e, nossas pálpebras indecisas, dia novo e luzes elétricas deixadas acesas, pratos do jantar esfriavam na mesa, sempre
os dedos pousados mais pareciam passageiros do gesto contínuo como o vento lavando carícias das folhas das árvores, coçando calmo torsos e faces, sem pressa
um suspiro subia, e descia, como discos rodando, os vinis chiando sob agulha mas sem música, só: o silêncio cheio
em dois minutos ela, leve como , e certeira,
permitira às suas mãos beijar o branco, e amá-lo, o branco silente
fora ela ou sua voz, tão leve
quatro lágrimas, cada uma dói, nenhuma é preta
o pilar negro não se borra,
nem com as mais finas sutilezas..
a voz sopra, mas desenha no ar, quase desenha em mim
quero desenhar nos braços no olho na vida
o branco silente, é tão lindo
(senão! é como amar uma mulher só linda: uma mulher tem que ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão)
o pilar negro não se borra,
nem com as mais finas sutilezas..
a voz sopra, mas desenha no ar, quase desenha em mim
quero desenhar nos braços no olho na vida
o branco silente, é tão lindo
(senão! é como amar uma mulher só linda: uma mulher tem que ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão)
e via tudo enquadrado
manchava meu
olho manchava
a chuva
a listra vermelha
manchava janelas
o branco
dos olhos teus
cinzas, chovendo
na janela desenhos
chovia
as manchas borradas
o batom apagado
mas
às vezes meus olhos
duros de vidro
embaçam
o contorno dos teus beijos
nunca saiu
nem
lavando
olho manchava
a chuva
a listra vermelha
manchava janelas
o branco
dos olhos teus
cinzas, chovendo
na janela desenhos
chovia
as manchas borradas
o batom apagado
mas
às vezes meus olhos
duros de vidro
embaçam
o contorno dos teus beijos
nunca saiu
nem
lavando
ouvi
os primeiros ouvidos
de um bebê
( que chora e ri
indistintamente
pelas escadas e )
não ao
som
com S
não à
memória
hoje você nunca existe mais e amanhã
é uma corda puxando o pé
à noite. quando janto de novo querendo despensar
meus quilômetros de grafite nas mãos e no rosto
e na boca e nos olhos sujos lindos
como se tivessem nascido agora
os primeiros ouvidos
de um bebê
( que chora e ri
indistintamente
pelas escadas e )
não ao
som
com S
não à
memória
hoje você nunca existe mais e amanhã
é uma corda puxando o pé
à noite. quando janto de novo querendo despensar
meus quilômetros de grafite nas mãos e no rosto
e na boca e nos olhos sujos lindos
como se tivessem nascido agora
por três vezes
a lua sorriu
vestiu-se guilhotina
e apagou
como um céu escuro
as estrelas, pequenas
tremelicaram úmidamente
me querendo constelar,
mas eu nunca tive telescópio
sou um tanto míope
e gosto de céu centrado
três vezes
e só na terceira
olhei pra cima
e a vi
lua, lua longe
lua sempre
(o brilho grande, tão
mórbidamente
maior que tudo)
adeus à noite
talvez no sol haja luz
para tecer
uma nova via (láctea)
uma nova vida
a lua sorriu
vestiu-se guilhotina
e apagou
como um céu escuro
as estrelas, pequenas
tremelicaram úmidamente
me querendo constelar,
mas eu nunca tive telescópio
sou um tanto míope
e gosto de céu centrado
três vezes
e só na terceira
olhei pra cima
e a vi
lua, lua longe
lua sempre
(o brilho grande, tão
mórbidamente
maior que tudo)
adeus à noite
talvez no sol haja luz
para tecer
uma nova via (láctea)
uma nova vida
conto do homem que chorava
sentava ao nosso lado, as
lágrimas escorregando, sempre
os dias
as manhãs
não güentei -
peguei-lhe um ferro
preguei-lhe a cabeça
várias bordoadas,
e dele não saía mais água mas
de mim
meu peito vazio
em minhas veias só ar
embrulhado em pele de plástico
em minhas veias só ar
embrulhado em pele de plástico
fino plástico de sacola de compras;
tenho aqui um oco que
quase caio dentro de mim
meu peito vazio é como
um estômago
eu mordo,
eu rasgo,
eu mastigo e engulo
para inflar meu balão de sangue
mas ele está furado
a vida escapa
em gotas salgadas
pelo rosto.
mergulho versos neste poço escuro
respingando tinta preta nas brancas mangas de camisa
o poema é o trapo sujo
da minha insignificância
espremida aqui.
tenho aqui um oco que
quase caio dentro de mim
meu peito vazio é como
um estômago
eu mordo,
eu rasgo,
eu mastigo e engulo
para inflar meu balão de sangue
mas ele está furado
a vida escapa
em gotas salgadas
pelo rosto.
mergulho versos neste poço escuro
respingando tinta preta nas brancas mangas de camisa
o poema é o trapo sujo
da minha insignificância
espremida aqui.
no espelho alguém me olhou mas, as cores estavam de ponta-cabeça
maio e
nada fazendo sentido.
como tinta descascando,
cobras trocando de pele
(mas na verdade são tantas
cabelos de medusa
cabeças de hidra)
sinto-me rachando
como, esfacelando
torrões de areia se desmancham sob água
e me construo
de mil tijolos
sem cimento no meio
mas faltam pedaços, está tudo esburacado
agarrar a rua para engolir cigarros, mas não bastava, as falas me invadirão e blasfemarão sobre a tessitura implícita linda de tapete mágico que ora constitui meus órgãos internos, intestinos e, boca fechada rija de prazer intenso em não-ser, agarrar a rua para fugir desta transição horrível, entortar minhas coordenadas geográficas para dizer: não foi na mesma estada aqui em que eu fui tanto carne quanto som, eu saí no entreato para voltar outro, para poder dizer que não sou o mesmo no mesmo rio inmesmado: saí correndo, preencher-me de cansaço, secura na boca e dor nos pés: preencher a existência com carne - não me agüentaria vestido de vidro e espelhos, de ilusão aérea, de sonho
via estrelas com os olhos e os pulmões apertados cantavam seus nomes, que olhos? nem havia mais imagem só car-ne-cor-po
e me vinham ventos de contrário, ventos de não-existência de ponta-cabeça, e como ser novamente parido - uma parte de cada vez, ondas de renascimento ininterruptas e mim: como um código de barras, holograma falhado no estar-ali; 'estar'? nem era verbo existir, nem era verbo: minhas lacunas onde a música berrava mais forte do que o verbo ser
eu sentia-me lavado
como o mergulho na imensa cachoeira do centro do mundo, quando me despi de todas minhas vidas e mandei os atavismos e neuroses à merda, quando mergulhei naquela água impossívelmente mortal que queria me cortar em tantas tiras quanto os traumas e resmungos de frio, quando lancei toda minha existência ao sabor da sorte e sobrevivi - e sobrevivi - eu saí limpo, verdadeiramente mais nu do que quando mergulhei sem roupas
e antes a vida passava diante dos olhos como um tédio vago, melancólico, querendo me vender clichês de vida - como isto fazia parte! mas adiante, por tantos anos eu não era mais corpo ou mundo mas só sonho - e o fim: encarnar como um tijolo cai do topo dos prédios podendo matar por engano
meus dedos meus braços dormentes esticados contraídos espasmos
agarrando um cano de ferro por perto com todas as forças que tinha o suor nas minhas mãos eu era este punho fechado como uma âncora no aqui e ondas e ondas meu corpo não era solo era Mar porque vinha em levas em levas como ondas batendo na praia eu era as ondas a sensação de ser ondas a verdade de existir me atravessando minha alma vento sobre a paisagem a planície o trigal e os ramos balançando em meus pêlos escritos naquela escrita eólica, o som me vasculhava com sua pesada língua distribuindo explosões de gosto e umidade, abalos sísmicos nos meus eus-tectônicos: ser-se em vagas, vagas, existir como um movimento descomunal, existir mas sem-querer, subi numa locomotiva de música que gira gira gira me leva para tão longe como uma roda da fortuna sem-querer e me faz ser-me menos, obrigado, posso enfim desfazer-me, feliz
A linguagem é um laboratório. Misturo palavras e profiro frases avaliando seu gosto, peso e a maneira pela qual reagem com minha opinião.
Como um cientista e seus aparelhos, experimento, regulando minuciosamente língua e cordas vocais. Sintetizo novos compostos, refino-os em seus elementos puros: encontrar a fórmula perfeita de sua enunciação.
como magia
uma pedra de rins
um caroço preso na digestão
uma bola de caranguejos esperneando entre os pulmões
um átomo radioativo engolido por engano
enorme coluna dórica instalada entre os músculos
fazendo força por sair
insistindo por uma existência impossível -
sonhos estropiados
com tantas pernas e braços
e bases da biologia submarina das fendas abissais
com sua luz incerta
berrando, a fachos largos
não! não! não!
corpo de soluços e convulsões
e algo dentro
transpirando à vontade
levanto a tampa
do pote de plástico
e banho os cabelos
negros
corpo descartável
sem dono
estoira como uma seta
- você não faz mais o barulho gostoso
quando entra em casa como um marido bêbedo
que bate nos filhos e beija a mulher,
nem ronrona como um carro virando a esquina
brusco,
insone,
engolindo os minutos como bolas de papel amassadas
entaladas no meio da voz
levanto a tampa
do pote de plástico
e banho os cabelos
negros
corpo descartável
sem dono
estoira como uma seta
- você não faz mais o barulho gostoso
quando entra em casa como um marido bêbedo
que bate nos filhos e beija a mulher,
nem ronrona como um carro virando a esquina
brusco,
insone,
engolindo os minutos como bolas de papel amassadas
entaladas no meio da voz
crescem em mim
dentes
de morder batom
checo a lista de quartos que estalam quando se entra:
equivo-os, todos
a porta de casa tem um cheiro esticado
de dias de meio de mês.
ela murmura, sorrindo
onde vais, tão cedo?
reconheço as pernas douradas da rua
e beijo a porta até sair sangue
sangue cheiroso
com o cheiro da tv rezando
por suas muletas de bronze
que carregam o hoje para o inferno
roubar tijolos do apartamento de bonecas
onde o almoço é comido pelas moscas
um ônibus ocupado
sendo uma Ferrari
cospe nos meus pés
meu prazer se confirma
numa garrafa pegando fogo
e o óleo diesel dos teus cabelos
estou fungando extasiado
dou grama ao mágico
pinto-me de rosa
torturo meu colchão
com lágrimas de vidro
sonhei: meu corpo evaporava
a sensação de evaporar, hmmmm!
como sentir-se namoricando moléculas
e outros termos químicos físicos científicos
o gosto dos segundos na boca
minha pele indo na frente com o vento
e todo meu corpo uma estação de trem
última chamada! última chamada!
mas a boca se mexia muito
incomodada, remoendo
cerrada: os segundos presos entre os dentes
membranas tapando as trocas de tempo
as novas datas a entrar e sair
as novas horas
minha boca de relógios quebrados
sempre com a mesma história, o mesmo minuto
meu corpo evaporava e gritava hmmm!
os poros exclamando como mil boquinhas
e meu coração numa panela
cozinhando
uma erupção de cartões postais
da terra do alfabeto
"Às vezes me canso de tanto deliberar sobre 'nada' (como diria o mundo); tento então, num sobressalto, como um afogado que toca com o calcanhar o solo marinho, voltar a uma decisão espontânea (a espontaneidade: grande sonho: paraíso, poder, gozo): pois bem; telefone-lhe, já que você está com vontade! Mas o recurso é vão"
minha cabeça tem como amores platônicos
por se ver linguajeada em papel
mas bem sabe, a afoita,
que pousar em carne lêtrica
envolve dores e desastres.
quem nunca viu dois amantes de amor cego
ao abrirem seus olhos
piscarem duas, quatro, sessenta vezes?
só mesmo a mão,
traiçoeira,
e os braços,
arrebitados,
podem insistir nesta cascata exuberante
no bailado das palavras para a vida
na escrita final sobre folhas de mundo
desenhar destinos na face alheia
frases-beijos numa branca face.
só mesmo o corpo
é forte o bastante
para dançar
um crime e
luto pela imaginação
luto
lição infinita
os naufrágios devem ser impetuosos
certeiros; não deve sobrar destroços bóias
remos ou esperanças e fantasias de 'terra, um dia'
terra, é sempre miragem
esquecer tudo e afundar, límpido
o real é o de menos
viva a realidade onírica do mar
entrincheirar-nos em palavras
lançar, atirar, jogar granadas uns nos outros
desenhar nos rostos ou pulsos trombetas
fantasia de muito-além
e nada mais.
o final do filme
do show de striptease
ou da porra da vida
não interessa
maio
mas é claro que já não restam aviões!
comemo-los todos, no café.
e o céu vazio de aerófilos se distrai pensando:
por que não acordar as gentes a baldes d'água?
já é tarde - o sol se cansa de vomitar luz nessas tuas caras.
eu me vesti com galhos e penas,
enorme lança-chamas de fúria e erros -
desafiei as esquinas a me mostrarem com quantos leques de seda se constrói o moinho que gire, que gire que gire,
mas faltavam-me as engrenagens tortas que moer tantos lances de dados enviesados, caindo de quatro sob um destino falso:
e debaixo de uma chuva de folhas o outono se abriu.
eu me escondo atrás de arpões e navios
e toda uma enciclopédia de deuses marinhos
pronto a começar a moldar meu exército de argila
que esguichará dos ralos dos banheiros
e dos buracos das fechaduras (trancadas);
invadir as casas mais infelizas e cantá-las todas:
- fim da era do pão e do fósforo!
jamais saberemos de novo a arte divina de lamber os lábios de crocodilo que ocupam a própria alma destes embrulhos de celofane que me cercam, ditas pes-soas!
tempestadeando como mosquitas ou cerejos caindo em profusão -
mas eu era apenas um menino
no alvorecer de maio, borbulhante
e minhas mãos dedilhavam rolos de papel higiênico
com que cobrir o teto de suas igrejas de ópio
e deitar-lhes ébrios num abrigo ácido de doces e
enguias verdadeiras rastejando dentro de las ropas.
raiz do céu,
te batizo: maio!
mas, será
este grande arroto do tudo
trancado em estreita garganta,
tosse, tosse
queria descascá-lo, em fatias
(como a maçã engolida há dias
entalada na metade do caminho
saiu com uma pá, afiada
cravada fundo na goela aberta)
os pulsos dormentes
pulsando, inertes
sob a fúria fria de tantos tumores familiares
humores familiares
quase afagam por dentro, cosquinha -
ébrio, mas faltam tesouras
que rasgar pêlos e cabelos
furar a grossa bolha de pele morta e
ossadas de mentiras velhas
presas entre a gengiva e o dente
tosse, tosse
pulsos medrosos, bananas
jamais levantam um dedo sequer
para puxar fora
o sangue coagulado
a ramela dos olhos
o cuspe no canto dos lábios
os cabelos, embolados, na boca do ralo.
a maçã
faz falta
teus quadris são círculos
que sempre voltam, girando girando
giros de tontura e eu quase perco o chão com teus quadris
que sempre voltam.
meus lábios embaçados
amo lábios
meus lábios míopes só estão em casa quando pousam em ti.
chovia canivetes - imagine o som metálico da chuva
canivetes abertos, era uma tempestade de perigo.
teus lábios magnéticos
assassinos
me prendiam enquanto minhas roupas gelavam
tua cintura invadia meu abraço frouxo
um prazer confuso
cheio de vertigens e mundos rodando, rebentando
e quando beijávamos então,
o céu se abria, e desabava um rio, e era um fluxo contínuo de brinquedos de plástico se arrebentando no chão com um som ensurdecedor
as bonecas, os triciclos e os caminhõezinhos se partiam, uma cascata de infãncia rompida
sempre que eu te beijava para mim o céu se abria, e quanto mais longos os beijos mais daquela torrente de brinquedos rebentados me invadia,
te beijar tinha essa virtude perversa de destruição.
facas e
facas, e facas
e facas duras
como machadadas voam em tempestade sobre os cabelos
e os gestos, animal encurralado, furtivo,
os olhos tristes dizendo tanto -
mas da boca nada, só rugidos.
e por detrás de mechas de cabelo escorrido na chuva de lâminas
pedaços de mim voam, ao meu redor, turbilhão de perfume
cortes de tesoura nos dedos
cortes redondos, sangue escorrendo
facas e facas
eu disse, eu disse
eu já sabia.
mundo mundo, vasto mundo, de tropeços!
coberto da neblina fria, cobertor molhado que puxe e repuxe a pele, textura ruim de podridão - e quantos dias demorará no sol secando, minhas roupas, minhas gripes e minhas belas desculpas para não sair de casa - me envolvendo, sólido envelope de inércia
a foice corta como navalha
e os cortes jorram sangue quente
mas palavras são mais cortantes
cortam como o jorro frio que me rasgou as carnes em meio às lonjuras indecisas do monte Mundo, quando entreguei aos outros meu destino, que decidissem minha sorte em suas conversas de pescador - mas, por favor, continuem me gritando! eu exclamo, rezando que essas rédeas frouxas me levem aos meus caminhos mais-amados, enquanto meus moles pés de barro mal e mal atrevem escorregões na lama, e sou quase um filho de poças paradas, mais um mosquito esperneando fútil, cuspe boiando sem fé,
e engolia pedras
engolir um não-quero, não-quero-não-quero!
mas minha alma é minúscula. e não comporta delírios inveros
e então abriram-se as bocas como portas e portões, abriram estoirando feito represas, e não quero saber das cidades devastadas nem dos fogos e do futuro incerto, quanto mais as águas lavando as casas em seu desfile mórbido, arrastando cadáveres e cinzas vulcânicas - quantas erupções não houve neste peito ferido! - ah, que tudo se vá..
os braços se estendem como os mastros de um navio, e o cordame teso, e os anos de trabalho que foram gastos em realizar tudo aquilo - para só um rochedo insultuoso m'afundar? jamais.
há que correr muito
porque moles nuvens me escapam da boca como baba, e meus bocejos lentos convidam nublagens a s'apossarem de todas as almas -
minha alma minúscula! que nela nem cabem tantos nãos não-ditos.
sou tão pequeno!
aquelas palavras pesadas, imensas,
palavras de imensidão e como um colosso que engulo de uma vez só,
me sinto primo de cobras e crocodilos, estirado no gramado digerindo tanto mil vezes maior do que meus pobres laços e sentimentos finitos,
me esmaga, me esmaga, sou atropelado por algo de tão imenso que ah, fiquei para trás, selado neste envelope de névoa e desgaste, nesta teia de fofocas tortas entupindo meus olhos;
palavras e nem sei o que estão dizendo,
mas ah! sou maior por ser pequeno,
porque então as dores nem cabem em mim, e estoiram ao meu redor como perfume!
e se vais jogar em mim teus mísseis de dor eu me esquivo, eu sou somente um leve grão de areia e nada me pode atingir, meus castelos de areia que construirei quando a poeira baixar, ah, nada passará, porque minhas lágrimas de cimento servem a unir tudo como cola, e montarei bibelôs em cima de todas as mentiras que vomitam..
há que escorrer muito
sobre peles alvas, a vida lenta como uma lágrima ou uma gota de suor, nem se sabe qual é qual, lenta escorre sobre as faces, bochechas carnudas sedentas de beijos,
seca vida de pudores secos
afogada em cobertores de tédio e nada..
mas tudo isto devaneios tolos que me permitam falar, como queria falar,
preciso chorar lágrimas sem água,
lágrimas secas, feitas de osso e cinza,
feitas de lamúrias sonhadas,
preciso chorar sonhos
minhas lágrimas de sonho, e berros oníricos me voam dos lábios aos ares, como cânticos
porque faltam-me os dentes afiados para morder e chorar na carne -
banguela, choro poemas.
que aterrisem em ti como gotas pousam n'água, feito um balde de amores, desenhando bocas ou ventosas que agarrem em teu corpo nu, te amarrem aos meus quereres infindos, armadilhas -
quando um dia inda hás de sorrir, prisioneira.
ares febris de cão
e gravar os dentes em teu travesseiro
rasgar lençóis, abocanhando
latindo
só um rubor doce te invade,
mil
sonhei despir teus olhos bambos
de tanta frieza -
acordo trêmulo, os dentes secos
o gosto amargo dos teus resfriados fingidos,
quando te finges distante
não -
só posso chamar-me canino
farejando pistas
mastigando meias
ganindo
minhas brutas patas beliscam
até decorar teus contornos
correr meu focinho em teus grãos de beijo
e trair tuas mordidas;
só posso chamar-me canino.
cortava papel como cortava vida
rompia,
a tesoura um barulho gostoso
em linhas nunca retas
escorregando, ávida
partindo elos e ligamentos
em muitos;
vulcão de pó
muitos,
e um tapete de recortes
pedaços de vida, palavras
memórias embaralhadas, amontoadas
um labirinto e
a cada lance de dados, o sorteio
uma nova frase se alinhava às já muitas
espontâneas
passageiras
desmoronando ao mínimo sopro de vento
voa papel,
voa e
leva embora a expressão confusa
do meu amor passado
rodopiando, leve folha de outono
perambulando nos aires
que se dobra e suja,
se borra
diz outra coisa
voa
adeus março
águas de março
de chuvas de lágrimas
em torrentes inundando tudo
e os bueiros engasgados
de tanto engolir mentiras
vão-se revirando, mordazes;
e em meio às enchentes
e enxurradas velozes
que nos arrastam para o longe, cortando laços
e levam embora cachorros, casas, pessoas
para nunca mais ver;
lá do fundo
das profundezas das ruas-rios
e do oco destes estômagos citadinos,
sobem bolhas
sobem balões de ar, jorrando do encanamento
verdades ocultas por tanto
e pipocam na superfície - já é difícil navegar
em meio a tantas ondas instáveis
e detritos boiando, esbarrando
essa montanha-russa que invadiu o cotidiano -
( mas eu e
mergulhos furtivos no escuro,
aproveitar a piscina gigante, bem-vinda
em meio à destruição )
águas de março
e outono
as folhas secam e caem
abrindo espaço à primavera
bah,
e quem m'importa com estas lágrimas falsas
lágrimas vendidas que comprei de outros
quem m'importa com os esgares que fizer
e as dores que sentir, à noite
sozinho no escuro
quando me encolher de frio e agarrar os lençóis
agonia fraca
tão previsível - quem m'importa
e minha vida não passa da fofoca mais óbvia de revista
essa história de folhetim
escrita antes mesmo de ser vivida, quando então
meus pés já andam rumos pré-traçados
e cambaleio previsível;
e meu desinteresse por tudo
quando chego à noite e nunca grito que estou vivo
grito muito o 'enfim!' da pressa
os dias escorrem lentos, como a baba que me escorre dos lábios
falta-me o tempo! tudo corrido e lento
porque nem sou eu a guiar, não,
os rumos dos outros, destino dos outros, que dor sentir-se assim
mero joguete de vontades mundanas, gerais
clichê-humano, seguindo dores pré-concebidas
da massa,
não conseguir sentir-se real, verdadeiro
se sobram maneiras de expressar o que vem
ah! que irritação, de não me faltarem palavras para descrever
este tantinho,
cada vez mais minúsculo
pois que tão na boca mastigada do povo
um dia, volto a ser meu
cálice
passe tudo,
passe carteira, celular, relógio, dinheiro, cartões, tudo
esse buraco de vida, esse furo, goteira no encanamento do mundo
algo se perdeu ali
como um ralo
eu era vento, mas era sonho
se escorria dentre tais valas de mortos, trincheiras duma guerra nunca travada, empilhando velhos
um furo, uma goteira, rachadura na barriga,
como ter rasgadas as tripas, sentir-se um saco de órgãos furado, e eles caindo todos por todos os lados, nem dor mas este vazio, este oco interno
sou um caixão de gente, tronco seco sem vida
o antigo interior gordo de lembrança e tudo em quanto pudesse pôr as mãos
apodrecera, bichara,
talvez por infecção externa, infecção bondosa, novo parasita
que ora se insere lentamente para dentro,
este terror de sentir-se mero casulo, mero cálice
onde os líqüidos se derramam, onde passam as vidas sendo bebidas por gigantes imensos que jamais vi nem verei
passado de mão em mão, cálice, até quebrar
este terror entre os goles,
quando um esbarrão tímido com a ponta das unhas ou mesmo no garfo ou no anel
faz o cristal tilintar
e sou uma redoma de vidro em dor,
uma estufa crescendo meus fungos internos, minhas florestas; cálice sujo
notar-se vidro: ouvir seu próprio som por cima do burburinho do líqüido nadando
tilintar seco tão assustador, que nos mostra vazio
em seu tom
meu nome é cálice
cale-se
por que
ela perguntava
por que
não há porques.
vida maior do que todas as fumaças fracas que nos escapam d'entre os lábios,
como no esforço frágil que fazemos, tolamente, em segurar mentiras -
mas elas voam como moscas sopradas ao vento
por que
ela perguntava
por que
não há porques.
há dor e a correnteza gigante da vida
arrastando tudo que há em seu caminho para o longe, para os longes
como uma boca gigante abrindo-se no horizonte e engolindo meus sonhos,
pelos cabelos, carrapato cósmico enredado em meu couro cabeludo de idéias
a sugar meu sangue e meus pensamentos: titã gigantesco
a puxar-me como fios minha memória, em dor
querendo tragar-me em seu buraco negro tão profundo
por que
ela perguntava
por que
e não há porques.
como uma faca, uma lâmina, uma gilete suicida a cortar os olhos alheios
cortar os olhos como ovos
agarrar o dia pelos cabelos
e gritar-lhe em face:
eu te amo! e estou vivo
vivo como um câncer
a te roubar os doces suspiros
e a sangrar-te - e eu só vivo
é do doce néctar que derramas
quando mordo e cuspo:
sou humano,
imponho-me eterno, impossível
carne poluidora de rios
sanguessuga das almas do mundo;
quando choro,
é porque a sua dor
de traído
de falsário, vingativo
dói em mim.
eu jamais doí,
eu jamais me arrependi:
sou eterno servente dos meus desígnios
dia: anjo solene dos meus pesadelos
amazonas puro, cativas-me pela ordem
imperas em ser a mágoa mais querida do panteão.
homem ao mar
"para onde correr, ao navio ou à praia?"
o outro encolhe ombros, resmunga qualquer coisa,
vira-se de costas.
o primeiro prossegue sua litania
como se ritmando o martelar do coração
palavras vãs reconfortando o silêncio impossível
de espera da chuva passar.
"quem sabe, devia meus últimos fôlegos
a alcançar a lisa popa
cheia de cracas e a escada de corda
que me salvar do mar revolto;
ou a distância já é tamanha
que meu rumo certo é mesmo o leste
sozinho, eu e meus braços,
para a costa estranha (e seca)?"
a chuva cai sobre ambos
mas enquanto um, indeciso
argumenta extenso sobre tudo e nada;
o outro, quieto, infinito
ocupa-se em secar as meias.
os dois atendem pelo mesmo nome
e conhecem a mesma resposta:
só quando a chuva parar.
enquanto isso, o barco vagueia nos pertos
e os braços vão cansando:
a chuva já vai parar
(de agosto)
olhar as cataratas e pensar 'sede' vontade de bebê-las inteiras andorinhas surfavam no ar revolto semi-nuvem dormindo embrenhadas no som mais ecoante uma rave de aves unidas em negro cacho ou colméia de pássaros molhados neste ponto em que o som se acumulava mais infinito ali deviam ser atravessadas pela alma da catarata, e aprender a voar
rasgo
minha voz
s'apertando, emburrada
muito se muito me maldizendo
de não voar mais em veloz
vestida de brancos
toda fantasma, pálida
quando subia da boca
nos grandes tempos
do frio que m'apertava o coração;
minha voz
pertada, ah tristura
de nem mais saber, esquecida
dos lábios molhados
garrando, a beijos ligeiros
tanta fumaça falsa
que floreasse no ar, à frente, bela
sujando narinas torcidas
tosses cinzas e muita solidão;
minha voz
que já se grita, enferma
endiabrada
por tantas idéias falsárias
quando em tudo
queria gritar eu te amo
deitar debaixo da árvore
da ponte, da vida
m'apaixonar mil vezes em novo
dizer não! não mesmo
a frio, a cigarro,
à massaroca de mentiras duras
em embrulho de mistério lindo
e vago
que enterrei debaixo do travesseiro
mas já nem reconheço minha cama
que deito e sonho ais! a noite inteira
voz,
que nem é minha
me assalta a cozinha, súbita
onde jamais esperei crimes;
te denuncio
solitária,
infeliz,
esquecer-te num dia qualquer
cortar-te fora, rasgar-te
preferia ser mudo a te ter tão traidora e
sombria.
quando nasci
nu
engatinhando leve e
encharcado de frio
com a torrente azul sobre minhas faces
que nem sabia respirar
enxertado numa nuvem viva
quando fugi, em quatro patas
do cone de luz e água
do poço de verde e nada
meus pulmões marinhos
meus dedos de lama
eu engolia azul e fumaça
fantasma
e me vestia de aires crus
lavado dos pés à alma
meus olhos lacrimosos,
meus cortes nos pés,
minha vida,
tudo: enxugado embora
daí então, recém-nascido
pousava os dedos no mundo
gritando: vida!
sou um grão de areia que geme: vida!
se vou dormir
por milimuitos
anos,
eras,
hibernando como gelo
e minhas marcas
ocultas
sós e atrofiadas;
nascer do sol, extravagante
como um vômito de delícias
zomba de curativos
e irrompe
sua luz traiçoeira
no rasgo que me lambe de face a face
e me denuncia: moribundo!
bastou simples clarão
para saber
da morte certa (tão adiada)
ou encontrei,
nestes meus sonhos
linha e agulha
que suturar?
ven-daval
vem, vestido em negro
e fumaça
vaga, confusamente
nos redores, e tudo é campo minado.
ranca telhas
roupas
mentiras, olhares enviesados:
não! só resta então
nudez crua do vento
do tempo que nem passou
daquele furo,
rachado, crescente
no finíssimo globo de vidro
que me cercava toda vida
toda ela.
vento
que me rouba o cristal da mão
e o faz espatifar ;
ou vento que cessa
(mas que então
e o buraco?)
nariz em riste
leme de navio
arriva, singrando aires
herói mítico, místico
invencível hoje
noite de glória e tudo mais.
membros profundos
esguios
feitos de branco e sal;
corpo desnudo
de guerra e cicatriz;
pousando suas patas afoitas
suas botas de mil-distância
seus cabelos nórdicos,
bárbaro,
sobre aldeia de areia e lentidão.
lar,
doce ar
torres (ainda rascunho)
quando em lamber as línguas divinas
que os deuses do vento sabiam dançar a nossos redores
meus membros de vela sonhavam-me outro: navio,
estalando inteiro em rangidos de cordame
sob a avidez súbita da vida em me ter;
e lançavam-me no longe, no infinito
embebido nos hálitos do mundo, pipa humana
úmido dos orvalhos da saliva aérea
que se me agarrava nestes cabelos esparsos
- atirados em formato de sol -
pelo topo de um monte chamado universo;
Eu me sabia antena telúrica, pétrea
do espasmo límpido de ondas e ondas de
cavalos alados preenchendo as bordas do céu,
e singrava mares de cor e aurora:
Saúdo-te, mundo tímido
que me vislumbre em duas minutas de tempo
e passe ligeiro, rumo a teus muitos reinos que conquistar.
Sonhava, os teus lábios massivos de fogo
em beijos largos aos azuis celestes de paixão;
as tuas faces enrubescidas de nuvem,
e risadas gratas descorridas na onipresença
por sobre neves roxas que me acordavam feito adeus.
Desfalecente em teu leito duro hostil
enrolava-me sereno, nos grossos cobertores
dessa abóboda radiante ou purpúrea
pátria efêmera de mil biologias gasosas;
e meu próprio hálito, intermitente
tanto pairava por sobre as vestes
como um fumo raro, fantasma bem-vindo
alertando-me dos preços gelados; meus olhos vazios
dardejados de lágrimas, estupefactos
como feras famintas a espreitar
flutuavam, impossíveis divagantes
deitando-me em colchões de nada
que apertar-me o peito, que abraçar-me
alheios às investidas pesadas do chão,
e soluçavam: Vento! deus da paisagem,
que quase perco, nas indistâncias findas
sem pó que te me fizesse sólido:
Lambe-me como se eu tivesse gosto
de vida, de simples existo, humildemente
lamber minha língua,
a roubar-te inteiro em meus pulmões de furto
encarcerar-te, nestas prisões ligeiras que sufoquem
que me fazem tua carne, Imensíssimo
no enxertar-me pelos teus braços largos
fazendo parte o meu próprio peito
dos teus membros infindos de tornado
ao respirar do teu vasto sangue, e eu borbulho
espumo como se, líqüido, pudesse tornar-te
mais Humano! e neste oceano
de cumes e áridos, colossos, ruínas
minha alma repousa, pesada deriva
poluindo possessa, com tantas palavras,
a tudo! doravante lembrado,
pisado ou rasgado: Lembrança! é teu nome.
E se me manchas a pele, me desenhas o rosto
marcando-me eternamente gasoso
com teus choros de espuma, teus cuspes, teus cortes
de que bebo ávido - perversamente incrustrado
como intruso, neste desfile febril -
navego altivo, Espelho inviável
da glória ímpar que me desferes
do brilho que me irrompes às bocas
em elas mesmas engolirem-te em recitais;
e se me tapas os ouvidos, arroganteante
com teus murmúrios lúgubres de espectro vago:
valho-me então de nomes, lançando-os a esmo
como espadas, em leque, a te louvar
fósforos acendem e apagam
no escuro
mergulhos em pântanos
estrelas cadentes me desejam, intermináveis
em noites de nunca
o céu sabe desenhar em meus olhos
lábios travestidos dum neruda
como batom castelhado, poe-ta
e as árvores chovem feitiços
e nao posso mais fumar
hoje é sempre e nunca, para tantos dias que nem já conto
descer num labirinto de diários e memórias inventadas
meu navio de planos
meu leve aeroplano
que voar por dentre as coxas sensuais
do mundo
quanto falta
a agarrar nas âncoras firmes e inertes
rio de janeiro?
no escuro
mergulhos em pântanos
estrelas cadentes me desejam, intermináveis
em noites de nunca
o céu sabe desenhar em meus olhos
lábios travestidos dum neruda
como batom castelhado, poe-ta
e as árvores chovem feitiços
e nao posso mais fumar
hoje é sempre e nunca, para tantos dias que nem já conto
descer num labirinto de diários e memórias inventadas
meu navio de planos
meu leve aeroplano
que voar por dentre as coxas sensuais
do mundo
quanto falta
a agarrar nas âncoras firmes e inertes
rio de janeiro?
desjejum
fim das datas
das dívidas
e dos cadarços desamarrados.
prazos expirando - não mais!
como uma bola de ferro
presidiário
camisa listada
preto e branco - não mais!
vira a última folha,
o marcador de páginas
no lixo
agenda volumosa, pesada
no lixo
enrolar-se em lençóis novos
com gostinho gelados
repiando os pêlos e
preguiçando até o dedão do pé
inaugurar diários novos
abrir a lata metálica com rótulo engraçado
de idéias novas e frescas,
guloseimas doces de desjejum.
fim das marcas
das cicatrizes
e do passado.
despedida sem título
inda me vem, como presságio
brotando daninha, por entre lacunas de pensamento
até florescer lacrimosa pelos olhos -
sabedoria límpida e vasta
da tempestade que virá.
o mais da dor,
prenúncio de saudades
do saber-se chegando em fins
tão talvez tão voluntários...
ah,
brotando daninha, por entre lacunas de pensamento
até florescer lacrimosa pelos olhos -
sabedoria límpida e vasta
da tempestade que virá.
o mais da dor,
prenúncio de saudades
do saber-se chegando em fins
tão talvez tão voluntários...
ah,
passeando as palmas das mãos
sobre mesas e paredes
deste lugar óbvio e freqüente
sobre mesas e paredes
deste lugar óbvio e freqüente
deste aqui tão natural, tão doce lar
mas que não voltará.
o tato, e a textura, e a temperatura e o som oco
os cheiros tolos e os detalhes
o rangido da maçaneta
o ventilador que não funcionava
os canais que a tv não pega
e uma partida sempre adiável
pesando, no estômago.
esmaga de medo e de
tempo decantado:
como largar-se a um futuro de menos e de vazio?
só uma espreita, aposta fraca
d'um dia inda vier outra colheita
que vingue em algo tanta lembrança insaciável
que alimentasse esta fome de sabor.
os punhos se fecham, ávidos
e, rígido, o corpo indeciso
se fosse mágico partiria
em dois amálgamas
o tato, e a textura, e a temperatura e o som oco
os cheiros tolos e os detalhes
o rangido da maçaneta
o ventilador que não funcionava
os canais que a tv não pega
e uma partida sempre adiável
pesando, no estômago.
esmaga de medo e de
tempo decantado:
como largar-se a um futuro de menos e de vazio?
só uma espreita, aposta fraca
d'um dia inda vier outra colheita
que vingue em algo tanta lembrança insaciável
que alimentasse esta fome de sabor.
os punhos se fecham, ávidos
e, rígido, o corpo indeciso
se fosse mágico partiria
em dois amálgamas
em duas vidas paralelas
em duas almas
ah, se n'um dia desespero, irreverente
pronto a atear fogo à morada;
no outro, dócil,
prevejo minha sorte desgraçada,
e me adio infeliz.
ah, se n'um dia desespero, irreverente
pronto a atear fogo à morada;
no outro, dócil,
prevejo minha sorte desgraçada,
e me adio infeliz.
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