no espelho alguém me olhou mas, as cores estavam de ponta-cabeça

maio e
nada fazendo sentido.
como tinta descascando,
cobras trocando de pele
(mas na verdade são tantas
cabelos de medusa
cabeças de hidra)
sinto-me rachando
como, esfacelando
torrões de areia se desmancham sob água
e me construo
de mil tijolos
sem cimento no meio

mas faltam pedaços, está tudo esburacado

agarrar a rua para engolir cigarros, mas não bastava, as falas me invadirão e blasfemarão sobre a tessitura implícita linda de tapete mágico que ora constitui meus órgãos internos, intestinos e, boca fechada rija de prazer intenso em não-ser, agarrar a rua para fugir desta transição horrível, entortar minhas coordenadas geográficas para dizer: não foi na mesma estada aqui em que eu fui tanto carne quanto som, eu saí no entreato para voltar outro, para poder dizer que não sou o mesmo no mesmo rio inmesmado: saí correndo, preencher-me de cansaço, secura na boca e dor nos pés: preencher a existência com carne - não me agüentaria vestido de vidro e espelhos, de ilusão aérea, de sonho
via estrelas com os olhos e os pulmões apertados cantavam seus nomes, que olhos? nem havia mais imagem só car-ne-cor-po
e me vinham ventos de contrário, ventos de não-existência de ponta-cabeça, e como ser novamente parido - uma parte de cada vez, ondas de renascimento ininterruptas e mim: como um código de barras, holograma falhado no estar-ali; 'estar'? nem era verbo existir, nem era verbo: minhas lacunas onde a música berrava mais forte do que o verbo ser
eu sentia-me lavado
como o mergulho na imensa cachoeira do centro do mundo, quando me despi de todas minhas vidas e mandei os atavismos e neuroses à merda, quando mergulhei naquela água impossívelmente mortal que queria me cortar em tantas tiras quanto os traumas e resmungos de frio, quando lancei toda minha existência ao sabor da sorte e sobrevivi - e sobrevivi - eu saí limpo, verdadeiramente mais nu do que quando mergulhei sem roupas
e antes a vida passava diante dos olhos como um tédio vago, melancólico, querendo me vender clichês de vida - como isto fazia parte! mas adiante, por tantos anos eu não era mais corpo ou mundo mas só sonho - e o fim: encarnar como um tijolo cai do topo dos prédios podendo matar por engano
meus dedos meus braços dormentes esticados contraídos espasmos
agarrando um cano de ferro por perto com todas as forças que tinha o suor nas minhas mãos eu era este punho fechado como uma âncora no aqui e ondas e ondas meu corpo não era solo era Mar porque vinha em levas em levas como ondas batendo na praia eu era as ondas a sensação de ser ondas a verdade de existir me atravessando minha alma vento sobre a paisagem a planície o trigal e os ramos balançando em meus pêlos escritos naquela escrita eólica, o som me vasculhava com sua pesada língua distribuindo explosões de gosto e umidade, abalos sísmicos nos meus eus-tectônicos: ser-se em vagas, vagas, existir como um movimento descomunal, existir mas sem-querer, subi numa locomotiva de música que gira gira gira me leva para tão longe como uma roda da fortuna sem-querer e me faz ser-me menos, obrigado, posso enfim desfazer-me, feliz
A linguagem é um laboratório. Misturo palavras e profiro frases avaliando seu gosto, peso e a maneira pela qual reagem com minha opinião.

Como um cientista e seus aparelhos, experimento, regulando minuciosamente língua e cordas vocais. Sintetizo novos compostos, refino-os em seus elementos puros: encontrar a fórmula perfeita de sua enunciação.
é como se
na verdade
fossem dois
mas não parece

pego uma fruta
bem madura
sugo o doce miolo
deixo-a oca

vamos morar lá dentro.
e, no centro de tudo,
cachoeiras de lábios
como magia
uma pedra de rins
um caroço preso na digestão
uma bola de caranguejos esperneando entre os pulmões
um átomo radioativo engolido por engano
enorme coluna dórica instalada entre os músculos
fazendo força por sair
insistindo por uma existência impossível -
sonhos estropiados
com tantas pernas e braços
e bases da biologia submarina das fendas abissais
com sua luz incerta
berrando, a fachos largos
não! não! não!

corpo de soluços e convulsões
e algo dentro
embaralhar as palavras dos outros
sorrir, irônico
isto nem parece meu
nem sei o que isto quer dizer
- não estou preocupado.
transpirando à vontade
levanto a tampa
do pote de plástico
e banho os cabelos
negros

corpo descartável
sem dono
estoira como uma seta
- você não faz mais o barulho gostoso
quando entra em casa como um marido bêbedo
que bate nos filhos e beija a mulher,
nem ronrona como um carro virando a esquina
brusco,
insone,
engolindo os minutos como bolas de papel amassadas
entaladas no meio da voz
crescem em mim
dentes
de morder batom

checo a lista de quartos que estalam quando se entra:
equivo-os, todos

a porta de casa tem um cheiro esticado
de dias de meio de mês.
ela murmura, sorrindo
onde vais, tão cedo?

reconheço as pernas douradas da rua
e beijo a porta até sair sangue
sangue cheiroso
com o cheiro da tv rezando
por suas muletas de bronze
que carregam o hoje para o inferno

roubar tijolos do apartamento de bonecas
onde o almoço é comido pelas moscas

um ônibus ocupado
sendo uma Ferrari
cospe nos meus pés

meu prazer se confirma
numa garrafa pegando fogo
e o óleo diesel dos teus cabelos
estou fungando extasiado

dou grama ao mágico
pinto-me de rosa
torturo meu colchão
com lágrimas de vidro
sonhei: meu corpo evaporava
a sensação de evaporar, hmmmm!
como sentir-se namoricando moléculas
e outros termos químicos físicos científicos
o gosto dos segundos na boca
minha pele indo na frente com o vento
e todo meu corpo uma estação de trem
última chamada! última chamada!
mas a boca se mexia muito
incomodada, remoendo
cerrada: os segundos presos entre os dentes
membranas tapando as trocas de tempo
as novas datas a entrar e sair
as novas horas
minha boca de relógios quebrados
sempre com a mesma história, o mesmo minuto
meu corpo evaporava e gritava hmmm!
os poros exclamando como mil boquinhas
e meu coração numa panela
cozinhando
uma erupção de cartões postais
da terra do alfabeto
"Às vezes me canso de tanto deliberar sobre 'nada' (como diria o mundo); tento então, num sobressalto, como um afogado que toca com o calcanhar o solo marinho, voltar a uma decisão espontânea (a espontaneidade: grande sonho: paraíso, poder, gozo): pois bem; telefone-lhe, já que você está com vontade! Mas o recurso é vão"
minha cabeça tem como amores platônicos
por se ver linguajeada em papel
mas bem sabe, a afoita,
que pousar em carne lêtrica
envolve dores e desastres.
quem nunca viu dois amantes de amor cego
ao abrirem seus olhos
piscarem duas, quatro, sessenta vezes?
só mesmo a mão,
traiçoeira,
e os braços,
arrebitados,
podem insistir nesta cascata exuberante
no bailado das palavras para a vida
na escrita final sobre folhas de mundo
desenhar destinos na face alheia
frases-beijos numa branca face.
só mesmo o corpo
é forte o bastante
para dançar
um crime e
luto pela imaginação
luto

lição infinita
os naufrágios devem ser impetuosos
certeiros; não deve sobrar destroços bóias
remos ou esperanças e fantasias de 'terra, um dia'
terra, é sempre miragem

esquecer tudo e afundar, límpido
o real é o de menos
viva a realidade onírica do mar
entrincheirar-nos em palavras
lançar, atirar, jogar granadas uns nos outros
desenhar nos rostos ou pulsos trombetas
fantasia de muito-além
e nada mais.

o final do filme
do show de striptease
ou da porra da vida
não interessa
o rumor da escrita sussurra
é noite
teclas vibram sob o impacto límpido de dedos leves
eu sonho

aires calmos me ocorrem como lâmpadas brilhando
estilhaçando vazias
em becos escuros
e seu ar de tudo preenche o branco branco do dia que foi

serena mão da noite
me afaga, lenta

maio

mas é claro que já não restam aviões!
comemo-los todos, no café.
e o céu vazio de aerófilos se distrai pensando:
por que não acordar as gentes a baldes d'água?
já é tarde - o sol se cansa de vomitar luz nessas tuas caras.

eu me vesti com galhos e penas,
enorme lança-chamas de fúria e erros -
desafiei as esquinas a me mostrarem com quantos leques de seda se constrói o moinho que gire, que gire que gire,
mas faltavam-me as engrenagens tortas que moer tantos lances de dados enviesados, caindo de quatro sob um destino falso:
e debaixo de uma chuva de folhas o outono se abriu.

eu me escondo atrás de arpões e navios
e toda uma enciclopédia de deuses marinhos
pronto a começar a moldar meu exército de argila
que esguichará dos ralos dos banheiros
e dos buracos das fechaduras (trancadas);
invadir as casas mais infelizas e cantá-las todas:
- fim da era do pão e do fósforo!

jamais saberemos de novo a arte divina de lamber os lábios de crocodilo que ocupam a própria alma destes embrulhos de celofane que me cercam, ditas pes-soas!
tempestadeando como mosquitas ou cerejos caindo em profusão -
mas eu era apenas um menino
no alvorecer de maio, borbulhante
e minhas mãos dedilhavam rolos de papel higiênico
com que cobrir o teto de suas igrejas de ópio
e deitar-lhes ébrios num abrigo ácido de doces e
enguias verdadeiras rastejando dentro de las ropas.

raiz do céu,
te batizo: maio!
oi meu nome é janelas de vidro eu sou um pássaro boiando em céu farto de cores e azul me transborda pelos olhos quem sabe um dia não fui eu algo mais que esta vontade de espreguiçar-me como uma nuvem desenha labirintos de branco e algodão no horizonte
despejo aqui muitos desvios escondidos por acaso
abril, um turbilhão
deito orelhas num rio
deixo as águas contarem
estórias turvas.
remoinho e bolhas e bolhas de ar
peixinhos e seixos e algas do mar -
deito orelhas num rio
sou água e nado numa
estória turva.
mas, será
este grande arroto do tudo
trancado em estreita garganta,
tosse, tosse
queria descascá-lo, em fatias
(como a maçã engolida há dias
entalada na metade do caminho
saiu com uma pá, afiada
cravada fundo na goela aberta)
os pulsos dormentes
pulsando, inertes
sob a fúria fria de tantos tumores familiares
humores familiares
quase afagam por dentro, cosquinha -
ébrio, mas faltam tesouras
que rasgar pêlos e cabelos
furar a grossa bolha de pele morta e
ossadas de mentiras velhas
presas entre a gengiva e o dente
tosse, tosse
pulsos medrosos, bananas
jamais levantam um dedo sequer
para puxar fora
o sangue coagulado
a ramela dos olhos
o cuspe no canto dos lábios
os cabelos, embolados, na boca do ralo.

a maçã
faz falta
abro a caixa do correio
todas as cartas começam com a mesma frase:
o mundo foi adiado, ele não vem hoje
adiado sem data definida,
ele foi para longe.

que fazer
da espera silenciosa
d'um amanhã tão incerto?

que fazer - com o viver
porque sempre há um amanhã
chegando atrasado.
teus quadris são círculos
que sempre voltam, girando girando
giros de tontura e eu quase perco o chão com teus quadris
que sempre voltam.
meus lábios embaçados
amo lábios
meus lábios míopes só estão em casa quando pousam em ti.
chovia canivetes - imagine o som metálico da chuva
canivetes abertos, era uma tempestade de perigo.
teus lábios magnéticos
assassinos
me prendiam enquanto minhas roupas gelavam
tua cintura invadia meu abraço frouxo
um prazer confuso
cheio de vertigens e mundos rodando, rebentando
e quando beijávamos então,
o céu se abria, e desabava um rio, e era um fluxo contínuo de brinquedos de plástico se arrebentando no chão com um som ensurdecedor
as bonecas, os triciclos e os caminhõezinhos se partiam, uma cascata de infãncia rompida
sempre que eu te beijava para mim o céu se abria, e quanto mais longos os beijos mais daquela torrente de brinquedos rebentados me invadia,
te beijar tinha essa virtude perversa de destruição.
facas e
facas, e facas
e facas duras
como machadadas voam em tempestade sobre os cabelos
e os gestos, animal encurralado, furtivo,
os olhos tristes dizendo tanto -
mas da boca nada, só rugidos.
e por detrás de mechas de cabelo escorrido na chuva de lâminas
pedaços de mim voam, ao meu redor, turbilhão de perfume
cortes de tesoura nos dedos
cortes redondos, sangue escorrendo
facas e facas
eu disse, eu disse
eu já sabia.

mundo mundo, vasto mundo, de tropeços!
coberto da neblina fria, cobertor molhado que puxe e repuxe a pele, textura ruim de podridão - e quantos dias demorará no sol secando, minhas roupas, minhas gripes e minhas belas desculpas para não sair de casa - me envolvendo, sólido envelope de inércia

a foice corta como navalha
e os cortes jorram sangue quente
mas palavras são mais cortantes
cortam como o jorro frio que me rasgou as carnes em meio às lonjuras indecisas do monte Mundo, quando entreguei aos outros meu destino, que decidissem minha sorte em suas conversas de pescador - mas, por favor, continuem me gritando! eu exclamo, rezando que essas rédeas frouxas me levem aos meus caminhos mais-amados, enquanto meus moles pés de barro mal e mal atrevem escorregões na lama, e sou quase um filho de poças paradas, mais um mosquito esperneando fútil, cuspe boiando sem fé,

e engolia pedras
engolir um não-quero, não-quero-não-quero!
mas minha alma é minúscula. e não comporta delírios inveros
e então abriram-se as bocas como portas e portões, abriram estoirando feito represas, e não quero saber das cidades devastadas nem dos fogos e do futuro incerto, quanto mais as águas lavando as casas em seu desfile mórbido, arrastando cadáveres e cinzas vulcânicas - quantas erupções não houve neste peito ferido! - ah, que tudo se vá..
os braços se estendem como os mastros de um navio, e o cordame teso, e os anos de trabalho que foram gastos em realizar tudo aquilo - para só um rochedo insultuoso m'afundar? jamais.

há que correr muito
porque moles nuvens me escapam da boca como baba, e meus bocejos lentos convidam nublagens a s'apossarem de todas as almas -
minha alma minúscula! que nela nem cabem tantos nãos não-ditos.
sou tão pequeno!
aquelas palavras pesadas, imensas,
palavras de imensidão e como um colosso que engulo de uma vez só,
me sinto primo de cobras e crocodilos, estirado no gramado digerindo tanto mil vezes maior do que meus pobres laços e sentimentos finitos,
me esmaga, me esmaga, sou atropelado por algo de tão imenso que ah, fiquei para trás, selado neste envelope de névoa e desgaste, nesta teia de fofocas tortas entupindo meus olhos;
palavras e nem sei o que estão dizendo,
mas ah! sou maior por ser pequeno,
porque então as dores nem cabem em mim, e estoiram ao meu redor como perfume!
e se vais jogar em mim teus mísseis de dor eu me esquivo, eu sou somente um leve grão de areia e nada me pode atingir, meus castelos de areia que construirei quando a poeira baixar, ah, nada passará, porque minhas lágrimas de cimento servem a unir tudo como cola, e montarei bibelôs em cima de todas as mentiras que vomitam..

há que escorrer muito
sobre peles alvas, a vida lenta como uma lágrima ou uma gota de suor, nem se sabe qual é qual, lenta escorre sobre as faces, bochechas carnudas sedentas de beijos,
seca vida de pudores secos
afogada em cobertores de tédio e nada..

mas tudo isto devaneios tolos que me permitam falar, como queria falar,
preciso chorar lágrimas sem água,
lágrimas secas, feitas de osso e cinza,
feitas de lamúrias sonhadas,
preciso chorar sonhos

minhas lágrimas de sonho, e berros oníricos me voam dos lábios aos ares, como cânticos
porque faltam-me os dentes afiados para morder e chorar na carne -
banguela, choro poemas.
que aterrisem em ti como gotas pousam n'água, feito um balde de amores, desenhando bocas ou ventosas que agarrem em teu corpo nu, te amarrem aos meus quereres infindos, armadilhas -
quando um dia inda hás de sorrir, prisioneira.
boca antiga,
pensei que lavava teus lábios
molhados e famintos

pernas brancas,
procurei no dicionário
quantos nomes já não tiveste

só encontro
rouquidão
ares febris de cão
e gravar os dentes em teu travesseiro
rasgar lençóis, abocanhando
latindo
só um rubor doce te invade,
mil
sonhei despir teus olhos bambos
de tanta frieza -
acordo trêmulo, os dentes secos
o gosto amargo dos teus resfriados fingidos,
quando te finges distante
não -
só posso chamar-me canino
farejando pistas
mastigando meias
ganindo
minhas brutas patas beliscam
até decorar teus contornos
correr meu focinho em teus grãos de beijo
e trair tuas mordidas;
só posso chamar-me canino.
cortava papel como cortava vida
rompia,
a tesoura um barulho gostoso
em linhas nunca retas
escorregando, ávida
partindo elos e ligamentos
em muitos;
vulcão de pó

muitos,
e um tapete de recortes
pedaços de vida, palavras
memórias embaralhadas, amontoadas
um labirinto e
a cada lance de dados, o sorteio
uma nova frase se alinhava às já muitas
espontâneas
passageiras
desmoronando ao mínimo sopro de vento

voa papel,
voa e
leva embora a expressão confusa
do meu amor passado
rodopiando, leve folha de outono
perambulando nos aires
que se dobra e suja,
se borra
diz outra coisa
voa
um deserto e
golpe rápido, certeiro
para fora do imaginário (tão batido, debatido)
será desaprovado por muitos, talvez
mas só este
findará o areal

inda hei de te ler
de novo

- para arthur
mas eu e
mergulhos furtivos no escuro
folha seca
na teia de aranha
trêmula
adeus março
águas de março
de chuvas de lágrimas
em torrentes inundando tudo
e os bueiros engasgados
de tanto engolir mentiras
vão-se revirando, mordazes;
e em meio às enchentes
e enxurradas velozes
que nos arrastam para o longe, cortando laços
e levam embora cachorros, casas, pessoas
para nunca mais ver;
lá do fundo
das profundezas das ruas-rios
e do oco destes estômagos citadinos,
sobem bolhas
sobem balões de ar, jorrando do encanamento
verdades ocultas por tanto
e pipocam na superfície - já é difícil navegar
em meio a tantas ondas instáveis
e detritos boiando, esbarrando
essa montanha-russa que invadiu o cotidiano -
( mas eu e
mergulhos furtivos no escuro,
aproveitar a piscina gigante, bem-vinda
em meio à destruição )
águas de março
e outono
as folhas secam e caem
abrindo espaço à primavera
bah,
e quem m'importa com estas lágrimas falsas
lágrimas vendidas que comprei de outros
quem m'importa com os esgares que fizer
e as dores que sentir, à noite
sozinho no escuro
quando me encolher de frio e agarrar os lençóis
agonia fraca
tão previsível - quem m'importa
e minha vida não passa da fofoca mais óbvia de revista
essa história de folhetim
escrita antes mesmo de ser vivida, quando então
meus pés já andam rumos pré-traçados
e cambaleio previsível;
e meu desinteresse por tudo
quando chego à noite e nunca grito que estou vivo
grito muito o 'enfim!' da pressa
os dias escorrem lentos, como a baba que me escorre dos lábios
falta-me o tempo! tudo corrido e lento
porque nem sou eu a guiar, não,
os rumos dos outros, destino dos outros, que dor sentir-se assim
mero joguete de vontades mundanas, gerais
clichê-humano, seguindo dores pré-concebidas
da massa,
não conseguir sentir-se real, verdadeiro
se sobram maneiras de expressar o que vem
ah! que irritação, de não me faltarem palavras para descrever
este tantinho,
cada vez mais minúsculo
pois que tão na boca mastigada do povo

um dia, volto a ser meu
teus lábios líqüidos, talvez doloridos
em que me banhar
minha linda fonte
este anarquìa está me doendo, não sei como
talvez algo aqui tenha morrido,
talvez deva abandoná-lo
me sinto vigiado pelos malditos leitores

cálice

passe tudo,
passe carteira, celular, relógio, dinheiro, cartões, tudo
esse buraco de vida, esse furo, goteira no encanamento do mundo
algo se perdeu ali
como um ralo
eu era vento, mas era sonho
se escorria dentre tais valas de mortos, trincheiras duma guerra nunca travada, empilhando velhos
um furo, uma goteira, rachadura na barriga,
como ter rasgadas as tripas, sentir-se um saco de órgãos furado, e eles caindo todos por todos os lados, nem dor mas este vazio, este oco interno
sou um caixão de gente, tronco seco sem vida
o antigo interior gordo de lembrança e tudo em quanto pudesse pôr as mãos
apodrecera, bichara,
talvez por infecção externa, infecção bondosa, novo parasita
que ora se insere lentamente para dentro,
este terror de sentir-se mero casulo, mero cálice
onde os líqüidos se derramam, onde passam as vidas sendo bebidas por gigantes imensos que jamais vi nem verei
passado de mão em mão, cálice, até quebrar
este terror entre os goles,
quando um esbarrão tímido com a ponta das unhas ou mesmo no garfo ou no anel
faz o cristal tilintar
e sou uma redoma de vidro em dor,
uma estufa crescendo meus fungos internos, minhas florestas; cálice sujo
notar-se vidro: ouvir seu próprio som por cima do burburinho do líqüido nadando
tilintar seco tão assustador, que nos mostra vazio
em seu tom
meu nome é cálice
cale-se
por que
ela perguntava
por que
não há porques.
vida maior do que todas as fumaças fracas que nos escapam d'entre os lábios,
como no esforço frágil que fazemos, tolamente, em segurar mentiras -
mas elas voam como moscas sopradas ao vento
por que
ela perguntava
por que
não há porques.
há dor e a correnteza gigante da vida
arrastando tudo que há em seu caminho para o longe, para os longes
como uma boca gigante abrindo-se no horizonte e engolindo meus sonhos,
pelos cabelos, carrapato cósmico enredado em meu couro cabeludo de idéias
a sugar meu sangue e meus pensamentos: titã gigantesco
a puxar-me como fios minha memória, em dor
querendo tragar-me em seu buraco negro tão profundo
por que
ela perguntava
por que
e não há porques.
como uma faca, uma lâmina, uma gilete suicida a cortar os olhos alheios
cortar os olhos como ovos
agarrar o dia pelos cabelos
e gritar-lhe em face:
eu te amo! e estou vivo
vivo como um câncer
a te roubar os doces suspiros
e a sangrar-te - e eu só vivo
é do doce néctar que derramas
quando mordo e cuspo:
sou humano,
imponho-me eterno, impossível
carne poluidora de rios
sanguessuga das almas do mundo;
quando choro,
é porque a sua dor
de traído
de falsário, vingativo
dói em mim.
eu jamais doí,
eu jamais me arrependi:
sou eterno servente dos meus desígnios
dia: anjo solene dos meus pesadelos
amazonas puro, cativas-me pela ordem
imperas em ser a mágoa mais querida do panteão.

homem ao mar

"para onde correr, ao navio ou à praia?"
o outro encolhe ombros, resmunga qualquer coisa,
vira-se de costas.
o primeiro prossegue sua litania
como se ritmando o martelar do coração
palavras vãs reconfortando o silêncio impossível
de espera da chuva passar.
"quem sabe, devia meus últimos fôlegos
a alcançar a lisa popa
cheia de cracas e a escada de corda
que me salvar do mar revolto;
ou a distância já é tamanha
que meu rumo certo é mesmo o leste
sozinho, eu e meus braços,
para a costa estranha (e seca)?"
a chuva cai sobre ambos
mas enquanto um, indeciso
argumenta extenso sobre tudo e nada;
o outro, quieto, infinito
ocupa-se em secar as meias.
os dois atendem pelo mesmo nome
e conhecem a mesma resposta:
só quando a chuva parar.

enquanto isso, o barco vagueia nos pertos
e os braços vão cansando:
a chuva já vai parar

(de agosto)

olhar as cataratas e pensar 'sede' vontade de bebê-las inteiras andorinhas surfavam no ar revolto semi-nuvem dormindo embrenhadas no som mais ecoante uma rave de aves unidas em negro cacho ou colméia de pássaros molhados neste ponto em que o som se acumulava mais infinito ali deviam ser atravessadas pela alma da catarata, e aprender a voar

rasgo

minha voz
s'apertando, emburrada
muito se muito me maldizendo
de não voar mais em veloz
vestida de brancos
toda fantasma, pálida
quando subia da boca
nos grandes tempos
do frio que m'apertava o coração;

minha voz
pertada, ah tristura
de nem mais saber, esquecida
dos lábios molhados
garrando, a beijos ligeiros
tanta fumaça falsa
que floreasse no ar, à frente, bela
sujando narinas torcidas
tosses cinzas e muita solidão;

minha voz
que já se grita, enferma
endiabrada
por tantas idéias falsárias
quando em tudo
queria gritar eu te amo
deitar debaixo da árvore
da ponte, da vida
m'apaixonar mil vezes em novo
dizer não! não mesmo
a frio, a cigarro,
à massaroca de mentiras duras
em embrulho de mistério lindo
e vago
que enterrei debaixo do travesseiro
mas já nem reconheço minha cama
que deito e sonho ais! a noite inteira

voz,
que nem é minha
me assalta a cozinha, súbita
onde jamais esperei crimes;
te denuncio
solitária,
infeliz,
esquecer-te num dia qualquer
cortar-te fora, rasgar-te
preferia ser mudo a te ter tão traidora e
sombria.
quando nasci
nu
engatinhando leve e
encharcado de frio
com a torrente azul sobre minhas faces
que nem sabia respirar
enxertado numa nuvem viva

quando fugi, em quatro patas
do cone de luz e água
do poço de verde e nada
meus pulmões marinhos
meus dedos de lama

eu engolia azul e fumaça
fantasma
e me vestia de aires crus

lavado dos pés à alma
meus olhos lacrimosos,
meus cortes nos pés,
minha vida,
tudo: enxugado embora

daí então, recém-nascido
pousava os dedos no mundo
gritando: vida!
sou um grão de areia que geme: vida!
se vou dormir
por milimuitos
anos,
eras,
hibernando como gelo
e minhas marcas
ocultas
sós e atrofiadas;
nascer do sol, extravagante
como um vômito de delícias
zomba de curativos
e irrompe
sua luz traiçoeira
no rasgo que me lambe de face a face
e me denuncia: moribundo!
bastou simples clarão
para saber
da morte certa (tão adiada)
ou encontrei,
nestes meus sonhos
linha e agulha
que suturar?
ven-daval
vem, vestido em negro
e fumaça
vaga, confusamente
nos redores, e tudo é campo minado.
ranca telhas
roupas
mentiras, olhares enviesados:
não! só resta então
nudez crua do vento
do tempo que nem passou
daquele furo,
rachado, crescente
no finíssimo globo de vidro
que me cercava toda vida
toda ela.
vento
que me rouba o cristal da mão
e o faz espatifar ;
ou vento que cessa
(mas que então
e o buraco?)
nariz em riste
leme de navio
arriva, singrando aires
herói mítico, místico
invencível hoje
noite de glória e tudo mais.
membros profundos
esguios
feitos de branco e sal;
corpo desnudo
de guerra e cicatriz;
pousando suas patas afoitas
suas botas de mil-distância
seus cabelos nórdicos,
bárbaro,
sobre aldeia de areia e lentidão.
lar,
doce ar

torres (ainda rascunho)

quando em lamber as línguas divinas
que os deuses do vento sabiam dançar a nossos redores
meus membros de vela sonhavam-me outro: navio,
estalando inteiro em rangidos de cordame
sob a avidez súbita da vida em me ter;
e lançavam-me no longe, no infinito
embebido nos hálitos do mundo, pipa humana
úmido dos orvalhos da saliva aérea
que se me agarrava nestes cabelos esparsos
- atirados em formato de sol -
pelo topo de um monte chamado universo;
Eu me sabia antena telúrica, pétrea
do espasmo límpido de ondas e ondas de
cavalos alados preenchendo as bordas do céu,
e singrava mares de cor e aurora:
Saúdo-te, mundo tímido
que me vislumbre em duas minutas de tempo
e passe ligeiro, rumo a teus muitos reinos que conquistar.
Sonhava, os teus lábios massivos de fogo
em beijos largos aos azuis celestes de paixão;
as tuas faces enrubescidas de nuvem,
e risadas gratas descorridas na onipresença
por sobre neves roxas que me acordavam feito adeus.
Desfalecente em teu leito duro hostil
enrolava-me sereno, nos grossos cobertores
dessa abóboda radiante ou purpúrea
pátria efêmera de mil biologias gasosas;
e meu próprio hálito, intermitente
tanto pairava por sobre as vestes
como um fumo raro, fantasma bem-vindo
alertando-me dos preços gelados; meus olhos vazios
dardejados de lágrimas, estupefactos
como feras famintas a espreitar
flutuavam, impossíveis divagantes
deitando-me em colchões de nada
que apertar-me o peito, que abraçar-me
alheios às investidas pesadas do chão,
e soluçavam: Vento! deus da paisagem,
que quase perco, nas indistâncias findas
sem pó que te me fizesse sólido:
Lambe-me como se eu tivesse gosto
de vida, de simples existo, humildemente
lamber minha língua,
a roubar-te inteiro em meus pulmões de furto
encarcerar-te, nestas prisões ligeiras que sufoquem
que me fazem tua carne, Imensíssimo
no enxertar-me pelos teus braços largos
fazendo parte o meu próprio peito
dos teus membros infindos de tornado
ao respirar do teu vasto sangue, e eu borbulho
espumo como se, líqüido, pudesse tornar-te
mais Humano! e neste oceano
de cumes e áridos, colossos, ruínas
minha alma repousa, pesada deriva
poluindo possessa, com tantas palavras,
a tudo! doravante lembrado,
pisado ou rasgado: Lembrança! é teu nome.
E se me manchas a pele, me desenhas o rosto
marcando-me eternamente gasoso
com teus choros de espuma, teus cuspes, teus cortes
de que bebo ávido - perversamente incrustrado
como intruso, neste desfile febril -
navego altivo, Espelho inviável
da glória ímpar que me desferes
do brilho que me irrompes às bocas
em elas mesmas engolirem-te em recitais;
e se me tapas os ouvidos, arroganteante
com teus murmúrios lúgubres de espectro vago:
valho-me então de nomes, lançando-os a esmo
como espadas, em leque, a te louvar
fósforos acendem e apagam
no escuro
mergulhos em pântanos
estrelas cadentes me desejam, intermináveis
em noites de nunca
o céu sabe desenhar em meus olhos
lábios travestidos dum neruda
como batom castelhado, poe-ta
e as árvores chovem feitiços
e nao posso mais fumar
hoje é sempre e nunca, para tantos dias que nem já conto
descer num labirinto de diários e memórias inventadas
meu navio de planos
meu leve aeroplano
que voar por dentre as coxas sensuais
do mundo
quanto falta
a agarrar nas âncoras firmes e inertes
rio de janeiro?

desjejum

fim das datas
das dívidas
e dos cadarços desamarrados.
prazos expirando - não mais!
como uma bola de ferro
presidiário
camisa listada
preto e branco - não mais!
vira a última folha,
o marcador de páginas
no lixo
agenda volumosa, pesada
no lixo

enrolar-se em lençóis novos
com gostinho gelados
repiando os pêlos e
preguiçando até o dedão do pé

inaugurar diários novos
abrir a lata metálica com rótulo engraçado
de idéias novas e frescas,
guloseimas doces de desjejum.

fim das marcas
das cicatrizes
e do passado.
beijo um
beijo molhado
espalhado
por todos os cantos do corpo
um beijo palhaço
mecânico
quadrado
colando errado
por todos os dias e noites
na boca
que foi boca
mas já não beija
agüenta
o beijo tirânico mal-dado
de passado
nanico
irritado
fraco
beijo seco embolado
beijado.

enfim.

despedida sem título

inda me vem, como presságio
brotando daninha, por entre lacunas de pensamento
até florescer lacrimosa pelos olhos -
sabedoria límpida e vasta
da tempestade que virá.

o mais da dor,
prenúncio de saudades
do saber-se chegando em fins
tão talvez tão voluntários...

ah,
passeando as palmas das mãos
sobre mesas e paredes
deste lugar óbvio e freqüente
deste aqui tão natural, tão doce lar
mas que não voltará.
o tato, e a textura, e a temperatura e o som oco
os cheiros tolos e os detalhes
o rangido da maçaneta
o ventilador que não funcionava
os canais que a tv não pega

e uma partida sempre adiável
pesando, no estômago.
esmaga de medo e de
tempo decantado:
como largar-se a um futuro de menos e de vazio?
só uma espreita, aposta fraca
d'um dia inda vier outra colheita
que vingue em algo tanta lembrança insaciável
que alimentasse esta fome de sabor.

os punhos se fecham, ávidos
e, rígido, o corpo indeciso
se fosse mágico partiria
em dois amálgamas
em duas vidas paralelas
em duas almas

ah, se n'um dia desespero, irreverente
pronto a atear fogo à morada;
no outro, dócil,
prevejo minha sorte desgraçada,
e me adio infeliz.
guarda-chuvas melancólicos
morcegando negros pelos cantos
e pelas latas de lixo,
as marcas de sujeira
que as ondas do mar largam na praia
tomam conta
da calçada,
as meias das avós
todas úmidas e embolotadas,
os pés gelados, enrugados
as calças escuras e manchadas:
pegadas da ressaca mundana
quando a piscina do céu dá goteira
e aquimbaixo as crianças entram nas poças e se resfriam
e os pais se empilham nos engarrafamentos

como é boa
a água
bebendo dos meus olhos.

eu era vento, mas era sonho

me carrega
e eu sou vento
nadando nas árvores
sou um peixe
nadando nas árvores
só meus pés
sentem chão
duro e frio
e frio
sou enorme
meus pés ressoam no salão
sou enorme e desajeitado
sou o mundo
mas corro,
rodando rodando
sou uma folha
rodopiando
sou um vento;
volto ao mesmo lugar
onde passei minha droga de vida inteira
mas volto
voando
tão atento ao teu pegar pontudo na minha mão
tão inteiro nessas vozinhas
que rabiscam o som dos vizinhos
que nem voltei pra casa
caí num buraco de pensamento
essa janela aqui
essa porta óbvia que eu apalpo
são tão bonitos!
- esses teus dedos quase largando de mim
e que descolam infinitamente
doloridos
como o fim d'um beijo
pelas mãos -
mas sou um sonho
desacordando
quando tudo era só mistérios
e o fim vai doer tanto
e o fim
e o fim
abrindo os olhos
fumando nos pés de aquiles
meus cigarros nos seus calcanhares
o vento é feito de lençóis.
à noite eles vão dormir
e nos cobrem.
a noite é feita de lenços e véus transparentes
que pousam nos nossos olhos
como moscas
como aranhas
tecendo teias imensas entre as nossas pálpebras
costurando, costurando
até fechar.
boa noite
durma com os anjos.
minhas bocas estão fechadas para você
não saem palavras - e eu grito, grito
meus gestos são toda a linguagem que me sai
eu sou mudo
eu não falo
das minhas bocas não saem palavras - e elas gritam, gritam
eu só respiro.
sou uma planta, vou bem, obrigado
quem sabe quanto os teus sonhos cor de mel
não eram
afiados

me cortando
me matando

tuas estórias doces e lambidas
deixavam tonto
tonteavam
hip-noti-zavam

as palavras
voejando
como um longo bocejo

conversar com você,
era quase
vomitar.

que saudade.
os cigarros
cor de azul
que ela fumava,

os cabelos
eram como
estar debaixo d'água,

os pézinhos
enrolados
nas finas meias de nada,

e os lábios
uma sede
de espanto,

e as mãos
apertavam
minha alminha,

e os olhos
nem se sabe
quantos,

os suspiros
tão compridos
envolviam tudo,

e os braços
me abraçavam
sem tocar,

o coração,
o coração,

o coração eu perdi.
dezembro vem, o mundo um rebuliço
eu sou cada dois dias outro,
e cada dois outros sou mais um.
havia poemas no guardanapo
ingenuinhos,
borrados, errados e finos,
todos embrulhadinhos.

havia rimas e injúrias
de que todos gostariam
mas hoje não, não.
(hoje, é só azul)

tenho mil poemas, mais de mil
rabiscos em lenços e guardanapo
esquecidos dobrados, largados
atrás da orelha ou do cartão.

mas quando finalmente
vem a hora mais bonita
de sacá-los, rápido,
e limpar lábios de meninas,

tudo voou.
tão fingindo terem nascido sessenta anos atrás
não são nem os pais: são os avós
duas gerações de mentiras
olhando para trás feito o diabo
do alto da dignidade daquilo que já foi tão forte
cuspindo nos poucos brotos que inda surgem
no caminho enorme que se abre
(que é luz e dia úmido)
mas só sabem dizer-se alheios e repetindo
usando de mapas mortos arrancados de museu
se esbarram por nem se verem
e derrubam-se, irritados
cegos, em sua religião do ontem.

Rádio

- Oi, meu nome é Rádio, e estou sem sintonizar uma estação já há duas horas e meia.
- Pessoal, dêem boas-vindas ao... Rádio.
- Bem-vindo (rádio).
- Bem, uh, Rádio, conte-nos como você começou a... beber.
- É assim. Tiraram meus óculos hoje, de repente. Bem rápido, assim; logo me deram de volta. Mas deu uma agonia sabe, eu de repente não via mais os outros.
- Rádio, você usa óculos?
- Ah, é que agora estou sem né? então. Eu sou míope, sem eles. Num segundo nós éramos Pessoa: uma grande Pessoa orgânica muito ajustadinha, as engrenagens se movendo loucas
- Desculpe, você não era um rádio?
- Eu era mais como mãos e olhares, quando você sabe onde colocá-los. Meus nervos se conectavam direto na carne dos outros. Eles se mexiam em mim. Eu neles.
(bocejos e tossidas na roda)
- De repente eu já não via mais ninguém. As pessoas se moviam sem mim. Desconectado. Desplugado. Me tiraram da tomada.
- Olhe, eu não estou entendendo. Alguém quer colocar algo?
- Seu Rádio, desembuche logo, ainda tem muita gente pela frente.
- Minhas mãos iam para a boca e eu fingia bocejar. Ligavam para mim e eu não atendia. Faziam piadas e eu não ria. Trocava as datas. Errava as contas.
- O que isso tudo tem a ver? Você não é alcoólotra?
- Comecei a ir aos lugares errados. Tentei marcar com o médico e ele não atendia. Fui no consultório e ele saíra há quinze minutos. Esqueci a carteira em casa.
- ...aí então você começou a beber.
- É assim, eu falo e ninguém me escuta. Oi, meu nome é Antena, estou transmitindo numa freqüência que ninguém ouve. Oi, meu nome é Rádio, eu não sintonizo em vocês. Oi, o mundo é uma grande Estação, e hoje eu acordei fora de sintonia, será que ninguém consegue entender isso?
- Mister Radio, you're not welcome here.
- Oi, eu estou tentando existir, Oi, alguém me escuta? eu nem enxergo mais ninguém. Minha cabeça está doendo, tirem suas mãos de mim! Oi, eu falo, falo, e eu estou caindo num abismo, e lá em cima o mundo e eu fico só na queda infinita vazia e sozinha, nesse buraco onde não há eco e não se ouve nada. (Il est fou!) Oi, eu sou um Rádio, eu preciso me ajustar, preciso apertar meus botões e manivelas: eu vou almoçar na hora certa e tomar café depois, vou dormir oito horas e beber vodca até cair, vou fumar que nem uma máquina e vender minha alma a todo mundo; talvez assim eu sintonize em algo, eu troque de freqüência e encontre alguém que me plugue de novo no mundo, alguém que pegue meus fios e veias e engate nos seus, pegue minhas mãos e saiba onde pô-las. Oi, vamos transar? Oi, vamos fundir nossos corpos? que eu preciso sintonizar no mundo, eu preciso crescer raízes, crescer âncoras - porque aqui onde eu moro venta muito sabe? Oi, meu nome é Folha e eu caio sozinho, não encontrei nenhuma teia de aranha, nenhuma amarra. Oi, Oi! tirem essas mãos de mim! Eu vou com vocês, me levem para a prisão, me joguem numa vala qualquer, eu devo estar bêbado! bêbado demais para os alcoólotras, eu achei que aqui saberiam falar comigo. Oi, meu nome é Mãos, e eu sou dois, e é por isso que eu fumo e bocejo e coço o cabelo e me escondo nos bolsos, e é por isso que eu me rôo inteiro e me agarro nos outros, e é por isso que eu quero sair nu no frio e juntar meus membros, eu quero dançar uma dança no chão certo, uma dança que pise nos pés bonitos que gritem, que gritem muito! Oi, meu nome é Rádio e é Antena e é Mãos, eu queria ser os três, dançando como os dedos num teclado, e existindo em uníssono, até que minhas pegadas fossem não só tristeza e ruído - porque eu nunca sintonizo! - até que saísse música dos meus olhos e das minhas mãos, dos meus suspiros e de quando eu tremo muito no escuro, sozinho e distante como estática perdida: até que essa estação que não encontro fosse criada: até que meus pés dançassem como mãos num teclado, formando palavras e bonitezas e todos me lessem os olhos e me soubessem consigo, universo, pessoa-mundo organismo, vida, nós Folhas espalhados unidos pela teia de aranha: e quando ventar farfalharemos sintonizados como rádios, seremos música com nosso farfalhar lindo...!
...
- Oi, meu nome é Paulo, e eu...

pneumática

ela era ácida e linda,
a das dobras selvagens
flácida e míngua, língua
ardente a passear pelas margens
dos seus lábios carnudos, bojudos
com banhas fartas em anéis
os olhos mudos, tesudos
ela custava vinte-mil réis
mil beijos nessa barriga amiga
tão volumosa e pneumática
pneus grossinhos de lombriga
da adorável puta simpática
a minha bolinha feia e errática
a minha gordinha asmática.
por que não?
(um rascunho)

o médico me mandou parar.
eu estava muito, muito; o médico olhou para mim nos olhos e disse: pare.
no começo não entendi muito bem, tentei até argumentar com ele. fiz caretas. grunhi dúvidas. suspeitei de seu currículo. olhei os certificados pregados nas paredes.
mas ele fora categórico: pare.
por quê doutor?
o médico olhou em mim fundo nos olhos, mas era como se ele não estivesse me vendo. eu quase sentia ele me procurando, havia um certo tremelique na pálpebra direita, a boca torcida em vão. havia muita luz no consultório, luz branca de doentes, sobre superfícies e almofadas brancas, e os papéis brancos em cima da mesa branca, o jaleco branco no branco dos olhos dele; eu estava bastante ofuscado, as luzes apontavam para mim. aquela claridade monocromática, e ele tentava me olhar fundo nos olhos - mas meus olhos sempre foram negros. eu sabia que ele não me olhava muito bem, mesmo com tanta brancura. ou por causa da brancura. ele olhou para mim com aquela palidez mórbida de médico, ajeitou o jaleco no corpo, começou a mudar os papéis de uma pilha branca para outra pilha branca; e disse que, para começar, não fazia bem à minha saúde.
não faria bem. minhas mãos, para começar. o que tem minhas mãos, doutor? elas ficam tremendo, ficam tentando sair do lugar. não dá para pará-las quietas. está tudo relacionado. não faz bem; você e suas mãos, agarradas nos quadris, roçando o cabelo. não fazia bem.
mas isso era só o início: ah, porque era quase um crime. e minha mulher ia me abandonar. e os meus amigos iam me trair. meu emprego ia me engolir. eu ia parar de combinar roupas. eu ia ficar mais míope. podia começar a tossir todo dia (ele tossiu bastante antes de dizer isso).
foi bastante estranho, mas ele era médico, doctori absolutum estava escrito, nos certificados enquadrados por todos os cantos, e médicos são para isso. eles nos dizem o que é higiênico e o que não é. eu estava sujo, ele dizia, dava para ver nos meus olhos negros. sujo, estava sujando seu consultório ali mesmo. eu tentava olhar bem nos olhos dele mas a brancura me doía. eu acho que eu doía nele também, mas todo mundo acha isso. minha impressão fugidia de que fazia mais mal era a ele mesmo, essa negrura nos olhos, essas mãos amassando a receita do remédio, essas gotas de suor umedecendo o couro branco tranqüilo da cadeira. o olhar dele, escondido debaixo das pálpebras grossas (a da direita tremia um pouco), tentava reprovar, tentava me acusar e dizer: ali, ele ali, olha ele.

pare.

ele estava até certo, como eu vim a decidir. quando eu andava na rua, era como se... como se entrasse em mim uma coisa... como se eu estivesse andando mas
as minhas mãos me agarravam nos quadris. eu olhei bastante no espelho, fiquei encarando minha imagem, até ela ficar toda borrada. era feio. era bem sujo mesmo, o médico tinha razão. eu virava uma rachadura preta na parede branca, uma mosca esmagada, um erro.
mas quando eu saía na rua as mãos saíam de mim e iam para a rua também. não havia jeito de deixá-las quietas, em casa, nos bolsos, cruzadas, inquietas..

eu ficava olhando as pessoas andarem, e notava a quantidade de sacolas. carregavam coisas, filhos, pessoas, livros, guias turísticos. eu resolvi que precisava de uma sacola.
era um grande avanço para mim, eu telefonei para o médico, eram 3 da tarde, ele acordou furioso e não entendeu nada, eu dizia doutor, vou ser sacoleiro, ele me mandava à merda.
aí no início eu peguei um saco plástico e fui até a pracinha, coloquei uma pedra dentro, e saí na rua. foi muito gostoso. acho que foi o melhor dia em dias, as minhas mãos tão atarefadas, nem me viram caminhar tanto, elas ficavam reclamando do peso, do barulho, do tempo, reclamavam muito, nem me incomodavam com suas perguntas, com sua tremedeira e me apertando a barriga; elas se distraíam. sossego. andei sem parar durante um dia e meio.
mas as pessoas me estranhavam com essa história de sacola. e era estranho mesmo. e pesado. a sacola acabou furando e eu sentei numa escada e fiquei muito triste. minhas mãos davam socos na pedra e se cortaram um pouco até, meu nariz espirrava, minha barriga ficava caminhando sozinha.

minha segunda idéia foi fazer compras. durou um mês, todo dia eu iria no supermercado três vezes. mas eu não agüentava direito e ia um pouco mais. teve um dia em que eu fui doze vezes, os atendentes até estranharam. eu fingia que não era comigo. muitas sacolinhas brancas de plástico, e muitas tarefas. fui feliz.
minha casa estava muito entulhada, depois de algumas semanas, e as sacolas foram saindo do controle. de noite ventava muito, e elas faziam uma barulheira, o vizinho de cima até reclamou. eu não conseguia mais dormir. resolvi que não iria mais fazer compras. sentei na cama, e chorei muito, foi um dos piores dias.

quando eu saía na rua, meu corpo começava a sacudir. as pessoas que passavam por mim percebiam o que havia comigo, percebiam o que eu estava fazendo. e aí elas começavam a pular, e lançar foguetes e gritar muito, tudo muito sutil e só alguém com uma lupa muito boa perceberia. mas eu percebia, porque era tudo dirigido a mim. minha pele ficava toda balançando, os sons dos sapatos alheios se encaixavam, eu percebia que a senhora de vestido feio estava mancando o pé direito, enquanto aquele menino com camiseta de colégio passava mais rápido de propósito, eles riam de mim escondidos, eu começava a tremer, a dançar sem controle. as pessoas me olhavam estranho, se fazendo de inocentes, enquanto faziam uma barulheira linda, que me tomava o coração nos batimentos, tumtum tumtum, minha cabeça quicava.

o médico me mandou parar, ele estava certo, ele sempre estava certo.
viverei em frança
cercado de mentiras e jogos
fumando a mais não poder

levarei café e farofa
e uma vassoura.
varrer o sena
me sustentará

vou explodir de filmes
de invenções idiotas
de histórias tortas
de tropeções e erros

algum dia.
inventar a história das novas cores quando a vida é cinza;
cinza de cigarro apagado na boca
resmungando..
acelerar as vidas e os sopros
o corpo sentado, dormindo
só correndo se sentia o vento arrastando os cílios
as mãos dormindo, os pés dormindo, os lábios dormindo
só faço dormir minha vida inteira

café, mais café,
por favor
novembro vem,
o vazio do mundo, e o tempo voando, e nada fica
cuspes empoçados criando dengue
há que sentir na barriga
quando a barriga gritar muito
você se pegar olhando para baixo
que diabos está dentro da minha camisa
o umbigo te olha de volta
fazendo caretas doendo sorrindo
dá um soco nele, xinga tudo
rola no chão
vira uma confusão
de roupas, de cabelos, de punhos

há que espernear muito
tanto tempo você me foi tudo que eu sempre queria, eu te vejo e sinto teus beijos gostosos em todas as minhas peles e lábios orelhas narizes, você me passa as mãos e os carinhos em meus redores inteiros e eu sinto! já foi tão bom, ah como você era linda, linda linda, hoje seus afagos nada mais são do que memórias me roçando as bochechas úmidas com teu contato prolongado, como te amei, enrolo meus braços em ti mas nada sai deles, nada novo, só sinto-lhes antigas, d'outros tempos; te mordi e mastiguei inteira, tivemos tantos filhos! e eles se foram, e nós cansamos, hoje somos talvez estéreis juntos e eu preciso ir atrás de outras - outras como ti, bem sei; e sei que és só isso, infinita nos poucos segundos e nunca mais. meus segundos passaram, não conheço se voltam.

assisti à performance de dança

bem me quer,
mal me quer,

saíam dedos dos olhos e da boca enquanto ela vomitava pelas pernas o resto do corpo fora.

no mais, quase uma ciência
passeava os dedos nos meus cílios
e eles faziam caras feias
saía um barulhinho, tímido

te senti roçar meus olhos
te senti concre-ta-mente
as pálpebras fechadas, os cegos
mas os cílios bengalas de tato
te apalpei com meus pêlos e você estava

o barulhinho, tímido
de você existindo.

levanta-te e fala

o maior mudo de todos
ele não era mudo: era mutista
porque mudava voluntário

é claro que não deixavam
e ficavam lhe perguntando
lhe indagando as mais bonitas
as mais filosofias
ele num silêncio audível

levaram-lhe para o tribunal
julgar-lhe por seu silêncio
julgar-lhe por omissão
fizeram-no falar
o rei dos mudos falou.

o grande discurso deste rei dos mudos
era tão horrível
ele falava mal, suas palavras eram meias
era tudo sempre na metade, meio capenga
gaguejava cuspindo, voavam salivas longe
era quase nojento

ele odiava falar
dizia isso, mil vezes, mil e duas
ele falava e falava quanto odiava falar
ele falava com um ódio...
com um ódio da própria fala

havia tanta ira em cada letra que lhe roçasse a garganta
tanto ódio multiplicando, desabando
ele gritando de dor, gritando que gritava de dor
era horrível, era infinito
quanto mais falava mais doía
mais odiava e falava do ódio berrando
berros sobre berrar os berros
ele estava em combustão

as sílabas, lembro da vez,
perguntaram-lhe por quê
como por quê? todo porquê é falado
pensava eu
mas nessa hora ele engasgou
o juiz bateu o martelo e soletraram seu nome, lentos
ele ouvia com as orelhas girando
sua boca mugia tão grave que a mesa vibrava
perguntaram este é seu nome
a garganta dele se contorcia
começou a arrotar a primeira resposta
mas o atrito foi demais, e explodiu

todos que saíram de lá
viraram surdistas
que os sons do mundo já lhes doíam mais que mais

(a bartleby)

mãos

minhas mãos nos quadris
pare de roer as unhas e minhas mãos te tiram as mãos da boca
percebi que odeio mãos

minhas mãos tortas que não sei onde pôr
sempre vão para os quadris, eu paro pensando, conversando
nos quadris, fico tão angulado, os cotovelos apontando
as mãos nunca sabem onde ir

eu te olho e as tuas estão na boca
as minhas sabem onde ir: elas te interrompem
pare de roer as unhas, pare!

as minhas mãos me agarram os lados da barriga
elas te agarram teus pulsos lindos e os arrancam da boca
pare de roer as unhas, pare!
eu nem notava que eu fazia isso

minhas mãos pousam assim, me apertando
meus cotovelos apontados como asas de galinha
minhas mãos grosseiras agarrando nas tuas,
eu me imponho em ti sem nem perceber
sou horrível, sou anguloso, sou imperativo

pare de roer as unhas, eu te ordeno!
quero mandar nas tuas mãos
já que não mando nas minhas

talvez por isso eu fume
talvez por isso eu roa as unhas
talvez por isso eu goste dos bolsos
- é para salvar minhas mãos

vou adotar uma nova política de mãos.
exercício 1:

olheie algo,
delire-os.
parar para falar
nossa estou tão louco!
é ser menos louco

'estou sentindo
a sensação mais bonita
dos quatro universos!'
é que não sente mais

falar, é dos fins
falar, é fim
que interrompe delírio.
entope a garganta bêbada,
com palavras grosseiras,
que se por um lado talvez mintam tudo
(e disso nem podemos culpá-las, pobrezinhas)
por outro jorram aos borbotões
ininterruptas, represa ruindo.

e nada mais de gritos ecoando internos sem sair
nada mais de ecos dos soluços da alma
rugindo ampliados no estômago vazio.
a boca aberta e as loucuras fugindo
a boca aberta e a alma escorrendo, como baba.

na superfície

ei, motorista! abre a porta
como no ponto? abre - a - porta
o ônibus tá parado! tamos a 1 metro do ponto
abre a porta, porra - por que você não abre a porta?
não vai abrir, ooi, abre a porta
sabe o que é isso? hein? tá me ouvindo?
eu sei o que é isso! (abre logo a droga da porta)
você tem é medo de mim, motorista (abre, abre)
medo. (tá me ouvindo?)
sabe, você acha que essa porta te livra de mim
que do alto do teu assento de piloto
teu mundo todo gira em eixos bonitos
bem longe do teu controle. só abre a porta no ponto.
você nem decide. (pelamordedeus aaabre)
eu parado aqui. sabe o que é isso?
você quer uma camisa de força, ouviu?
você tece com linhas de docilidade dos outros
com as linhas finas e maleáveis de todos dóceis
você não agüenta um fio de serpente irracionante
que te obrigue a abrir a maldita porta fora do ponto
que te obrigue a furar o padrão-rei da tua vida
ah, e não é que você seja dócil
como ficam dizendo os arrogantes dos nietzscheanos
não, você não é dócil, você não obedece
eu vou correr pro próximo ponto
e te pegar a tempo seu desgraçado
vou chegar sujo e suado
com ódio exalando
enxertar um pouco de pedestrismo no teu ponto
talvez eu corra a pé toda linha de ônibus
só pra te deixar louco.
sabe o que você é?
você engasga com linhas de sonho
que te cortem teu ônibus em dois, em três, em mil.
você se embola nelas, seu puto.
quando cruza com pessoas andando em música
quando quase atropela as pessoas ouvindo chão
você é chão, seu muito-certinho-determinado,
você se faz chão que o pé de todos pise
faz todos pisarem chão, teu ridículo
você é empata delírio, isso sim
piloto de uma nave empata-delírio.
às vezes tudo que falta é desculpa certa
nós tamos na beira
e temos coragem
mas falta inda quele empurrãozinho
espécie de capricho metido
só pro orgulho ficar por aí, se achando
que o orgulho é mesmo muito faceiro.

os suicidas de escorregão
as avalanches de soluço
as mortes de peteleco

todos foram meio assim,
podiam ter sido meio assado.
um tropecinho qualquer,
uma vida qualquer,
por que não?
idéia muito esculhambada que me vem,
sorrateira,
cochichando nos meus ouvidos;
e quando olho para ela:
nada. e nada. vazio.

se vão passando os dias,
e ela lá, paciente..
cochichando, cochichando.

sensação de que esqueci algo antes de fechar a porta de casa;
intuição de que é melhor sair de guarda-chuva hoje;
palpite sem delongas,
que me raciocina assim qualquer,
casual, acabado, e lá-se-foi;

diabinho no meu ombro,
me esperando virar a cabeça
pra pular dentro, e virar mundo.
língua-lengua

não precisa, não, não, é tão calmo, é às noites, é preciso, é preciso, navegar é preciso viver não, já diziam, já diziam, vai ser sempre, você é tão sempre, você é tão sempre! ai que eu te amo, eu te quero sempre, sempre você

vã guarda

antigamente
as gentes
ficavam muito muito muito
quando viam
seu fulano
fazer uma bagunça daquelas.

eu não sei bem
se sei se não,
quê isso, menino!

sou tão burro
nós semo tão vagabundo!
bundeantes,
é o que dizem.

i as bagunça
si se ocorrem
ficam bem mudas
secas,
lá no cantinho
nem vi.

ai!
fico feliz
i saio na rua
a gritar feliz
os nomes todinhos
só de te ver
cantar-te azul
pintar-te pinta
saber-te qualquer coisa

quem me diz
se isso tem
zil anos ?

eu hoje digo
hoje isso é hoje!
eu sinto hoje é na barriga
a barriga hojeando doida
me carrega às rua
eu nem sei bem
oi barriga,
vamos dançar?
a língua
se abraçando
todinha
de paixão

rebolando
na boca
tropeçando
as letras

ela quase pula
sai dos dentes
faz-se chão

ela germina
língua nova
língua-lengua

palavreado torto
de borbotões
hiperbólico
o-no-ma-to-péi-co

um dia assim
talvez quem sabe
é bem possível
se mesmo for

que isto
tudo
tenha
um
nome.
estou vendo algo,
eu acho
lá longe, meio embaçado e troncho
oscilando, e eu nem presto muita atenção.
eu vou pra lá, meu amor
eu acho
e quero que você venha comigo
como dizem por aí
todo dia toda hora
"e se as nuvens não são um banquinho,
pra gente lamber o céu?"
ah! te amo porque me soas tão arte
ah, te arto porque me soas tão amo
poeta!
não pára,
tua voz
me tece
palavras
quase beijos
na minha alma

poeta,
vagueia,
teu sopro
passeia
nas minhas veias

poeta...
comigo
marcado,
meu fundinho
sozinho,
amigo,
amado...

poeta:
me lembre
ser tão,
ser quase,
ser vão:
ser sempre.
o grande poder
daquele criança
que todos lhe dizem
pareces fulano
pareces com tal um
me lembras os tempos de x
me sabes o gosto de outrora, ah! sabes muito,
tu és, Ah! tu és...

estas roupagens bonitas
estes gestos falares
jeitinhos tão... caetanea-dos
você é tão cazuza!
ah, adoro-te, rimbaudzinho
ih, minha linda, ai fada impossível
linda noitinha amarga que me mastiga os ventos
você cheira tanto, tanto porto alegre!

oi você me lembra um sonho que eu tive
ai você me soa tão azul, não sei porquê
ai você está tão sujo,
que lá nas paredes flácidas dos teus pulmões,
você respira muito, dois m's e um d mudo,
estás tão.. drummond!

espontaneio

valem aquelas as mais que sejam
as espontâneas, as novas!
as mais assim, cruas, diz-se assim
as que saem sem querer (ops, fui eu!)

não não, não valer às planejadas
às premeditadas criminosas
tão babadas e remendadas

amo pouco os que espontaneiam planejos
os que sozinhos se são vestidos
os que não se sabem nunca assim, dir-se-ia
bêbedos,
sem preocupar-se com não-ditos...

amo mais aqueles, que planejados espontaníam.
espantam!
soando sempre virgens e belos
como os murmúrios gostosos de prazer
quando mastigamos as flores mais bonitas
do jardim (que nunca se recuperará)

história da arte

eu entrei no quarto
a Beleza olhou para mim (com olhos d'água)
ela estava chorando.

eu lembro que antes,
ela era bonita,
o quarto era quentinho,
eu era tão longo!
ai, eu gostava.

nunca entendi direito essa Beleza
que ficava o dia inteiro em seu quartinho
tricotando um vestido muito bonito
e galinhando de noite nos bailes.
nunca entendi.

eu sei bem que isso se foi
eu entrei no quarto então
ela estava bêbeda, melhor,
de ressaca.

a Beleza estirada no chão,
babava uma voz suja de pato
passava maquiagem na cara, no olhos, no cu
era triste, ela babando velha, ah não
eu me sentia triste, chato.

conheci o marido dela outro dia
ficou velho e gordo, nem sei se é marido mesmo
velho e corno, eu bem sabia
passando de ladainhas doces:
"querida, queridíssima (ai, como nos amamos!)
ontem foi muito bom, não foi? (ah se foi!)
ah, como fizemos muito ontem! muito, nem lembro até!
estou tão cansado, e hoje é domingo,
vamos passar o resto da vida vendo tv?"

eu entrei no quarto, a Beleza era uma rainha
ela brilhava do alto de seu trono de mil adjetivos
o vestido fino, a luz bonita, os perfumes caros
eu quase morri diante de tanta chatice

eu entrei no quarto, entrei chutando a porta
arrancando roupa, cuspindo palavrão;
depois eu nem sabia o que fazer ali
a Beleza tava ali, estirada, feia,
me oferecendo uma birita,
eu fiquei. (gordo velho imundo casado)

eu entrei no quarto,
acho que estava chovendo, ou algo estúpido.
eu estava cego, pálpebras cerradas
meus fones de ouvido - eu não ouvia nada
minhas roupas metidas - eu nem sentia frio

a Beleza ficava lá, fazendo strip
tentando chamar a atenção.
eu só fiquei dançando na frente dela (nem percebi)
me diverti muito sozinho, balancei balancei
dei uma festa depois, no quarto mesmo.
a Beleza não bebeu nada porque ela é alcoólatra
e não é mais amiga de ninguém.

eu entrei no quarto
era hoje
era amanhã
eu vou ali só pra comer.
chove,
na cidade perfeita.
as gotas caem manchando tudo,
e eu sei que este dia é para sempre.

chove,
dum frio doído gostoso
a chuva, fininha,
soando tão bonita.

chove,
eu gosto dos vagabundos,
converso com eles,
eles gostam de mim.

nas coxas

eu bem tocava violão nas coxas
porque em pé faltava aquela cordinha
eu bem escrevia tudo nas coxas
mas aí é porque faltava o papel.

queria muito agarrar-te nas coxas
porque sou preguiçoso e leviano,
vou apertar ali ali, hihihi
você não vai gostar, mas e daí
é tudo nas coxas e eu não estou dando a mínima.

(como era mesmo aquela história
de que o primeiro rei de Atenas
nasceu daquilo que o Manco
estava ejaculando nas coxas?)

escrevendo a duas mãos

as canetas melodiosas rabiscavam
páginas e páginas e páginas
nossa, 'quele tempo das pilhas de papel empoeirado
eu espirrava contente: e o vento fazia até barulhos
quase bonito as folhas rodando no céu.

que seria 'screver a duas mãos
'queles tempos em que só uma guiava tudo
e quase estávamos é nos esticando inteiros
redebruçados corcundas, tortos na escrivaninha
o braço inútil, o outro esticado e apalpando:
entrar no papel por uma frestinha que abríssemos
com tal caneta cortante, cravada furando
até sair querida tinta-sangue da folha..

e hoje, tão fácil, tão veloz
quase saem-me letras é de todos os dedos
escrever a duas mãos? escrevo a dez!
dez dedos apontando letras como numa feira
"vou levar esta aqui, redondinha" "a madura ali, por favor"
sambando harmoniosos e muitas notas descompostas
rebatucando trac-trac-trac as teclas leves
infinitando a textura táctil das palavras doces
que se nos saem escorridas aos borbotões
dessa tal máquina-escriturante tão modernosa
plec-plec-plic os sons gorjeantes percussionistas
um plique-plaque muito mais musiciano
do que as arranhadas ásperas dos passados tintureiros.
muito mais: de ritmo e bom som.

deviam pôr debaixo dos botões redigidores
sininhos ou fadinhas miúdas enroladinhas
a gritar e gemer a cada pressão - ia ser bonito de escrever!

ía

já odeio este título gigante aí flutuando
anarquía sou, já quis tanto mudá-lo
mas muito o sem-nome precisa chamar-se algo
e este algo findou sendo simples: o anarquía
resmungo apenas, então:
que este señor anarquizado
é uma mentira de pernas gordas
porque possui acento no i
porque é só uma palavra
porque é do gênero errado
porque me faz bem.

foi aqui que tudo acontece

(tema para uma vanguarda sem nome)

éramos dois: mas éramos tantos!
bebíamos vinho e líamos baudelaire
quanto não rimos dos outros, hein?
quanto não... acabou.

éramos dois: mas éramos um!
inventávamos muito, sozinhos e fáceis
impressionávamos: grande profusão
construímos poderosos castelos de.. cartas.

éramos dois: éramos zeros
velhos desculpando-se e coçando-se tudo
se aos vinte o rimbaud nem morria mais
nós só cuspíamos fumaça e praguejos secos..

éramos dois: dois estranhos
quando com tempo vazamos olheiras
e não soubemos mais ser dois de novo
o aqui afundando longe, cadê?

éramos dois: não éramos
personagens de personagens de personagens
as paredes apagadas provando
que nada vingava, e tudo era ido

éramos dois: éramos.
quando chegar ao fim
as águas vão tomar tudo
e as avós levarão o resto.

Jam session


quão adoroso estar-se em meio a uns tantos ditos musicistas
    tão doído neste desacordo, desarmonioso
amando tonto a espécie inocente de belicismo blasfemo,
    quando cada um quer sempre transbordar nos outros
  invadir-lhes a melodia água com mil notas úmidas, erradas
  enfogueando muito a quase calor, e derretem nuvem;
mas os ouvidos afogando sob a torrente de vapores sons
  quase sabendo se gritar é minúsculo (e, portanto, sempre)
envolvido nas marés infinitas de tempestade e destruição
    neste país chamado olho de furacão, olho lindo de plenitude;

o coração gosta aí a gastar-se bonitamente, linguajeando
    pois que ama-se infiltrado, enxertado voyeurista,
  metido pés nas mãos, acoplado a esta máquina impossível
esta máquina primitiva da criação exagerada rítmica
    composta muita de mil peças primas, lembrando locomotivas
em que os instrumentos cuspem rodas dentadas mágicas,
  zumbindo um motor de vapor e fogo tossidas,
    escoiceando soluços gagos de fumaça eco, ressoante;

nesta terra mora então o tal tanto desprendimento nu:
  que as brisas marinhíssimas do improvisismo sábio
    nos 'rancam vestes e telhados sustos
  limpando-nos as gargantas desafinadas de sussurro
    para sairmos divagueando vagos e múltiplos
      todos impossíveis surdos e inconfusos
    no meio da balbúrdia e do marulho, ali sim:
  no excessivismo cantado, neste nascer fecundo,
reinará algo
chamar-se-á música
espelhará novo
bonitará som.

barthes queria voltar ao diário,
proust... é tão quase; (e tão outro!)
essa vontade de sentir-se literário:
espalhar tintas de sentido nas camadas de vida

(ora naquela coxa falta vermelho-amor;
aqueles prédios estão entediados e beges demais;
enquanto naqueles olhos, tão desbotados de lágrimas,
esfrego mais uma camada de azul-marinho-oceano:
e serão os olhos mais aquáticos da minha pintura-lembrança)

escrever ordenhando as canetas: ordenhar a linguagem
leite-néctar de imortalidade, a ser misturado
espalhado em pequenos montes nas palhetas
para pintar o mundo de cor-sabor-memória

(se recusar alimentar os bebês gordos
chamados pelas suas mamães-tantas
"quem é o clichêzinho mais bonito?"
que essas bocas infantis tão edipianas
já não conseguem sugar quase leite algum
e se engasgam em si mesmas: arrotando.)

resolver-se a beber o próprio leite
dobrando em si mesmo: oróboro
o curto-circuito de amamentando as tetas
fazer as canetas se virarem sobre si nas camas,
fugindo de si, em vômitos de círculo:
fugindo-viajando para os longes.
planejar escrita é planejar:
amanhã acordarei sorrindo,
semana que vem sonharei com porcos;
é bem ridículo dizer issos aí.

ouvi dizer que forçar o sorrir de lábios
quando os olhos mais querem é irritar-se
e a boca contorce-se em desagrado:
se quem sabe pusermo-nos em felicidade
- falsamente, como sempre -
o sorriso tatua-se profundo na nossa pele
adentrando os poros e as rugas de enfado
até que já vamos nós sorrindo sem querer
e, felizes, sem saber quê;

talvez sorrir quando escreve
mude aquelas coisas que saem da nossa mão
muito mais do que planos de antemão;
então amanhã, acordar e sorrir de propósito
congratular-se da vida inventada;
e no sonho da semana que vem,
dizer faceiro: aquela sua mãe que apareceu lá
e todos aqueles estúpidos homens-maus que eu pensava ter visto
não passavam dum bando de suínos.

rima

me vêm umas taras rimativas,
que me querem ritmo e compasso;
- minhas mãos se revoltam vivas,
não sei o porquê daquilo que faço.

engasgo, tusso, asco,
isso vai ser um grande fiasco;
mas me recuso a esconder,
eu vou rimar, vou aprender:



se rimbaud rima
rimo também
minha obra-prima
não soa bem

(aplausos)

poesia e verso: vou rimar
e só não posso rimar com ar:
ar vem trazendo de antemão
os acessórios da expiração
ventos, sopros, brisas
aéreas planícies indivisas

ar possui o som perverso
que inspiração, é a mentira
entra nos meus pulmões de verso
e rima com não! respira-expira

rimar com não é denegrir
rimar com verbo é ruir
infinitivo é fácil ver
que forma rimas de sofrer

quero uma rima muito nova
rima essa que dê sova
nas crianças do balanço
nas velhinhas cheias de ranço
no poeta morto enterrado
(rimar com ado é retardado)
nos versos cinzas de outrora
na minha cara feia e vermelha
que se espreme de dúvida e cora,
que se agasta de dúvida e espelha.

mas o sentido, onde fica,
nestas rimas descuidadas?
por que se muito tudo indica,
que estão todas perfuradas

queijo suíço, elas parecem
e o ar vagueia entre seus furos
rimando feio elas tecem
uns muros altos e escuros

rimar pra quê? já nem me lembro
eu nunca rimo, setembro-novembro!
não não não. mas eu cedo, cedo
- estou é morrendo de medo.

mas divertido, rimar a esmo
sem nem assunto, ficar falando
poema brusco, poema-mesmo
rima só serve a sair cantando
é adoroso escrever isto tão apático
ah, como dói, eu choro tanto com isso;
é mentira. estou bocejando.
ou, em verdade, reenrolando tempo de distração.
os mais sábios devem chegar, à noite, com suas luvas de aço:
agarrar as idéias pelo pescocinho, ir apertando, apertando,
"cospe!" eles berram "cospe!"
e mais tarde anotam em seus caderninhos os gemidos-falsos;
e se vão, sem nem pegar o telefone.
ordenham-nas só para dizer que trepam (em torturas)
quando nem lhes agarram as coxinhas, nem acariciam os cabelos
e as idéias órfãs, tadinhas
ficam tão desmilingüidas..!
queriam mordidinhas na nuca metafísica
e soprinhos nas orelhas de borda-de-conceito
deviam vir pra cá dançar comigo, beber umas,
que mais tarde estávamos já caindo nas farras e nos amassos
(elas são umas devassas, mesmo!)
li nalgum lugar: "medir o homem por sua sombra"
e o autor achava isso um escândalo (era-lhe só uma idéia).
enquanto eu, na minha insignificância anônima e sombria,
aponto essas bagunças como uma coisa bem gostosa.
ai, os brincares de ver formas contra a luz!
(se tiro as vestes, estou igual: se envelheço, parecido)
minhas sombras tão bonitas acompanham dia;
e noite, tão bonita, persegue sol - ou é o contrário?
quem estudasse esses pretos: não faria cosquinha?
algum dia perceberiam: é nas sombras em que moramos
e de lá (aqui!) fariam "tsc-tsc" com a cabeça
olhando para os tantos que só nos imaginam carnes sólidas de contra-luz, corpos frígidos de luz, de vida sob aquela luz cada vez mais quente até nos secar as salivas e findar as mil safadezas do escurinho.
"descobri que texto e tecido têm a mesma etimologia."
"como descobriu isso?"
"perguntei-lhes."
o maior elogio a um
nem tem nada a ver com belos ou incríveis:
"nossa, isso aí (seja o que for esse diabo)
haha, já me fez escrever tanto"

e o autor fica sem-graça
percebendo sua cria promíscua, cheia de amantes por aí
é o maior elogio, no fim
porque diz: amo-te porque me fazes amar-me

os outros talvez olhem com olhos desconfiados
meio-engraçado, meio ignorável
quando muito este affair oculto é o mais bonito

(muito mais do que os "já lhe repeti várias vezes"
"nunca cesso de abri-lo de novo"
vejam: muito mais esta exclamação zombeteira:
"já tive filhos com isso." não importa se nunca voltei a buscá-lo)
coloquem em suas listas de afazeres
pôr nos sons um algo bastante invasivo
gritar bastante (isto pouco fiz)
descobrir-se um dos muito instrumentos que se lá gemem
cerrar pálpebras: que a luz é muito frígida
e deixar-se navegar a esmo pelos calafrios de braile
que nos invadem o tato e os músculos
gostar tanto de ti que quase te ver como personagem
daquela fabulação-filme-livro-históriadeboteco que chamamos vida
sentir-te quase literário
quase - aquelas notas finais da melodia preferida
descobrir o parentesco gostoso entre essa tua carne
rabiscada de cicatrizes e dores
e todos aqueles tecidos compridos
mesmo véus que vão se caindo sobre ti qual lencóis
e meio que vamos nos afundando neles (um afundar para cima)
e são feitos de água semi-nuvem nublada
que se desfazem ao toque ajuntando-se à tua pele
e logo tu és um amontoado úmido de cores e panos
viva, amontoado úmido de cores e panos!
viva, amontoado úmido!
viva!

eu estava andando pela música e ouvindo o chão

andando de olhos fechados, como escrevo de olhos fechados agora
escrevendo de olhos fechados, andando de olhos fechados,
o fio da realidade me soando tão mais frágil, se requebrando todo
(quase parece aquelas folhas de árvore que se atiraram no vento
e ficaram presas num fio de teia de aranha: congeladas no ar)
tudos já se mesclando: e de 'onde estou' é tão bonito
(e não ver o que é escrito: é quase falar)
andar no tempo de olhos fechados

hoje eu corri
sem ver o mundo: cerrado nestes eu-mesmos
e normalmente assim passo contando os segundos e os passos
brincando chegar a um limite, manter a conta, medir..
mas não, dessa vez não; haha
abdiquei das réguas:
estava a música e ela se foi me tornando mais real do que o chão que me pisava os pés.
e logo minha pele ficou manchada de som em várias partes
e eu sabia que as matérias de que me fazia eram muito calafrios e arrepios rítmicos percorrendo os meus pêlos
e meus movimentos todos delineavam uns outros universos
que cada músculo se afinava instrumento
e a música ia saindo era do meu própro corpo:
estou incerto instrumento musical e gaguejo!
e nada dos meus passos estarem é caminhando pela rua,
contraindo carnes feitas de sólido, ah não:
os tais sólidos e frios me eram um bonito poema
a que escutava com minhas orelhas acústicas
lá das terras do aéreo e do sonoro
invertindo a relação, se me tornando ponta-cabeça
ruído enorme me invadindo as cabeças, como um exército
que é para metermo-nos a caminhar naquelas estradas
(ah, que nem consigo falar: estou mais preocupado em me dançar e espasmar do que no descrever; que diabos! haha)
ah, que mundo o quê!
minha tara é por algo de muito mais rápido
muito muito passageiro e de que nem se falam muito
aquela sensação assim-assado, aquele removimento:
imagine um voyeurismo apenas dos gestos de limpar os pés nas portas
a fixação pelas relações entre tossidas e timbres de voz
estudos maníacos das palavras entre-resmungadas pelas cozinheiras de boteco;
o meu talvez seja um tanto mais longe e vazio,
porque eu talvez esteja só me coçando, mecanicamente
e nem realmente ligue a nada disso: espreguiçando.
gosto de saber tantos músculos se contorcem nas carnes
quando as meninas e os meninos se fazem de bobos ingênuos
e, por uma simpatia qualquer, um sortilégio infantil,
ganham ganas de se esticar em prosa gostosa
porque sozinhos se expandam tão grandes
que já outro dia esbarram uns nos outros
e se gritam "ei sai daqui!" "ei isso era meu, devolve"
todo o palavreado de simples esvaziar a alma dumas coisas tão incômodas que se nos alimentam
os bebês precisavam de tapinhas nas costas para arrotar
as crianças saem fazendo campeonatos dessas besteiras
eu gosto é de saber como os outros põem para fora esta espécie de dor-de-barriga metafísica e preguiçosa
acho é tão bonito dizerem por aí
"ai, que me falta a inspiração!";
esse verbo gostoso que nos serve às artes e aos fôlegos.
quase me dizem: "ai, falta-me ar!"
delirando efeminados quase em desmaio.
estão ofegantes dalguma corrida de suas horas
ou mesmo asmáticos: quase nem respiram
sufocando no ar-mesmo que nos entorna, líqüido.
e seus prazos pesados, bolas de ferro,
lhes afundando num oceano de irrespiradas,
um oceano de poeiras velhas sugando-lhes o ar:
os prazos expirando, e expirando mais e mais,
já sem brisa nenhuma que lhes acorde.
quase se ouve o silvo triste do ar que escapa,
pelos furos largos nunca tapados - mas dói tanto!
chegar um dia em que expirem completos - o prazo final:
os alvéolos fechando a quaisquer instintos ávidos que se lhes acometam
sem inspirações: sem respirações: sem energia
os Seres da Expiração, das cuspidas e faltas de ar;
cambaleando expirantes e resfolegantes. inspirem!
se para gritar as idéias bonitas,
que lhes requiram as inspirações profundas, cheias,
então, ó vejam: era bom engolir mesmo o mundo!
embriagar os pulmões de vida!
gritar as almas que se nos entulham a fala;
um grito tão forte que invada as bocas dos outros
um grito que irrompa em respirações beijo-a-beijo
um grito de beijos e vida aérea.
o ar talvez seja feito de cheiros e sabores,
e o pulmão lingüístico só pulsaria belo nos discursos.
é tão simples:
gostamos de falar
blablablá blablabli blabló
pouco importa sobre o quê:
se é só para empilhar sorrisos
e esticar as línguas um pouquinho,
um minutinho, enquanto vomitamos sangue
mas se dói? ah, e se dói! ah, e daí?
tudo invenções em gostoso
saborear as respiradas
reviver os olhares
falar, falar, falar
um, dois, três
quanto discutem inverdades por aí
quanto se perdem nas mastigações
rerruminando esgares de nojo.
olha: só possuo um feito.
as suas raivas; os seus medos;
mandaria-os todos ao espaço.
não se gastem em minhas fendas tristes
que é escuro: façam fogueiras
gosto de ser combustível: vim arder!
aquela habilidade infinda
de evaporar em sons mascavos
revirando os olhinhos da molecada.
lambam os beiços, vou lambê-los todos!
vamos atear fogo às roupas uns dos outros,
e rir.
as crianças me ouviam estiradas pelo assoalho
e eu reverberava em suas almas, tentando sair
elas ouviam tantas vezes, mas tantas
e eu gritando: levantem-se e me incarnem!
quantas crianças me abraçaram de olhos abertos
quantas crianças agarraram minhas lágrimas perdidas
quando tudo mais era só chorar comigo
fechar as pálpebras: e sonhar junto.
faca, queijo, pão
estão a conversar, sobre seus dias
"não me decido, imortal
cortar gargantas, passar manteiga
escravizaria mundos! haha
mas só espreito: enferrujo"
"eu alimento! mas inda assim
sofro apodrecer milhão
rimo beijo, limpo rato
meus buracos escondem vento e desrazão"
"sou carne divina, sou sustento
sou não: sou mão: sou cão
me partir dá tanto som:
sou música, desjejum, então?"
faca, queijo, pão
venham cá, e juntos
tes farei misturas múltiplas
faca, queijo, pão
morte, beijo, não
podemos juntos construir
seja o que for.
se você soubesse
o quanto preciso de você
o quanto me falta: tu, infinitamente
e minhas palavras soam vagas e lentas
sem ti: sou tão teu, minha vida
teus risos são o mais perfeito combustível
dos meus ais. sonha comigo!
me desmonta! ah, aparece,
desembaraça meus cabelos
estou tão descabelado..
vem cá me coçar estas páginas
de mansinho. sou pouco: sim sei
mas inda assim; cá vim!
coça minhas entrelinhas gostosas de mentira
e finge navegar as soltas que não tenho:
sou sozinho, ah mentira. mas vem!
que no fim iremos juntos reclamar tudo
e será mais gostoso infelizar a dois.
não desiste destes poucos parágrafos inventados
te gosto: resiste! te beijo escondido
lê mais o resto, que desimporta
se soubesses o quanto me satisfazem teus insultos!
como-os ávidamente, no café, antes de dormir.

convite

já não sei bem dessas de fim-em-si
escrevinhações... eu as tomo como meio
sua direção estaria em chamar os leitores a perto
convites: escrever convites
convites para uma certa festa que daremos juntos
em que escreveremos as grandes literaturas
(que nada passem de convites aos deuses)

- pois então: quem se voluntaria?
daquelas angústias; faltas de rumos
que caminhos novos estas letras me abrem?
não se sabe. por que isto? por que isto?

há algos que devem ser mais alardeados por aí:
as escritas precisam sair do papel branco;
que saídas encontrem, que saídas inventem
a escrita para sair da vida de papel branco
(a vida de branco)
(a vida em branco)
não basta escrever na vida,
pegar sua caneta e ficar desenhando no ar até que o vento leve:
esta escrita precisa sair do ar e entrar nas paredes,
precisa sair dos bloquinhos e seguir braços adentro
escrever nas linhas mas também nos sangues e sons
de forma que as próprias palavras ditas estejam pichadas, rabiscadas, fragmentadas:
o mais importante das canetas-tinteiro é as manchas na mesa,
os respingos nas roupas e nos dedos,
que denunciam: inventei.
auto-invenção, auto-construção,
auto-fabricação de corpos novos todos rasgados em imagens
imagine aquele dia em que você veja alguém sem nome lhe perguntando 'que horas são'
e note, gritante, nos trejeitos de suas sílabas,
no escoar da língua entre os dentes,
no próprio matraquear das idéias nas orelhas:
toda aquela multidão de falas tentando porque tentando sair;
uma horda de impossíveis revoltas às horas e ao são,
uma vibração de incomum: um 'que horas são' que se ponha de pernas pro ar: para sempre.

obrigar a fala do escritor a rebentar
obrigar suas letras a afogarem seus olhos
que ele não consiga mais ver o mundo igual:
que isto aqui tudo tenha algum sentido (por favor)
que não sejam floreios, ah! que não sejam floreios!
que não sejam poemetos de jornal,
embelezamentos fáceis de uma vida imóvel, conformada:
que seja sísmico; que seja tectônico;
que trema lá nos fundos dos refundos das almas
que se desagüem em novas formas de respirar
que as letras saiam da página, que escorram livres
que saiam de mim: que entrem em mim: que soem.
escrita escrita ita es crita escrita
esgrita grita escrita grita es crita
irrita a escrita irrita escrita a rita
escrita rita rito escrita escrito
esgrito mito minto escrito crita emito
irrita tinta rito extinto
trinta extinta tinta rito mito
escrito ita escrito inscrita
escrita imita o mito escrita ita limito
esgrita escri grita esgrima esgrima
esgrita es grita escrita escri es
cria ex cria crio escrita cria
rio escrita ria da cria lia rio ria rita
escrita cria rio lia escrita
escrita ria reta creta
excreta creta dis-creta diz creta
creta ria escrita reta
escrita reta veta via creta
escrita meta excreta
metaescrita da escrita reta reta
escri ta reta escri-crita reta
es crita grita esgrime rita crime reta
excreta escrime prime rima reta
esperta imprime prima ex creta
exprima rima esperma perma
escrita vita rima esperma
escrita crime exprime merda
exprime crita escrita impri
mescri ta cricri
escri- cri - escricri cri escricri
escricristo cristo
escri cristo excreta
cristo grita escrita veta
escri ta es criba escreva
escriva escrita viva
escravo cravo escravo criva
cravo cribo cabo encabo encravo
encapo escrita capo
escrita capa o escravo vivo alvo
escrita calpo escalpo escalpo
mesquita equita esculpe escrita culpe quita
escrita esquiva
escavo escravo criva rato
escrita ato es scrita salto alto
escrita cita salto ita ita
escrita cata quita o alvo salvo
escri va bica cava es calpo
escrita ita escri te escrito alvo escarro carro
escravo carro escarro esbarro
escravo viva vivo
escravo escrita
escrava
escrava
viva




a anarquia está refluindo

bastava deixá-la a si mesma,
suas memórias-mesmas repetinindo estilo
que iam-se perdendo em resmungos e rascunhatos
as duríssimas liberalidades de folha-de-papel-em-branco.

oh! infindável limpar as folhas de suas manchas!
se logo crescendo fungos pelas bordas,
as folhas tão manchadas de bege;

abrir terreno! explodir as velhas linhas negras circulares
velhas linhas grossas, pretas, resistentes
que me soam cordas e correntes atando os desejos de escrita:
tanto cabelos negros que me entopem os ralos,
impedindo os escoamentos, os deslizes, os rios.

eu nasci em um grande campo negro
regido pela Lei do círculo:
palavra circular, palavra-espelho, palavrarvalap.
e se por tal mesmo nunca proliferei,
encolhido por esse vômito de pronúncia;
se então atirei o escuro por longe - resolvi começar-me um nada
escrever um nada e deixar aflorarem muitos os pequenos vícios encolhidos;

mas ainda o lugar onde se escreve é como jardim:
e logo as livres mudas palrando novas de raríssimas
nunca dantes vistas em suas formas e desleituras
inventam a dominar-se regovernadas! e já sufocam;

uma escrita grande desmatar, desconstruir, desfazer, deslocar, desgovernar,
tudo a grande limpeza de tudos aquilos lânguidos que façam tamanha força por marcarem-se em papel;
tudo libertar os pequenos, os menores, os infinitos:
que meio vão-se em surgindo acidentalmente
e pelos cantos, pelos desinteresses, pelos vazios;
espontâneos: tão infinitos

grande motor da anarquia a mira na destruição, iconoclastia.
pois se construir, se dá no não-visado, só se dá no não-olhando;
escrito, ex-grito,
encarnando esse subterfúgio de apontar tudo alvos que rasgar,
inimigos que romper, que deixar;
largar as letras sós borbulhando em não regidas por grandes Leis
garanti-las dispostas em certas arquiteturas,
lhes interrompendo as fugas fáceis àqueles tão enfadonhos,
tão chamados lugares-comuns, de maus-hálitos
deixá-las soltas assim: esquecidas,
que por aí revolvam suas novidades de se ser.
não me venhas irritar com teus lugares-comuns
'ah pois que tu escreves sem sentidos'
vão-te à merda
livros
livres
libras
lábios
ivres (toujours ivres!)

lombrigas.
entortear palavras possui se muito tanto dum ritmo gostoso de sem-conteúdo
lhe nem chamo de floreio: que nem possui haste a se guiar;
bando de desmesuras engrandecendo mil nadas
só sorrisos letrados, sons impronunciados se escorregando entre os dentes:
meio quanto sem-sentidos: perdendo os sentidos: desmaiando
bolhetas de ar fluido repassando entre os palavreados
entre tantas engrenagens de incomunicação
que lhas façam girar sem rangidos
com rangidos
som bonito dos pliqueplaques da linguagem ressoando as rodas lentas de sua velha carruagem de mentiras, até despencar do penhasco bonitamente, naquele vôo veloz dos pássaros atirando-se às mortes improváveis do pouso fim.
se um mês sem escrita
não tenho desculpas
se me liberto em fragmentos
me permitem agüentar mesmo os ritmos tão ralos
inda assim m'escondo!
falseio.
tropeço. indigno!
revolto:
volto a screver aqüi.
andar de olhos fechados pelas ruas
sempre conto vinte passos e não agüento
às vezes pouco mais, quando uma parede que me guiar
mas muito tanto dez ou quinze,
se atravessar a rua, obstáculos, perigos
mesmo cinco! ou três!
extrair o máximo de silêncio dos olhos
caminhando em sonhos,
largar-se nos mundos oníricos:
deixar os olhos para o que lhes valha a pena.
tornear as escadas e travessas
se de tão soterradas em vislumbres repetitidos
já são muito engodo afagando lentas as imudanças:
lançá-las ao espaço:
ao longe
ganhar todas as aventuras de um andar cego maravilhoso.
se escrever como quem sonha.
lembro duns sonhos tão fortes,
tão maravilhosamente belos,
sonhar para descarregar potências artísticas do céu dos olhos fechados.