A língua chama asim, e só este chamar já guarda uma dominação.
Palavras que não designam bem a cor, a luz: flutuam, se aferram mais a significados que à pele bonita de um povo.

Fiquei branco de medo, lívido; exangüe. Branca de neve, de gelo imortal no topo das montanhas e dos polos frios, ou do inverno recolhido. Página em branco, virgem, pronta a ser preenchida. Voto em branco, chapa branca, sem cor, sem partido, indiferente. Cheque em branco. Brancura dos lençóis, dos lenços, dos jacelos de cientista e de hospital; brancura da assepsia, da higiene. Papel higiênico. Não deixar passar em branco, imauclado. Xi, me deu um branco agora. Leite branco dos ossos brancos, via láctea e galáctica e a luz branca da lua e de nossas lâmpadas fluorescentes. Brancos dentes, branca porra do homem, semente da vida.

Mandar esfregar com sabão forte o filho que sai mais escuro, em meio a claros, clarear do pigmentao diluído, até tocar no albino. Nudez da pele fina sem o sol, ser escondido de caverna e noite. Pálido. Passar pó-de-arroz.

Arroz com feijão.

Mercado negro, anos negros, o céu negro da noite. O escuro da caverna, chamar escuro e escuridão. Meu lado negro. Magia negra. Negação.

Eu a rigor sou é amarelo, cor de pele.
neste país de Cocanha
comer figos, rasgar a casca seca
enterrar-se na duna de farinha torrada
comê-la, sugar água das rachaduras
do encanamento
Gostosamente, põem as máscaras coloridas, com cornos e focinhos pronunciados, vibra de vermelho, e cada tanto em quê, não se sabe, mas as trocam, a ponto de só terem de referência tais roupas endemoniadas, perdidos os nomes nesta ciranda de faces trocadas.

Eu? sou um sangue
tinta vermelha
tinta vermelho escuro
tinta de carne

uma pilha de cartuchos vazios com restos de tinta
empilhados
vidrinhos de tinta
potinhos plásticos
garrafinhas várias
da tinta que nunca usei

sedimentados num canto do quarto
enterrados na carne
pendendo, juntando

como uma poça d'água escorrega
para dentro da cama